Selo Negro

 

Em que medida movimentos como o de reabilitar e redescobrir um escritor como Lima Barreto, e expor a sua importância para a literatura brasileira, contribuem para mudar a percepção da participação do negro e mulato na intelectualidade brasileira?

CUTI – A consciência de um país se faz com a produção intelectual que ele é capaz de gerar e gerir. No Brasil, como resultado da escravização dos africanos e de sua descendência, desenvolveu-se uma exclusão intelectual crônica. A expressão dos negro-brasileiros no campo do pensamento e da arte vem sendo silenciada há séculos. Lima Barreto é um autor cuja obra marca um ponto fulcral na literatura brasileira: o ponto de vista daquele que é humilhado. O enfrentamento da humilhação produz uma consciência crítica capaz de revelar as zonas obscuras da psique social brasileira. Nesse sentido, a produção intelectual de Lima Barreto nos ensina a ver o branco brasileiro na sua performance ilusória de hegemonia racial e no desenvolvimento de seus processos sutis e brutais de violência contra os não-brancos, o que teve reflexos condicionantes na truculência de nossas ditaduras e na política de corrupção que vem atrasando o desenvolvimento do país. No fundo de toda uma postura de corroer os cofres públicos está a concepção de superioridade racial, de poder mandar e desmandar, roubar, agredir e ficar impune, tudo isso como projeção especular das relações históricas entre brancos e negros, desde os tempos da colônia, bem como da pretensão primeira dos imigrantes de retornar com os bolsos cheios para seus países de origem. Essa leitura do Brasil, a obra de Lima Barreto nos ensina, muitas vezes nas entrelinhas. Por isso, a intelectualidade do período em que o autor viveu e a logo subseqüente geriu tão mal a sua produção, mantendo-a na invisibilidade.

- Em que medida Lima Barreto expressa um traço característico do que é ser brasileiro. É possível fazer uma análise nesse sentido?
CUTI – Ser brasileiro é ser plural; ser capaz de tomar saquê comendo acarajé e pizza, sem nenhum constrangimento de não ser autêntico. Mas, isso não é tão simples. Há, portanto, em nosso povo uma abissal crise de identidade cultural de formação e de concepção racial. Os filhos de imigrantes mantêm no íntimo a contradição de desejar ser estrangeiro e ser desta terra. Essa situação ambígua não ocorre com os descendentes de africanos. Entretanto, entre esses, há uma busca por ser mais claro, tendo em vista a exaltação da branquitude como padrão estético, uma das técnicas opressivas do racismo local e que se naturalizou para a maioria, mesmo causando muito prejuízo psicológico para as relações sociais. Essa busca é muito visível nos mestiços afro-descendentes. Os livros de Lima Barreto fornecem o painel dessa crise para a nossa reflexão, demonstrando que o desafio mais profundo do Brasil é a sua identidade. E é dela que depende a coesão das forças produtivas e solidárias capazes de nos fazer um povo cada vez mais feliz. A obra de Lima é uma importante contribuição para a ponte de superação do caráter dúbio de que a maioria dos brasileiros sofre quanto à sua identidade de povo.

- Cruz e Souza e Barreto chegaram a se corresponder?
CUTI – Não. Quando Cruz e Sousa faleceu, em 1896, Lima Barreto tinha apenas 15 anos. Contudo, na biblioteca deste último consta o livro de poemas em prosa e prosa poética intitulado Evocações, do primeiro. Além disso, há alguns indícios de sua leitura refletidos em textos como Clara dos Anjos, por exemplo, no personagem poeta Leonardo Flores. Lima Barreto chegou também a expressar em artigo a preocupação com o estudo da obra de Cruz e Sousa, cobrando dos amigos deste tal tarefa.

- Ao se referir à obra de Barreto, é comum destacar a suposta falta de estilo literário do autor. Esse argumento já foi superado pelos acadêmicos?
CUTI – Ainda não. Muitos continuam presos ao beletrismo tão criticado pelo autor de Recordações do escrivão Isaías Caminha.  O mundo acadêmico é formado com muita decisão arbitrária baseada em preconceitos culturais e estéticos. E o Brasil, como a refletir o processo que viveu e vive de colonização cultural, apresenta comumente aquela postura de ser mais realista que o rei, de macaquear os pressupostos teóricos estrangeiros. Ainda a academia mantém a grande parcela de seu corpo diretivo e docente com os olhos voltados para a Europa e Estados Unidos, alimentando, assim, o autopreconceito, isso reflexo da nossa falta de patriotismo que, infelizmente, ainda é referido como motivo de piada.

- Além da abordagem principalmente social e crítica, qual é a maior contribuição de Barreto para a literatura brasileira?
CUTI – A maior contribuição é ponto de vista da emanação do discurso. A experiência subjetiva de ser negro vem contribuindo significativamente para o Brasil se enxergar no seu próprio espelho e assumir-se como é e não como os racistas pretendiam e, ainda um retardatários, pretendem: ser exclusivamente branco. Do ponto de vista formal, a obra de Lima Barreto contribui até hoje para o despojamento da linguagem escrita e sua aproximação com a linguagem oral, além de incentivar a dicção literária das zonas suburbanas ou periféricas das grandes cidades, e, em especial, do contingente negro-brasileiro, de cuja literatura ele se tornou um precursor.

- Você identifica escritores com certa semelhança com Barreto em países da nossa vizinhança?
CUTI – Não.

- Como você classificaria a introdução do tema racismo na obra do escritor?
CUTI – O tema do racismo na obra de Lima Barreto não aparece como na maioria dos livros de escritores brancos brasileiros (quando aparece!), ou seja, não é esporádico ou pontual, mas permeável e frequente. Na leitura de seus livros nos deparamos com a temática racial, mesmo que seja de forma suti, nas reações das personagens, na formulação verbal e nas manifestações de seus próprios narradores.
- O autor é conhecido no exterior, a exemplo de Machado de Assis, por exemplo?
CUTI – Convivendo em um país racista, sua obra não seria facilmente promovida como a de Machado, pela postura ideológica e estética que Lima Barreto assumiu. Entretanto, há livros seus já traduzidos em cerca de nove idiomas. Creio que a tendência é aumentar, pois o silêncio injusto a que seu trabalho foi submetido e o processo de patologização que vilipendiou sua memória vêm sendo superados gradativamente. Lima Barreto, a despeito da pobreza, do preconceito racial, do alcoolismo e de internações em hospício, foi um intelectual digno, de uma lucidez ímpar, exemplar.

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