Entrevista para  o Blog  Literatura  Subversiva

1. O senhor   poderia  nos   contar  a   história  do  Quilombhoje ?
CUTI – A história do Quilombhoje tem mais de 30 anos e, a partir de 1983, ela passou a ser a mesma dos Cadernos Negros que nasceu primeiro, em 1978. O Quilombhoje é de 1980, dois anos depois. Ele nasceu das discussões literárias entre um pequeno grupo que, de vez em quando, se reunia. Éramos basicamente cinco pessoas: eu, Oswaldo de Camargo, Paulo Colina, Abelardo Rodrigues e Mário Jorge Lescano. O Mário era o único branco, um argentino, que logo se afastou das reuniões, pois elas passaram a ter um conteúdo cada vez maior de identidade negra. Eram conversas informais, sem sistematização de qualquer ordem. Nós nos reuníamos geralmente em bares do centro de São Paulo, mas também nos visitávamos. Certa vez estávamos eu, Paulo e Abelardo em minha casa. Líamos poemas e conversávamos. Em dado momento, o Paulo começou a cantar entre um poema e outro. Eu pontuava no atabaque. Em dado momento percebemos que estávamos realizando algo muito agradável e que a ele poderíamos dar um formato de declamação coletiva muito afeita à maneira negra de fazer as coisas, com participação coletiva e sem hierarquização rígida. Assim nasceu a “roda de poemas”. Resolvemos, então, fazer eventos que reunissem pessoas para dizer e ouvir poesia, sendo as mesmas entremeadas com pequenos pontos musicais que passamos a compor. Esses eventos eram nomeados para homenagear pessoas como Pixinguinha, Agostinho Neto, Luís Gama e outros. As discussões continuavam, porém com a preocupação também de organizar as rodas. Os Cadernos Negros, desde 1978, em que eu e o Hugo Ferreira o havíamos concebido, nas dependências do Cecan – Centro de Cultura e Arte Negra, tenho o Hugo, que deu o nome à série, se afastado, passaram a ser de minha responsabilidade. Então, pessoas que publicavam nos Cadernos, ao saberem do Quilombhoje, uma vez ou outra passavam pelos lugares onde estávamos reunidos e acabavam contribuindo para a discussão. Alguns desses novatos foram se tornando mais assíduos. Foram, portanto, uns três anos dessa confluência de pessoas em torno do Quilombhoje. Até que veio a cisão. Os três parceiros iniciais deram-me um verdadeiro xeque-mate. Ou eu mantinha ligação com eles ou com os demais que passaram a ser mais assíduos e que, segundo os primeiros, não tinham conhecimento literário para partilhar. Eu senti muito essa primeira cisão. Eu queria ver todo mundo reunido, uns aprendendo com os outros. Entretanto, artistas são muito vaidosos e literatos são artistas. Não foi possível conciliar. Os três, então, se afastaram. Daí o Quilombhoje passou a contar com a presença de Jamu Minka, Sônia Fátima da Conceição, Miriam Alves, Oubi Inaê Kibuko, Márcio Barbosa, Esmeralda Ribeiro, Abílio Ferreira e, por um período muito curto, Vera Lúcia Alves, irmã da Miriam. Não chegaram todos de uma vez, mas foram chegando devagar. O grupo assim constituído, resolvemos trabalhar de forma coletiva para a publicação dos Cadernos Negros, cuja responsabilidade pela organização, até aquele momento, era minha, porém sempre contando com a colaboração de várias pessoas, escritoras ou não. Em 1983, a responsabilidade ganhou sentido de grupo. O volume 6, de contos, traz na capa o símbolo do Quilombhoje, um desenho do Márcio Barbosa expressando um casal de leitores tendo acima um símbolo da ancestralidade negra, formando uma trindade. Na ficha técnica o grupo aparece como organizador. Com isso, tivemos um grande avanço, não só na qualidade gráfica dos livros como também na agilidade de elaboração anual da série. As discussões e as rodas também ganharam maior organicidade e os lançamentos passaram a ser verdadeiras festas.
Em 1994 eu me afastei do grupo, deixando de publicar meus textos no livro daquele ano, Cadernos Negros 17 – Poemas. Porém, no ano seguinte, mesmo sem fazer parte da organização, eu retomei a participação no processo seletivo, enviando meus textos, o que fiz até o último número da série publicado, o volume 34, e pretendo continuar fazendo. A partir de 1995, o Quilombhoje, reduzido a Esmeralda, Márcio e Sônia, passou a acrescentar na capa a expressão “afro-brasileiro” para classificar os contos e poemas, o que eu não concordo. Com o tempo o Quilombhoje se tornou uma entidade sem fins lucrativos. A partir daí eu sei muito pouco. O Márcio e a Esmeralda, que constituem o grupo hoje (2012), é que detem os detalhes dessa história.

2. Em sua  opinião qual é  a  função política  da  literatura  afro-brasileira  na  diáspora?
CUTI – A literatura negro-brasileira, como a nomeio, não tem uma função específica. Costumamos relevar a política em detrimento de outros aspectos da vida, mas o sentido gratuito da arte literária empresta-lhe um amplo espectro de influência. No caso negro-brasileiro, por exemplo, o reforço da autoestima é um aspecto importante, pois a subjetividade de cada um de nós é alimentada por conteúdos culturais dos mais diversos. No Brasil, a literatura feita por brancos quase sempre arrasam com a autoestima negra, seja invisibilizando-a, seja tratando-a com descaso e desumanidade. A literatura negro-brasileira traz também na função cognitiva ensinamentos valiosos sobre o racismo renitente em nosso país, como também noções a respeito dos valores culturais de origem africana, além de ressignificar conteúdos escolares ou da cultura popular equivocados e racistas. Além disso a literatura ensina a história dos povos negros e de sucessivas manifestações do Movimento Negro através dos séculos. No campo ideológico, nossa literatura também investe contra concepções de mundo eurocêntricas que ainda tentam fazer da hierarquia das raças uma verdade. E o trabalho literário tem a vantagem de se dirigir a intelecto e ao coração, por se basear no envolvimento emocional do leitor. No campo da política é para a relação de poder que a literatura tem chamado à atenção. Autoras e autores negros não tem deixado de lado essa questão de como no cotidiano o poder do branco sobre o negro é a base do racismo. Disputar o poder precisa ser algo consciente e o enfrentamento emocional que exige precisa ser conhecido e está nas páginas de poesia, contos, romances, crônicas. Ler literatura significa, portanto, aprender, além de outras coisas, a fazer política. Lamento que parte considerável da militância negra não leia literatura, ignorante que é das múltiplas funções desta arte. Alguns militantes até consideram a literatura algo sem importância, descartável. Por isso continua refém de um discurso pouco eficiente, sem inovação, que não dá conta da complexidade do racismo e de suas consequências. Sem o exercício da imaginação, por meio da linguagem adequada, nenhuma ação coletiva pode prosperar.

3. Além  de  contos   e poesias   o  senhor  escreve  para   o  teatro. Quando  surgiu  o  interesse  em    escrever  para    teatro ?
CUTI – Minha primeira peça é do final dos anos 70. Chama-se Suspensão, cuja publicação do texto foi feita em 1983. Eu já estava envolvido bastante com o Movimento Negro, participando de entidades, fazendo jornais, cuidando dos Cadernos Negros. Naquela época nossos encontros culturais sempre traziam em seu bojo a declamação de poemas e a encenação de pequenas cenas dramáticas. Creio que foi com a minha participação na parte organizacional do Feconezu – Festival Comunitário Negro Zumbi que começou a surgir o meu interesse pelo teatro, o que foi reforçado pelo meu curso de Letras na USP, no qual tive dois semestres de dramaturgia.

4. Qual   foi  o livro  que  marcou a  sua  vida?
CUTI – Vários foram os livros que marcaram e marcam a minha vida. Os romances Amada, de Toni Morrison; Com a Morte na Alma, de Jean Paul Sartre; Vidas Secas, do Graciliano Ramos; Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto; O Homem Invisível, de Ralph Ellison, são alguns. Na poesia, Evocações, de Cruz e Sousa; o Caderno de Retorno ao País Natal, de Aimé Césaire; Cantares ao meu Povo, de Solano Trindade; Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, de Luís Gama; Protesto, de Carlos de Assumpção; Hóstias Negras, de Leopold Senghor; As Flores do Mal, de Charles Baudelaire; Os Escravos, Navio Negreiro e Cachoeira de Paulo Afonso, de Castro Alves; Estrela da Manhã, de Manuel Bandeira, dentre tantos outros. No gênero conto posso citar Sagarana, de Guimarães Rosa; O Carro do Êxito, de Oswaldo de Camargo; Contos Fluminenses, de Machado de Assis, para citar alguns. No campo sociológico, “Os Condenados da Terra” e “Máscaras Brancas, Pele Negra”, de Frantz Fanon; Alma no Exílio, de Eldridge Cleaver; Quilombismo, de Abdias do Nascimento; Racismo e Sociedade, de Carlos Moore, são os que me vem à memória.
    

5. O  que  a   poesia   representa  para o  senhor ?
CUTI – É a grande possibilidade de a humanidade não se perder. O mundo está indo em uma direção autodestrutiva por causa do medo que o ser humano tem do mistério. Os indivíduos temem o mistério de si mesmos, do outro e do cosmos. Por aí são mantidos e incentivados os instintos agressivos da espécie humana, o fundamento antropológico do capitalismo. Assim, inventa-se muita fantasia para consolo, incluindo, sobretudo, as religiões, as teorias xenófobas, racistas e sexistas, as drogas etc. Nessa senda está o fim do mundo, a explosão do planeta. Todo esse comportamento humano é presidido por um tipo de linguagem gasta, pobre, medrosa, sem densidade. A linguagem poética abre a mente, faz com que o leitor conviva melhor com o mistério, isso porque a metáfora e a sonoridade da linguagem poética tem o dom de solapar as certezas, além de nos permitir ser lúdicos em face do desconhecido e ousados no sentido de vislumbrar soluções inusitadas para os problemas sociais. Assim, a poesia é para mim um bálsamo.

6.  Foi  publicada  uma  edição especial   sobre   literatura  afro-brasileira no mês   de  novembro de 2011, no  caderno Prosa  e  Verso  (Jornal  o   Globo ).  Para o senhor  ainda   impera    no imaginário  social  a   ideia   de que toda  contribuição    política  e  cultural  do  negro   só  merece   destaque  no mês  de  novembro ?

CUTI – Na verdade, os brancos não querem ceder espaço em tempo algum para o negro. Como o Movimento conseguiu o novembro, é nessa época que os brancos cedem mais, exatamente por que se trata de uma zona libertada no calendário e que, em todo momento, vem sofrendo ataques dos racistas de plantão. O imaginário social ainda precisa ser preenchido pelo valor simbólico do Quilombo dos Palmares e do heroísmo de Zumbi. Ainda que precário em termos do que deve ser, o mês de novembro é uma conquista coletiva negra. Mas, fazemos mal de convergir só para esse mês nossos eventos e reivindicações. Contudo, nesse ponto do calendário o Brasil mudou. 20 de novembro não é uma data qualquer. É o Dia Nacional da Consciência Negra. Quer queiram, quer não queiram, é necessário se pensar o país a partir de uma reflexão profunda sobre a formação escravista, sobre o racismo e a respeito da cidadania a ser conquistada pela população negra. Nenhuma zona libertada pode fica desguarnecida, pois, senão será novamente dominada. As resistências, por exemplo, ao feriado nacional são muitas ainda. Mas, veja, sobre a independência racista ninguém diz nada. Creio que o Movimento Negro precisa de maior sistematização no campo do marketing de novembro. O sentido de brasilidade do mês de novembro necessita ser mais explorado. Assim, acho que há muito o que fazer, além de não esquecer que se enfrenta o racismo todos os dias do ano.

7.   Ferreira Gullar publicou um  artigo intitulado "Preconceito cultural", no caderno Folha Ilustrada (jornal Folha de SP), em 04.12.2011. No  artigo ele defende  a tese  de  que  não é necessário existir  o termo  literatura negra e cita que   grandes escritores negros   brasileiros a  exemplo de Cruz  e  Sousa  e Machado de  Assis  tinham  influências européias. O  que  o  senhor pensa  sobre isso ?

CUTI – Eu já respondi no artigo “A empáfia do poeta Gullar”, que enviei à Folha de São Paulo. Ao que eu sei eles se negaram a publicar. O artigo, entretanto, foi para a internet, principalmente para o site do Geledés e teve alguma repercussão. Brancos como o Gullar não percebem o negro enquanto ser pensante. Eles se arvoram em pensar pelo negro. E, assim, não respeitam a alteridade. No caso ele faz apenas sobressair influências europeias dos escritores negros como se tais influências fossem correntes que os amarrassem ao tronco da subserviência, como se devessem continuar escravos intelectuais para pagar a dívida de tais conhecimentos. Pessoas desse tipo esquecem o que devem para toda a descendência africana na diáspora. Por outro lado, tiram o escritor da vida cotidiana e o inserem apenas no mundo dos livros. Ora, todo escritor recebe influência não apenas dos livros. Para um negro ou um mulato os embates cotidianos com o racismo são muito mais poderosos, enquanto influência, do que qualquer livro. E ser necessário ou não utilizar a palavra “negro” para caracterizar uma produção literária não é prerrogativa dos brancos. Para nós negros é uma das formas de demarcar território ideológico e estético. Para quê? Para não continuarmos a ser invisíveis, para se lutar contra o desdém racista dos brancos. Na resposta que dei, cito Aimé Césaire e Leopold Senghor, que fizeram o movimento da Negritude, como exemplo do limite da influência europeia para a produção intelectual negra. Ter influência no campo da cultura não é se sujeitar aos valores eurocêntricos ou quaisquer outros.

8. Uma   das  bandeiras  adotadas pelo  blog  Literatura  Subversiva   é   destacar a participação  das   mulheres  negras no cenário literário. Que  análise  o senhor  faz  da  participação   feminina no campo  literário desde  o surgimento dos  Cadernos  Negros  até  os  dias  atuais?

CUTI – Eu tenho muito pouca reflexão sobre a produção feminina negra. Sei, entretanto, que é uma vertente poderosíssima no sentido de aprofundar as questões atinentes ao convívio racial no Brasil. Isso porque as mulheres hoje no Brasil já são mais da metade da presença nas universidades; a mulher lê mais que os homens; a experiência da mulher com a linguagem é muito mais íntima. Na literatura negro-brasileira são as escritoras que vem tendo maior destaque. Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Geni Guimarães, Elisa Lucinda, Miriam Alves, Cristiane Sobral e tantas outras vem demonstrando que o fazer literário negro tem grandes possibilidades de influenciar o imaginário do povo brasileiro de maneira profunda. Além disso, são as mulheres negras que mais tem produzido no campo da crítica de nossa literatura, como, por exemplo, Florentina de Sousa, Nazareth Fonseca, Nazaré Lima. São elas que estão desenvolvendo pesquisas, formando alunos e produzindo conteúdos didáticos para que nossa literatura seja conhecida e ensinada nos bancos escolares. Penso que, no caso específico das poetas, contistas e romancistas, o descondicionamento machista e racista é o responsável pela produção em maior profundidade. A formação da mulher, por ser em geral repressora, inibe a liberdade de criação, quando não a tolhe completamente. No caso das mulheres negras, acho que o fato de a maioria ter como miragem a estética da mulher branca é também um empecilho para a libertação criativa. Contudo, os tempos estão mudando e as novas gerações tem apresentado maior soltura, melhor ginga para driblar os entraves da autocensura.

9. O  que  o  senhor tem  produzido no campo  literário  atualmente?
CUTI – Produzo atualmente poesia e teatro, além de um romance.

10. O  senhor   poderia   recomendar  livros  que  são  indispensáveis  para   formação  literária de  jovens  que desejam fazer   da  literatura    um oficio  político?

CUTI – Não. Não posso recomendar livros com tal objetivo. A política não deve ser o objetivo maior da literatura. Nem o menor. A literatura tem amplitude, envolve o ser humano nas suas mais insondáveis dimensões. Não pode se limitar. Nesse sentido eu indico os livros dos seguintes autores, além daqueles que já citei dentre os que me influenciaram e das autoras que relacionei: Carolina Maria de Jesus, Richard Wright, Maya Angelou, Abelardo Rodrigues, Oliveira Silveira, Muniz Sodré, Cidinha da Silva, Éle Semog, James Baldwin, Paulina Chiziane, Nei Lopes, Chester Himes, Eustáquio José Rodrigues, José Carlos Limeira, Joel Rufino dos Santos, Paulo Colina.