Orelha do livro Poemaryprosa, por Fernanda Felisberto*



Em Poemaryprosa, novo trabalho de Cuti, o amor, a libido, o sexo, chegam experimentalmente pelo discurso, inundando suas páginas, pro-pondo caminhos de leitura e de prazer, assim como a marcante presença do mar, em uma cadência que se traduz em vagas que hora se aproximam em formato de prosa e, no momento seguinte, explodem na beira como poesia.

A maturidade do autor flui, representada por um pleno domínio da linguagem, que (re)significa palavras, sugerindo, pertinentemente, um neologismo (estético) negro, já na “abertura dos caminhos” do livro, ao situar seu texto como um “versoebó antitabu”, transgredindo a pseudoblindagem que a linguagem poética ainda carrega para alguns e entrelaçando em um mesmo enunciado referenciais religiosos de matriz africana, poesia e quebra de (pré)conceitos.
Os múltiplos desejos desvelados neste trabalho emergem, em vozes não personificadas, como uma experimentação sensorial. Essas vozes manipulam seu próprio desejo e, senhoras do seu próprio corpo, contrariam os ditames da alva literatura brasileira, que ainda insiste em representar o corpo negro como objeto do outro.
E nesta mesma linha é importante ressaltar o lugar das mulheres, que estão livres para viver o prazer na sua plenitude, o que merece destaque, já que a questão da afetividade ainda é pouco explorada no que se refere às mulheres negras, pois o tema aparece sempre na perspectiva da denúncia da exploração sexual, subtraindo da análise os prazeres e a plenitude. E Cuti entrelaça as emoções femininas, traduzindo-as em um texto sensível e humanizado.
Em Poemaryprosa não há linearidade nem de uma história nem de personagens, mas existe a presença indis-solúvel de sentimentos e emoções impondo, sim, um ritmo singular ao livro e convidando a(o)leitora(o) a se deixar levar pelas sensações (re)criadas pelo autor.


*Doutoranda do programa de Literatura Comparada da UERJ e sócia da Livraria Kitabu

Lançamento

Escritor