CUTI. Suspensão. São Paulo : Edição do Autor, 1983. 24p. (peça teatral)

 

Introdução

 

“A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós o tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite”

Nelson Rodrigues

(in Testemunhos – TEN)

 

Não fosse a cor da pele do ator uma linguagem e não teríamos inúmeros casos de personagens negras serem representadas por atores brancos pintados, evidente descaso a muitos profissionais.

Existem textos que, em princípio, não exigem personagens caracterizadas pela pigmentação, no entanto, quando da montagem lá encontramos o ator negro encaixado em papéis secundários, quase sempre para encenar empregados, ladrões e outras categorias de pouco relevo. Algumas pessoas pensam que alterando a categoria social da personagem negra, tudo estaria resolvido. O problema não se resume a isso. Um doutor em cena pode significar pouco no conjunto de uma peça, assim como um marginal pode ser o núcleo da ação. Estamos, portanto, diante de uma negação de importância. As personagens negras concebidas pela maioria dos autores poucam representam. E, quando não se fala em cor, o ator negro é estigmatizado por um suposta verossimilhança de cunho racista. Neste último caso a questão é concernente à montagem. Naquele, trata-se da concepção do escritor. Em verdade, as experiências dos africanos aqui escravizados e sua descendência não têm porejado dos bastidores o seu real teor de participação na vida nacional. O índice de melanina na pele dos autores não justifica a omissão. É provável que seja fator de condicionamento que acaba por definir uma postura ideológica, mesmo porque tanto a discriminação quanto os privilégios obedecem, de certa forma, a uma gradação epidérmica.

Ampliando um pouco o assunto, lembremos que a série para televisão intitulada O Sítio do Picapau Amarelo – programação para criança – exatamente porque só apresenta o negro em situação estereotípica, foi impedida de circular em Angola, mas continuou sendo veiculada em nosso país, o de maior população negra fora da África. Podemos ter em mente o quanto o poder decisório brasileiro está compromissado com a discriminação racial através da promoção da imagem estática do negro, não só para justificar mas para manter uma situação de domínio. Dessa maneira, na mentalidade dominante, a cor da pela já se constitui num significado apriorístico. A consciência de linguagem nos levará à prática e à teoria artística da transformação desse quadro. Há um drama do qual só o negro vivencia a violência, que nem todos conhecem, muitos fingem não perceber ou simplesmente negam, mas todos participam, pois é um drama mestiço. Para dizê-lo é preciso transpor duras barreiras. E como bem diz Lélia Gonzales, no prefácio do Cadernos Negros 5 – Poesia, nós enfrentamos dentre outras dificuldades “sobretudo o silêncio ressentido da cultura dominante”. Há uma cumplicidade intelectual atuando para obliterar o trânsito do verdadeiro significado social da cor da pele na arte nacional. O amálgama das vivências de toda uma parcela da população brasileira aguarda a expressão crítica de seu dinamismo. As associações negras – constituindo aspectos particulares da sociedade – desde sempre esboçaram, com maior ou menor contundência, o seu protesto ao sistema político-social em que subsistem. O termômetro da crítica, em suas manifestações, sempre foi a forma de dependência que mantêm com as camadas manipuladoras do poder – seja ele econômico, político, intelectual, estético, etc. Quanto mais atreladas mais passivas e conformes à hipocrisia que, em suas peripécias com argumentos dos mais vergonhosos, chega a condicionar certos autores negros. No jogo da busca de aceitação que se estabelece, encontramos o estereótipo do “pai-joão” assumido por alguns poetas e contistas negros contemporâneos que, ao arrefecerem o teor crítico em seus trabalhos, são considerados “sem rancor” e paternalizados, o que lhes garante os humilhantes favores. A alienação acaba sendo aqui o aval para uma integração desintegradora.

Na dramaturgia, desde o volume organizado por Abdias do Nascimento, intitulado Dramas para Negros e Prólogo para Brancos (1961), antologia de 9 peças – resultado da militância empreendida pelo Teatro Experimental do Negro a partir de 1944 – vamos presenciar um quase vazio, conseqüência também da repressão política que atingiu o Teatro Brasileiro de 1964 a 1979, como bem demonstra Yan Michalski no ensaio O Palco Amordaçado (1979). O testemunho escrito das manifestações dramáticas negras desse período inexiste. Surgiram, contudo, grupos meteóricos, como o Evolução – por volta de 1976 – com a peça Sinfonia Negra, ao que me parece de criação coletiva. É também de se registrar a peça E agora Falamos Nós, de Eduardo de Oliveira e Oliveira e Thereza Santos, anterior à Sinfonia. Negros fazendo teatro de crítica social! É preciso insistir nesse aspecto porque é através dele que a questão da personagem negra será devidamente equacionada no Brasil e o significado social da cor da pele estará livre dos esquemas mentais alienantes. Este significado não é mero adereço de fantasia carnavalesca. É o indicador de experiências de vida profundas que a sociologia já soube considerar.

Com o ressurgimento da Imprensa Negra em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e mais recentemente na Bahia, incentivaram-se as manifestações teatrais. O FECONEZU (Festival Comunitário Negro Zumbi) realizado no Estado de São Paulo, desde 1978, vem sendo anualmente palco de tentativas amadoras. Um aspecto a realçar em vários espetáculos que presenciei neste período foi o da constante ausência da personagem com vida própria, o que demonstra a distância entre os grupos e os dramaturgos, ou a ausência destes. A epopéia de Palmares, a saga da escravidão e a discriminação racial surgiam como temas genéricos. A necessidade imediata de informar recorria à declamação poética, citação de trechos de livros ou manifestos. No 3º FECONEZU foi apresentada a comédia Negros que Riem, autoria de Henrique Cunha Junior, que me chamou a atenção naquele contexto por apresentar uma família negra, na qual as personagens não estavam desprovidas de personalidade nem a mensagem se perdia em didatismo. O que é de se lamentar é o tão pouco tempo em que as peças eram apresentadas. Muitas eram feitas só para o dia do Festival!

Em 1980 iniciou-se na capital paulistana as atividades do NAC – Negro Arte e Cultura, estreando com Ongira: Grito Africano, de Estevão Maya-Maya e Antonio de Pádua, e dando continuidade com a remontagem de E Agora Falamos Nós (1982), já citada. Outras iniciativas foram feitas, por outros grupos mais recentes ou mesmo atores com trabalhos individuais, ensejando já um estudo sistemático.

Suspensão foi escrita em 1978, época em que eu também estava tomado como que por um frêmito de que “precisamos fazer alguma coisa”. Foi encenada em Santos, num só dia, uma só vez! A experiência, apesar dos pesares, me foi gratificante, inclusive em termos de perceber mais a fundo a força da rejeição com que tentam barrar a nossa expressão. A título de exemplo, o diretor – um branco – diante da rubrica que pede que as personagens troquem cumprimento black (uma forma de saudação da juventude negra, em voga na época do Black Soul e persistente até hoje), alegou que era americanismo e sustou. Com o mesmo argumento, quando faço menção de música tipo balanço, colocou Milton Nascimento, um compositor que nunca foi apreciado em bailes nem curtido pela rapaziada que eu procurava retratar.

Os elementos do grupo que tinham convencido o diretor a realizar a montagem não levaram adiante o entusiasmo. Argumentos esquerdizóides de que “a questão é de classe” acabaram por arquivar o esforço até ali despreendido. O titubeio freqüente e reacionário que norteia as cabeças diante da questão racial brasileira tinha desferido sua pancada de desânimo. Engavetei o escrito no cansaço (eu tinha confeccionado – com tampinhas de garrafas! – uma roupa para o personagem Alegoria).

Com alterações feitas na primeira versão, faço publicar o texto mesmo sem contar com horizonte colorido de esperança. A peça pode ser lida. Não me conformo mas aprendi a conviver com os limites porque estou empenhado em rompê-los. Talvez no futuro possamos agradecer aos que colaboraram conosco, de forma folclórica ou pitoresca, e dispensar seus serviços.

Não sei quando teremos uma outra coletânea de dramaturgia negra brasileira, que já se faz necessária, bem como grupos mais persistentes. Fica aqui minha singela participação neste sentido e a certeza de que, a despeito de tudo, nós negros constituímos uma linguagem no contexto nacional, a ser expressa no espaço cênico para além do folclore, em busca de um novo cenário na mentalidade do nosso povo.

São Paulo, janeiro de 1983

        CUTI

 

 

SUSPENSÃO

 

Peça em 1 ato e 11 cenas.

 

Cenário: SALA – ambiente pobre, com uma porta ao fundo. Essencial: 1 mesa e 3   cadeiras.

BAR      – Ambiente simples. Essencial: 1 mesa e 3 cadeiras.

PLATÉIA/PALCO – PALCO/PLATÉIA – cadeiras no palco. Ação na platéia.

 

Personagens: com exceção da Alegoria e dos 2 Homens, todas as personagens são necessariamente negras.

 

Isolina– jovem. Filha de Patrício.

Patrício– velho. Pai de Isolina e Baleia.

Baleia– rapaz. Filho de Patrício. Irmão de Isolina.

 

Rapaz 1 / Rapaz 2 – amigos de Isolina.

 

Personagem 1 / Personagem 2 – jovens

 

2 Homens – Vozes no escuro – cena 6.

Fisicamente – cena 10.

Simbólicos:

Alegoria – esta personagem usa máscara/capuz, na qual estão incrustadas embalagens de produtos industrializados de consumo. Veste terno e gravata impecáveis. Estará imóvel debaixo do Boneco Preto nas cenas 1, 2 e 3.

Boneco Preto – de pano. Meio metro de comprimento. Sua localização original é – suspenso pelas costas – ao canto esquerdo do palco, apartado da cena, porém bem visível. Nas cenas 1, 2 e 3 está de braços pendidos.

Preto Velho – esta personagem é um desdobramento de Patrício. É representada pelo mesmo ator – cena 2.

Voz Feminina – surge dos bastidores na cena 10. Na cena 11 aparece no público.

 

NA SALA

 

Cena 1

(Patrício e Isolina)

PATRÍCIO – (Acordando de um sono debruçado sobre a mesa) Ahn... Ahn... Quem é?

ISOLINA –(Entrando depois de se ouvir barulheira de coisas caindo. Corre atrás de rato com uma vassoura) Filho da puta! Safado!...

PATRÍCIO – Que é isso aí?

ISOLINA –(Desistindo da perseguição) É o Pelego, pai! Eu ainda pego ele. O senhor já viu como tá grande o safado?

PATRÍCIO – (Rindo) Ah, de já hoje tava me olhando ali da porta. Dá até pena. Parece que até se sente da família.

ISOLINA –Mas eu ainda mato ele, o senhor vai ver.

PATRÍCIO – Se desse pelo menos pra fazer uma fritada, valia o esforço.

ISOLINA –Rato dentro de casa não é motivo de graça, não, pai.

PATRÍCIO – Pelo menos esse aí pára em casa.

ISOLINA –(Pausa) Vai começar tudo de novo, pô!?

PATRÍCIO – A coisa não tá direita, Isolina. Você não tem idade pra tá chegando essas hora em casa.

ISOLINA –Mas que hora?

PATRÍCIO – Ontem.

ISOLINA –Como é que o senhor sabe que eu cheguei tarde, ontem? O senhor estava dormindo. Já sei! Foi a velha louca. Essa sardenta. (Em voz alta) Coruja depenada! Não tenho culpa se ela não vai com a minha cara. Essa coruja!

PATRÍCIO – Mais respeito com os outros, Isolina.

ISOLINA –Respeito o quê! É bom mesmo ela escutar. O senhor fica lambendo essa bruxa só por causa da casa... A gente muda daqui. Eu não agüento mais. Acho bom procurar um outro canto pra viver.

PATRÍCIO – Devendo do jeito que a gente está?! Só indo lá pro Fundão. E eu pra lá não volto. Sou preto mas não quero saber de favela. Ao invés de ficar com boca-dura é melhor ver se arranja emprego.

ISOLINA –O que é que eu faço todo dia?

PATRÍCIO – (Recuperando a calma) Ina, minha filha, você precisa compreender que as coisas não são assim. Tem que ter paciência. E de mais a mais ela só me fala pra ter cuidado com você. Foi só a sua mãe morrer e você ficou cavala desse jeito!...

ISOLINA –É, quando a mãe era viva essa velha nunca veio aqui tesourar a minha vida. Sabe por quê? Por que se viesse a mãe metia a mão na cara dela. Mas, eu vou arrumar um emprego, o senhor vai ver!

PATRÍCIO – (Divagando) Já não chega o Baleia preso há tanto tempo, mais essa malcriação agora!...Ô Dadá, você não podia ter deixado uma carga tão pesada pra mim!

ISOLINA –Pai, deixa a mãe em paz. Olha, e eu também não gosto que o senhor fica me comparando com o Baleia, tá! Ele tá preso e eu aí me virando todo o dia pra arrumar serviço... Sei lá... É que o senhor é tão mole. Parece que anda com medo de viver.

PATRÍCIO – Eu sempre fui um homem sossegado. É de natureza.

ISOLINA –Será que é mesmo, pai? Esse negócio de natureza e destino eu não consigo engolir. Vai me dizer que essa bebeção de cachaça é por natureza também?

PATRÍCIO – Bebeção? Eu não bebo tanto assim...

ISOLINA –Não, pai?! O senhor não bebia tanto enquanto a dona Dadá estava viva e regulava o seu aperitivo. Foi só a mãe morrer e o senhor desandou. Parece até que quer se afogar, se matar... O senhor pensa que eu não preciso do senhor? Não é só pra ficar controlando a minha hora de chegar. Eu preciso de papo, entende? De conversa. O senhor precisa continuar vivo...

PATRÍCIO – Mas será que eu estou morto?

ISOLINA –Não, mas está se acabando. É difícil encontrar o senhor falando coisa com coisa. Tá sempre ó (gesto com o polegar em direção à boca). Desse jeito vai acabar num hospital.

PATRÍCIO – Prefiro ir direto, sem baldeação.

ISOLINA –Então é isso. Está a fim de se matar, né? Põe filho no mundo pra depois largar por aí... (senta-se desconsolada).

PATRÍCIO – Depois que a tua mãe morreu... doença ruim... essa cadeira vazia... Sabe, a gente ganhou, a gente gastou, mas ali, sempre junto. Era uma mulher e tanto. Nós até que conseguimos comprar muita coisa. Não fosse a doença...

ISOLINA –Só uma casa é que faltou comprar.

PATRÍCIO – Também, naquele tempo não tinha essas mamata que tem hoje. Mas fica sabendo que a gente viveu muito bem. (Sonhador) Desde aquela briga...

ISOLINA – Pai, não fica lembrando.

PATRÍCIO – Deixa, Ina. Num tem jeito. Essa saudade não tem cura. Só alívio. É assim que alivia.

ISOLINA – Tá bom...

PATRÍCIO – Eu te contei da briga?

ISOLINA – Não, não contou, não.

PATRÍCIO – Eu sabia que não tinha contato. Estou velho mas não caduco. É como Nega Dadá dizia: velho é trapo esquecido de que roupa veio.

ISOLINA – Que negócio é esse de Nega Dadá?

PATRÍCIO – Na mocidade todo mundo conhecia ela assim. (Pausa) Mas como eu ia falando, “fechou um tempo” num desfile de carnaval que foi uma coisa de doido. Uma confusão com a escola de samba da Dadá e uma gente que assistia, que não teve graça! E lá tava eu. Briga dela... É... (ri). Começou – eu estava vendo, porque não era de desfilar. Começou com a chacota duma dona que estava assistindo o desfile quando a Dadá passou. Uma vizinha dela. A muiezinha acho que pensou que tinha proteção dos macho dela – uns caboclo forte – e xingou a Dadá de nega bunduda e safada. Ah, não teve caldo no feijão. Dadá deu umas rebolada perto da dona, cuspiu na cara dela e cobriu com um tapão. Aí ferveu!

ISOLINA – E o senhor?

PATRÍCIO – Eu? Eu andava de olho nela há muito tempo. Mas sua mãe era difícil. Fazia de conta que não me via. Arrogante...

ISOLINA – É mesmo?

PATRÍCIO – Naquele tempo. (Pausa) Mas, sabe, ela tinha me visto antes de chapar a cara da dona. Ela deu o rebolado e gritou pra mim (Imitando): “Segura o sinhozinho aí, Patrício!...” Ah, eu agarrei com tanta força o caboclo que já ia pro lado dela que até hoje não sei... O resto quando viu, embolou. Aí o pau comeu de vez. Uma negrada boa de briga qu’eu vou te contar! E o batuque ali, ajudando a gente. Se não fosse o xadrex e um olho inchado, tinha sido melhor.

ISOLINA – Deu cadeia?

PATRÍCIO – Se deu! Só na quarta-feira de cinzas!... Mas quando eu saí ela já estava lá me esperando com um sorriso des’tamanho e um olho de criança querendo doce. (Palmas. Isolina vai atender. Volta com um papel na mão) Quem era?

ISOLINA – Um conhecido meu. Veio trazer um convite. (Lendo) Semana de Zumbi...

PATRÍCIO – O quê?

ISOLINA – Semana de Zumbi dos Palmares. Deve ser uma festa.

PATRÍCIO – Zumbi... hum...

ISOLINA – O senhor já ouviu falar?

PATRÍCIO – (Andando para um canto) Não. Dessas coisas eu não entendo. (Som forte de atabaque. Isolina dobra-se na cadeira, cabeça pendida para o chão, de frente para o público. Penumbra seguida de iluminação sugerindo atmosfera de sonho, de mistério. Patrício sai do canto como Preto Velho. Do lado oposto acende-se uma vela).

 

ma cachimbo e usa um pedaço de pau como bengala. Caminha com dificuldade) Mas eu sei. Fico atrás do que foi tapado e não passô do pai pro fio. O zóio que num dorme. He, he, he. Sô a memória moída que o sangue juntô. Moro dentro d’ocê (aponta o público) e saio pra cochichá história no quieto do escuro. He, he, he... (Fuma pensativo) E, sabe, as história de Palmar tem muita coisa escondida no miolo do tempo. Tinha uma dum escravo, home de Zumbi, que trabaiava na fazenda dum chamado coroné Sezefredo. Ficava lá, só dano jeito dos companheiro fugi. E foi n’ua

Cena 2

(Preto Velho)

PRETO VELHO – (Fuma cachimbo e usa um pedaço de pau como bengala. Caminha com dificuldade) Mas eu sei. Fico atrás do que foi tapado e não passô do pai pro fio. O zóio que num dorme. He, he, he. Sô a memória moída que o sangue juntô. Moro dentro d’ocê (aponta o público) e saio pra cochichá história no quieto do escuro. He, he, he... (Fuma pensativo) E, sabe, as história de Palmar tem muita coisa escondida no miolo do tempo. Tinha uma dum escravo, home de Zumbi, que trabaiava na fazenda dum chamado coroné Sezefredo. Ficava lá, só dano jeito dos companheiro fugi. E foi n’ua coieita de café que um muleque – fio duma escrava com sinhozinho, sem a sinhá sabê porque senão a danada botava a coitada no tronco até matá – o muleque levô mordida de cascavé, uma cobra venenosa que só!... Aí o home de Zumbi fez uma reza braba num caneco d’água e deu pro muleque. O fio do coroné co’a sinhazinha – um branquelinho posudo – quando viu, começô a dá risada e chamano o home de fiticeiro. O home oiô bem no zóio dele e lascô mandinga (Imitando): Hum, hum! Deu uns nó nos dedo que o sinhozinho danô a ri que num parava mais. Aí foram chamá o coroné que veio cuspino fogo, e quando viu o fio vermeio que ném brasa e dano risada feito lôco, foi de reio pronto pra dá no home que já tava no chão fazendo umas micage e dizeno (Imitando): Óia Zambi. Óia Zambi. Óia Zambi... Tava gingano uma capoeira de matá. Deu dois tombo no sinhô com chicote e tudo. Dispois uma pancada só: matô! Quando a cambada do coroné veio pra ciscá no terrêro, os escravos já tava tudo gritano dum jeito só (Imitando): Óia Zambi. Óia Zambi. Óia Zambi. Era a revorta que já tava preparada. Muita gente morreu na luta. Mas o grosso dos escravo caiu fora direitinho pro quilombo. A fazenda ficô limpa de gente viva. Só o fio do sinhozinho é que restô, rino até caí no meio dos morto, he, he, he... E tem um tantão de história!... Tem muita coisa escondida no miolo do tempo, he, he, he... (Vai saindo, voltando ao canto e onde veio. Apagam-se as luzes. A vela fica por um instante, depois apaga-se).

 

Cena 3

(Isolina e Patrício)

ISOLINA – (Só. Canta, enquanto vai retirando uns pratos da mesa que em seguida passa a limpar. Entra Patrício visivelmente bêbado) Oh, meu Deus!... De novo?... (Decepcionada) O senhor recebeu pagamento.

PATRÍCIO – Recebi.

ISOLINA – (Levantando a voz em tom brando) E já depositou no bar, não é? E já tá (Gesto com o polegar em direção à boca), né, pai?!...

PATRÍCIO – Não. Só tomei um golinho. (Tira com dificuldade algumas notas do bolso e põe sobre a mesa) Tá tudo aí, ó... Dá pra comer o mês todinho. Dá até pr’ocê ir nos seus baile (ri. Está muito contente).

ISOLINA – Que felicidade mole é essa, pai? (Ampara-o) Oh, dona Dadá, que cruz a senhora me largou!...

PATRÍCIO – (Brincando) Cruz não. Eu num sô cruz. Eu sou Jesus! Patrício Jesus dos Santos. Ah, ah, ah...

ISOLINA – (Ajudando-o a sentar) Senta direito! Me fala então, por que e qual é essa transa nova. Arrumou serviço pra mim?

PATRÍCIO – Nããoooo... mas a Dadá vai dar um jeito. Ah, ah, ah... Ela (ensaia uma maneira moderna de dizer) vai dar uma força pra nós três.

ISOLINA – Que conversa é essa?

PATRÍCIO – É uma conversa muito séria. Não tem nada de fiado, não. (Pausa) Eu falei com ela!

ISOLINA – Espera lá, pai...

PATRÍCIO – Você não acredita em nada! Mas eu falei com ela. (Pausa) Me disse pra pedir aposentadoria da açucareira, e que eu vou ganhar muito mais, mesmo com dinheiro mais curto. Ela quer que eu não fique mais agüentando desaforo daquela cambada de safado.

ISOLINA – O senhor está falando sério?

PATRÍCIO – Tô. Eu tomei uns aperitivo mas ainda estou lúcido. E tem mais, sua mãe mandou uma boa notícia pra você e pro Baleia. Você vai arranjar o emprego não demora muito, e seu irmão sai loguinho da cadeia e vai tomar juízo.

ISOLINA – Oh, pai, eu estou quase acreditando. Mas, me diz uma coisa: sobre os aperitivos a mãe não falou nada?

PATRÍCIO – Hum?

ISOLINA – É... ela não mandou o senhor parar de beber? Nem mandou dar uns tapas na cara dessa velha que o senhor vive lambendo por causa do aluguel atrasado? (Patrício levanta-se e vai até a boca de cena. Contorce-se um pouco) O que foi, velho? Fala?

PATRÍCIO – (Com as mãos sobre a altura do fígado) Eu tenho que lutá muito, muito...

ISOLINA – (Amparando-o) O que o senhor tá sentindo, pai?

PATRÍCIO – A dor... Bem que a Dadá falou...

ISOLINA – Deixa eu pegar o remédio. (Sai de cena, deixando Patrício agachado. Continua falando de dentro) Eu já falei! O senhor não pode beber...

PATRÍCIO – Anda , Isolina...

ISOLINA – (De volta. Tenta dar o remédio numa colher) Bebe, vai passar.

PATRÍCIO – (Transtornado) Bem que ela falou...

ISOLINA – (Sem conseguir medicar o pai que se curva. Tenta segurá-lo com uma das mãos, na outra a colher) Calma, pai. Agüenta um pouco. (Patrício despenca. Vai junto a colher com remédio) Espera... eu vou chamar uma ambulância (Sai apressada. Apagam-se as luzes).

 

NO BAR

 

Cena 4

(Rapaz 1, Rapaz 2 e Isolina)

(Sobre a mesa, garrafas de cerveja, copos tipo americano, cálices de aperitivo. O Boneco Preto balança num canto oposto à sua posição original, nas cenas anteriores. Balança de forma perceptível. Os três, sentados à volta da mesa, conversam. Uma música tipo balanço – soul, jazz – em alto volume impede a conversa de ser ouvida. A Alegoria entra, dança expansivamente e se perde no público. A música torna-se de fundo).

 

RAPAZ 1 –(Para Isolina)... é isso a Semana de Zumbi. Uma forma da nossa gente estar mais junta, entendeu? Um trabalho de conscientização buscando o nosso próprio caminho nessa selva de mentira e ilusão que meteram na cabeça da gente. E o teatro é a grande “lança”, percebe?

RAPAZ 2 –Da próxima vez você bem que podia participar, Isolina. O Jorge do Grupo Malungo está montando um puta texto que fala de toda a história do negro no Brasil. Ele estudou a fundo o teatro do Abdias do Nascimento e a poesia do Solano Trindade.

RAPAZ 1 –É uma boa, Isolina, porque a gente tá sabendo que escondem uma série de coisas do nosso pessoal. É preciso botar pra fora a nossa verdadeira história. Esse negócio de pintar o negro sempre covarde, bonzinho, acomodado, isso não dá mais pé. E sem contar que gente importante aí na história do Brasil andou “aprontando”, igual o tal do Rui Barbosa que queimou uma “pá” de documentos sobre a nossa história. Você sabia dessa, Isolina?

ISOLINA –Não... Eu estou meio por fora.

RAPAZ 2 –Não é só você não, Isolina. A nossa gente está na maioria por fora. Muita gente entra naquela: fica com vergonha por causa da escravidão, inibido, e acaba querendo fazer de conta que não tem história.

RAPAZ 1 –Inclusive com vergonha da África.

ISOLINA –É... mas, não tem problema da gente acabar fazendo racismo, também?

RAPAZ 1 –Esse negócio de dizer que negro estando junto provoca racismo é papo furado. É mania de sinhozinho. O judeu, o japonês, o português, não têm seus clubes? Não promovem suas coisas? Porque a gente não pode? Não é porque eles se unem que eles fazem racismo, ou será que fazem? Nós não temos que pedir pra ninguém pra ter o direito de se organizar. Só assim que a gente vai mudar essa sociedade.

RAPAZ 2 –E tem outra, qual a raça que não puxa farinha pro seu saco?

ISOLINA –É... tudo bem...

RAPAZ 2 –Se a nossa gente está na favela, não é de graça, não. Tá lá ó (Apontando com o polegar pra trás, por cima do ombro), tá lá no passado o começo de tudo. Já viu, né, chega lá no Fundão, pode contar: 90% é negro e mulato.

RAPAZ 1 –Mulato é negro, pô!

RAPAZ 2 –E a gente nunca vai saber como sair desse sufôco fodido, sem estudar o passado, sem ver direito como tudo começou. O grande trunfo é a história.

RAPAZ 1 –(Levantando-se) É isso aí, falou, Isolina?... Vai lá no dia 20. A programação tá boa. Acho que você vai gostar muito da peça de teatro que a gente fez.

ISOLINA –É... se o velho melhorar eu vou. Ele não está muito legal. Ah, não paga nada, né?

RAPAZ 1 –Micharia. Mas a gente quebra o galho de vocês.

ISOLINA –Tá legal! Ah, aquele livro que você me emprestou, eu te devolvo lá, no dia.

RAPAZ 1 –Não tem pressa. Gostou?

ISOLINA –Eu estou no começo ainda. Mas já fiquei puta da vida de saber quanto nêgo chegou aqui na escravidão. Pô! e de que jeito!

RAPAZ 1 –É barra... (Põe umas notas sobre a mesa) Tcháu, Isolina! (Ensaia um cumprimento “black”. Isolina se atrapalha) Espera lá. (Ensina) É isso aí. (Dirige-se para o Rapaz 2, cumprimentando-o da mesma forma, com grande agilidade) A gente conversa amanhã, falou? (Vai saindo).

RAPAZ 2 –Vê se chega no horário, hein, meu! Não vai vacilar de novo.

RAPAZ 1 –Pode deixar. Vou até chegar no horário... africano (Ri).

ISOLINA –(Para o Rapaz 1) Escuta aí, a gente tem também aquele papo sobre o 13 de maio que você falou. Como é que fica?

RAPAZ 1 –(Voltando-se) Ah, o 13 de maio? Por enquanto joga na borboleta, porque essa história de abolição da escravatura tá muito mal contada. Se der vê se faz 13 pontos na loteria esportiva (Ri). Dá uma ligada lá pro serviço amanhã... (Sai de cena).

 

Cena 5

(Rapaz 2 e Isolina)

RAPAZ 2 –Você vai “subir”?

ISOLINA –Vou. Eu tenho que dormir logo pra ir procurar emprego bem cedo. Não tá fácil!...

RAPAZ 2 –É... “trampo” parece agulha em palheiro. Quando começam com esse negócio de boa aparência, aí é que a coisa complica pro nosso lado. (Ri. Coloca algumas notas sobre a mesa e dirige-se para o público apontando o dinheiro) Olha aqui, Maneco. Não fica “marcando”, não. A grana tá aqui, ó. Depois vai falar que negrão não paga conta... (Ri. Volta-se para Isolina) Ah, eu tenho uma notícia pra te dar. (Vão saindo lentamente)

ISOLINA –O quê?

RAPAZ 2 –É o seguinte: O Baleia fugiu.

ISOLINA –(Espantada) O quê?

RAPAZ 2 –É... fica fria! Eu fui lá na detenção e meu primo estava falando. Teve um motim lá, sabe, e fugiu um bocado de gente... (Apagam-se as luzes)

 

NA SALA

 

Cena 6

(Dois Homens – Vozes)

(Palco inteiramente escuro. Barulho de móveis sendo revirados com violência. Um lanterna procura. Incide às vezes sobre o público. Dos dois personagens, apenas as vozes sobressaem com irritação no escuro completo.)

 

VOZ 1 –O filho da puta não deve nem tê cheirado o “mocó”.

VOZ 2 –É, nem sinal dele.

VOZ 1 –Vamo esperá o velho e dá um aperto nele.

VOZ 2 –Não, deixa pra lá. O velho não agüenta um peido. Dá do cão morrer, aí já viu. Já deu sujeira daquela vez, porra!

VOZ 1 –Pode ser que já chegou no barraco da mulata.

VOZ 2 –Se não chegou vai chegar. Deve tá louquinho pra dar uma “trepada”, o puto.

VOZ 1 –(Luz de lanterna acendendo num ponto, apagando e acendendo noutro ponto) É, esse é perigoso. É jogar umas azeitonas e depois vê como é que fica o “presunto”. (Vão saindo. A lanterna piscando.)

 

Cena 7

(Isolina, Patrício e Alegoria)

(Isolina lê. Uma projeção de slides mostra cenas da escravidão, da obra de Debret. De costas para o público encontra-se, sentada à mesa, a Alegoria, inteiramente invisível às personagens. O Boneco Preto na localização original, acha-se com os pés unidos à cabeça. Patrício está, de início, fora de cena.)

PATRÍCIO –Hum... Hum... Não. Me larga... Solta... Me larga... Ahn... Ahn... (Chega à porta assustado. Cessam os slides.)

ISOLINA –O que foi, pai?

PATRÍCIO –Um sonho... Nossa Senhora! Faz tanto tempo que nem sonhá eu sonho!... Nunca tive dessas coisas...?

ISOLINA –É a bebida.

PATRÍCIO –Larga mão de bobagem. Aperitivo e pesadelo é como ovo e pelo. Não tem nada a ver uma coisa com a outra.

ISOLINA –É, mas quem me disse isso foi o médico.

PATRÍCIO –Médico?

ISOLINA –É, o senhor até já se esqueceu do vexame de ontem?

PATRÍCIO –Ah, sei... (Pausa) É, eu não devia dar tanto trabalho.

ISOLINA –Não devia mesmo. Dá até vergonha. Os vizinhos tudo vendo o senhor sair carregado, vomitando uma água fedida... (Pausa) Mas, deixa pra lá, é bom esquecer, pai. Eu não devia nem ter lembrado. Acho que as coisas vão melhorar um pouquinho.

PATRÍCIO –Choveu na tua horta?

ISOLINA –Choveu.

PATRÍCIO –Ah, tá vendo. Eu não disse que a Dadá ia ajudar? (A Alegoria saindo vai-se misturar ao público.)

ISOLINA –Foi engraçada a entrevista. O homem lá do escritório, primeiro me elogiou tanto que eu até fiquei meia sem graça. Depois falou (Ênfase, representando): “Mas, sinto muito, a diretoria da firma resolveu exigir o curso de inglês para esse cargo”. Aí eu não agüentei e perguntei se tudo aquilo era porque eu era negra, se a firma dele não gostava de preto... Aí o cara se espantou, disse que não era isso e que eu não tinha deixado ele terminar, que tinha outra vaga...

PATRÍCIO –E então deu certo?

ISOLINA –Deu, né. Não deu pra recepcionista mas deu pra datilógrafa. Começo depois de amanhã. Mas não sei não... Parece que aquele cara não gostou muito d’eu ter falado.

PATRÍCIO –Mas é assim. Sua mãe é que também num gostava de meia conversa. Quando nós casamos ela até não concordou mais que chamassem ela de Nega Dadá. Porque tinha muita gente que aproveitava do apelido pra ficar com esse negócio de preconceito.

ISOLINA –Agora vamos ver se não vão inventar alguma outra coisa pra “pegar no meu pé”. (Pausa) Pai?...

PATRÍCIO –Ahn?

ISOLINA –Eu ia falar com o senhor, mas não deu...

PATRÍCIO –O que é que já foi, Isolina?

ISOLINA –Eu briguei com a dona aí e ela pediu a casa. E logo. Eu acho até melhor mesmo a gente sair.

PATRÍCIO –Como é que é isso?

ISOLINA –Hoje, depois que o senhor voltou do hospital, ela veio aqui, com desculpa de fazer visita e começou a falar que o senhor bebia por minha causa; que eu só dava aborrecimento; meteu a língua no Baleia porque a polícia teve aqui... Chegou uma hora que não deu: “saí com os cachorro” em cima dela.

PATRÍCIO –Você não tem juízo!... E o que tá atrasado?

ISOLINA –Ela espera. O senhor faz tanta coisa pra ela e ela nunca pagou!

PATRÍCIO –Mas, não é assim. A gente tem que ter um pouco de paciência... Você parece que quer levar tudo na base do porrete! Desse jeito...

ISOLINA –(Controlando-se) Não fui eu quem falou que a gente ia mudar. Foi ela que pediu a casa. Eu não tenho culpa.

PATRÍCIO –Num tem culpa, num tem culpa... Diabo! voltar pr’aquele mundo!... Você era pequena quando saímos de lá. Fundão não é lugar de se morar, não. (Com a cabeça entre as mãos) Eu não sei, parece que a vida desandou... Voltá pra favela, depois de velho... Eu vou falar com a dona Isabel.

ISOLINA –Pai!, eu acabo de xingar a mulher, mandei ela até pr’aquele lugar, e o senhor agora vai lá se humilhar, pedir perdão!? Ela escurraçou a gente. Eu dou um jeito. Até já falei com a dona Cecília. Ela aluga o barraco pra gente até tudo melhorar. Acho que é coisa de um mês só. Deixa eu me afirmar no emprego e tudo fica melhor.

PATRÍCIO –Põe juízo nessa cabeça. Voltar pra favela de novo!?

ISOLINA –Tá legal, pai... Só que não dá! Eu só não bati nela porque ela correu. Se o senhor visse o que ela falou da gente! Xingou o senhor de pé-de-pinga, falou que não agüentava mais polícia entrando na casa dela atrás de marginal... Eu fui engolindo tudo – porque eu também sei que a gente precisa da casa – mas chegou num ponto que não deu. Falou até que eu andava trazendo homem pra dentro de casa! O senhor quer mais? Eu não tenho sangue de barata, pô!

PATRÍCIO –Eu não sei, eu não sei... (Procura alguma coisa num canto) Cadê a garrafa daqui?

ISOLINA –Joguei fora. Tudo é motivo pro senhor tá encharcando.

PATRÍCIO –Eu não sei, essa sua impaciência... Mudar! Ai, meu Deus do céu!

ISOLINA –Iiiii... deixa deus na dele. O negócio é o seguinte: pode pôr fé em mim. É por pouco tempo, pai. Tá?

PATRÍCIO –(Derrotado) Tá... Tanto faz...

ISOLINA –Favela não foi feita pra cachorro... (Pegando uns objetos) A gente arruma as coisas hoje, pra adiantar... (Tentando conciliar) Depois vamos lá no teatro, tá?

PATRÍCIO –(Rispidamente) Ah!...

Cena 8

(Alegoria, Patrício, Boneco Preto)

(Iluminação sugerindo uma atmosfera irreal. O Boneco Preto acha-se com os braços inteiramente estendidos, em cruz, acima de Patrício que se encontra sentado, de cabeça baixa, levantando-a apenas para beber – ou tentar – da garrafa que sustenta numa das mãos. A Alegoria em sua fala, ora se dirige ao público, ora ao Boneco Preto, ora a Patrício, sempre dando a idéia de estar se comunicando com apenas um interlocutor.)

 

ALEGORIA –(Para o Público)

Eu sou a tua anti-memória. Hás de viver a felicidade dos que não têm história. A minha proteção é o que te civiliza para seres um bom criado.

(Para Patrício)

Exijo, exijo de ti a destilação do suor produtivo para matar a minha sede infinita.

(Para o Público)

Teu ventre tem que ser como as máquinas. Preciso de policiais para te conter a faísca subversiva. Quero marginais que me saciem o prazer de encarcerar, de fazer escorrer sangue dos teus sonhos para lubrificar os meus aperfeiçoados instrumentos de tortura. Tens que produzir, produzir, produzir, ser a mão-de-obra prostituta para que o trabalho não valha um centavo de consciência diante do meu lucro.

(Para o Boneco Preto)

Por isso eu digo: bebe! (Patrício bebe da garrafa com certa dificuldade.) Por isso eu digo que hás de encontrar o repouso aí, no lugar que te reservei para o bem de toda humanidade. Este é o teu lugar e eu sou a tua única condição de ser. O teu Deus Todo Poderoso, eu o criei segundo a minha própria imagem e semelhança.

(Para o Público)

Tens que adorar, render graças à indústria que te possibilita participar do grande milagre: a transformação do sangue em óleo diesel. Da tua alegria eu fiz a eletricidade dos meus desejos. Teus olhos ficam bem como lâmpadas em meus computadores. A tua língua, ah ah ah...

(Patrício bebe de novo)

(Para o Boneco Preto)

A tua língua é a passarela de todos os meus venenos enlatados.

(Para o Público)

Quando o chicote te lambeu o lombo em sinal da cruz, foste então batizado no Oceano Atlântico e tuas feridas se deliciaram com a refeição de sal grosso.

(Pausa. Para Patrício)

A pátria precisa enfeitar-se com as serpentinas de tuas entranhas. O lança-perfumes vai conter até o fim a essência de tuas lágrimas que me embriagam e expulsam o fedor das tuas axilas. É carnaval!

(Para o Público)

Tenho garantida a tua inércia (Patrício bebe mais uma vez) porque injetei no teu coração a saliva das minhas palavras e ele não pulsa mais em ritmo de quilombo. Fiz da tua dança uma mera válvula. Válvula de escape para que não escapes nunca (Ergue a mão com punho fechado) por entre os meus dedos.

(Para o Boneco Preto)

És a minha mais clara certeza de que sou indestrutível em meu projeto de fazer de ti incontáveis misérias ambulantes. És a esperança em estado de putrefação. O meu mais completo prazer (Esbofeteia o Boneco Preto).

(Para o Público)

Por isso eu te digo: mata-te para me manter vivo. E hás de permanecer eternamente no escuro, admirando a brancura da minha superioridade. (Apagam-se as luzes gradativamente até a escuridão total que permanecerá por um tempo prolongado – três minutos no mínimo).

 

Cena 9

(Isolina, Patrício e Baleia)

(A Alegoria e o Boneco Preto estão ausentes. Isolina lê. Entra Patrício alcoolizado. Isolina olha e continua lendo. Patrício senta-se. Isolina depois de tentar continuar a leitura, desiste, fechando o livro com violência. Apanha umas louças de sobre a mesa e vai sair pela porta dos fundos, quando entra o Baleia.)

BALEIA –Ninguém se mexe! (Olha por todo lado. Tem uma arma de fogo na mão – um revólver ou semelhante. Sai pela porta e volta.)

PATRÍCIO –Baleia!.. Então é ocê que tá aí?

BALEIA –Oh, velho! (Beija a mão de Patrício e abraça-o) Mas como é que é? Ninguém avisou?

PATRÍCIO –É, avisaram.

BALEIA –(Para Isolina) Oi.

ISOLINA –(Voz molhada. Decepcionada.) Oi, Baleia!

BALEIA –Não vai nem conversar? Deixa o choro pra depois. As coisas estão melhorando.

ISOLINA –Melhorando o quê, Baleia? Eles já vieram aqui de novo. Botaram tudo de perna pro ar. Estão no teu pé outra vez.

BALEIA –Não esquenta! Agora eu tô transando um advogado da pesada. O homem tem uma lábia incrível e manja horrores do metiê. Logo o Baleia aqui vai estar em liberdade condicional (Patrício ri satisfeito).

ISOLINA –(Para Patrício) Tá achando graça, né pai? O dia que o senhor vê o seu filho morto, aí o senhor vai chorar.

BALEIA –Que orto, o quê! Deixa de ser cagona. Se eu morrer nessa jogada... (Pausa) Quer saber duma coisa, eu não vou (Agressivo) morrer, entendeu!?

PATRÍCIO –Calma, Baleia, calma. Não vão brigar de novo. Ocês já tão tudo grande.

BALEIA –Tá bom. Fala da vida, velho. E a saúde?

PATRÍCIO –Agora, com esse negócio de tê que mudar, nada vai muito bem.

BALEIA –Foi porque não pagou o aluguel? Eu bem que mandei entregar um dinheiro. (Para Isolina) Vai dizer que não recebeu!?

ISOLINA –(Colocando um pequeno embrulho sobre a mesa) Dinheiro roubado... eu não quero.

BALEIA –Cala a boca!

ISOLINA –É isso mesmo. Não quero. Prefiro morar a vida inteira no Fundão do que tá vivendo do teu roubo.

BALEIA –Tá me chamando de ladrão, sua putinha?!... (Parte para cima de Isolina. Patrício aparta.)

PATRÍCIO –Calma! Desse jeito... Vocês são irmãos!

ISOLINA –Ele é filho do senhor.

BALEIA –Não queria mesmo ser irmão de “piranha”.

ISOLINA –Você não prova. Tá pensando qu’eu sou tuas amiguinhas, é?

BALEIA –Nervosinha.

ISOLINA –Tô mesmo. E de mais a mais, se eu quiser dinheiro eu trabalho. Não sou aleijada nem quero dar a minha cara pra polícia bater.

BALEIA –Eu sei o que é. É orgulho. Você não passa duma fossa de orgulho. Bostinha... O que que o meu dinheiro é menos do que o dinheiro dos outros?

ISOLINA –Não é teu.

BALEIA –Moralzinha besta. Patrão suga a gente até o último e ninguém diz nada. Fica agora você querendo dar lição de moral, sua tonta! Nem sabe daonde eu tirei!

ISOLINA –A polícia deve saber.

BALEIA –(Para Patrício) Pega o senhor, velho. (Patrício abaixa a cabeça e se mantém imóvel) Até o senhor...

ISOLINA –Porque você não pára com essa vida. Vão acabar te matando. Tá a fim de ser manchete de jornal: “Nego Baleia baleado pela polícia”. Fica bonito?

BALEIA –Nego Baleia...

ISOLINA –É. É assim que eles vão pôr. Ou então, monstro negro, vulgo Baleia. E daí, o que é que você vai ganhar com isso? O que é que a gente vai ganhar com isso?

BALEIA –Eu já disse que não vou morrer! (Atira contra Isolina o maço de notas) Pega o dinheiro, porra! (Sai).

 

NA PLATÉIA/PALCO E NO PALCO/PLATÉIA

Cena 10

(Personagem 1, Personagem 2, Isolina, Patrício, Baleia e Dois Homens)

(A ação se dará no público, em sua maior parte. No palco Patrício e Isolina sentados de frente para o público. Personagem 1 e Personagem 2 estarão vestidas com túnicas coloridas, no público. As vozes são acompanhadas com diferentes toques de percussão. A Alegoria não está presente. O Boneco Preto encontra-se bem atrás de Patrício e Isolina, sentado numa cadeira, distanciado, porém na mesma direção horizontal em que se encontra, também sentado, o Baleia. Esta cena inicia-se com percussão variada.)

PERSONAGEM 1 – Nós vamos quebrar

As correntes da mente

 

PERSONAGEM 2 – Superar a dor de escravo

E afirmar o negro gente

PERSONAGEM 1 – Gente que nunca foi bicho

PERSONAGEM 2 – Gente que nunca foi lixo

PERSONAGEM 1 – E pisado no preconceito

Resiste

Contra o esparadrapo

Grudado na voz da noite

Aprisionando a história

Que as estrelas sabem contar

 

PERSONAGEM 2 – (Em tom de conversa) Então será que não acabou a escravidão?

PERSONAGEM 1 – Nada acaba de supetão!

PERSONAGEM 2 – Continuou?...

PERSONAGEM 1 – Com roupa nova que se chamou exploração. (Irônico)

De classe!...

PERSONAGEM 2 – (No mesmo tom) Com classe!...

PERSONAGEM 1 – Por isso minha gente

A nossa ação primeira

 

PERSONAGEM 2 – É erguer a nossa história

Levantar nossa bandeira

PERSONAGEM 1 – E o tempo que não tapeia

Deus a cada grão de areia

A memória do quilombo

PERSONAGEM 2 – Palmares vamos lembrar

Dignidade vamos contar

 

PERSONAGEM 1 – A liberdade conquistada

Com a luta e a coragem

E não dourada pena

Duma princesa encantada

(Com sotaque luso)

Filha da c’roa portuguesa

(Com sotaque inglês)

Em prol da burguesia inglesa

PERSONAGEM 2 – E para o antigo escravo

Um sofrimento sem par

Racismo, trabalho duro

Em nome da raça pura

Que nos impõe a atadura

PERSONAGEM 1 – Palmares hoje vive

Porque foi luta de ser livre

 

PERSONAGEM 2 – E as luas já retornam

Aquilombando clarões

PERSONAGEM 1 –Ressentir!... (Canção-lamento) Estamos na Capitania de Pernambuco... No criminoso reinado da escravidão... Perto e mil e quinhentos e lá vem fim...

PERSONAGEM 2 –Foge um... Fogem dois... Fogem cem... Fogem mil... Foge muito mais de mil...

PERSONAGEM 1 –E a República de Palmares cresce no chão do Brasil! (Batuque forte e alegre. Breque súbito. Luz clara no palco. Dois homens agarram Baleia e imobilizam-no. Patrício e Isolina voltam-se para trás. Ouve-se a Voz Feminina em grito.)

VOZ FEMININA –Segura o sinhozinho aí, Patrício!... (Apagam-se as luzes)

 

NA SALA

 

Cena 11

(Isolina, Boneco Preto e Alegoria)

(Sentados à mesa encontram-se o Boneco Preto – debruçado – e a Alegoria – cabeça erguida. Há uma mala próxima à mesa. Barulho de pancadas. Isolina entra pela porta dos fundos perseguindo um rato com uma vassoura. A Alegoria agita-se sentada. Isolina mata o “rato” e varre-o em direção ao público, lançando também a vassoura. A Alegoria sai apressadamente e perde-se no público).

 

ISOLINA –(Para o Boneco Preto) Bem, pai... Vamos embora. Sabe, eu queria te dizer uma coisa. É sobre o Baleia. Coitado do Baleia... Ele pensava que estava certo. Mas tinha gente interessada nos assaltos dele. É como disse um amigo meu: a fábrica da exploração não se enjoa de matéria-prima. Taí o senhor que não deixa mentir, né, pai? Não sei quantos anos de fábrica e acaba no fim, vá (gesto com o polegar em direção à boca) sustentar fábrica! Às vezes fico pensando na mãe que já se foi, no Baleia... É mesmo tudo resultado do passado. A fábrica não pára e não se enjoa e matéria-prima. Vamos embora que o Fundão não foi feito por cachorro. Devagar a gente ainda faz o Fundão virar mundo. Vamos, pai. (Dirige-se ao Boneco Preto, toma-o nos braços. Vai saindo. Volta-se, apanha um livro.) É preciso levar o que não foi dito porque a história não acabou. (Sai. Apagam-se as luzes. Ouve-se o grito longo da Voz Feminina:)

 

VOZ FEMININA –Segura o sinhozinho aí, Patrício!...

 

– fim desta peça –

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