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Literatura negro-brasileira  - Poesia contra a discriminação racial


Em Outubro 2013  Brasil será o convidado de honra na feira de livro de Frankfurt, Alemanha, a maior feira de livros do mundo. Em preparação deste acontecimento, já em 2012 o programa da feira de Frankfurt incluiu vários eventos com respeito à literatura brasileira. O objetivo é apresentar as várias facetas da literatura e cultura do país. O escritor e professor de literatura, Cuti (Luiz Silva), estava presente na feira em outubro passado com duas palestras sobre a literatura negro-brasileira, a convite do Centro Cultural Brasileiro de Frankfurt, da livraria portuguêsa TFM e da Litprom.
Renate Hess, jornalista da radio local de Darmstadt, cidade vizinha de Frankfurt, encontrou lá esta voz célebre da literatura negro-brasileira. Leia na entrevista o porquê desta denominação e a intenção da literatura negro-brasileira.   

Renate Hess: Tenho à minha frente uma belíssima antologia de poemas seus com o título “Negroesia”. O que está por trás deste neologismo?
Cuti: Esse neologismo tem, como os neologismos em geral, uma carga semântica variável. Esse termo abriga a ideia de uma heresia a partir de uma poesia que estaria  em contraposição à ideologia racista predominante no Brasil, uma poesia muito pouco valorizada ainda, mas que tem perspectivas muito promissoras, pois ela traz vários aspectos do país que não foram ainda incluídos na literatura. Falo da poesia, mas também podemos estender esta interpretação para a prosa; então seria uma literatura que tem este propósito de traduzir a ideia de uma coletividade negra e brasileira, uma coletividade negro-brasileira. Também este neologismo abriga a ideia do desejo de uma coletividade de se assumir como negra no Brasil. Isso com muito orgulho pelas suas raízes, pela sua luta histórica nos quilombos e fora deles, e, também, pela herança cultural africana que é a responsável principal pelo caráter positivo do povo brasileiro no sentido de ele ser mais aberto para o mundo, mais receptivo e mais descontraído.
Renate Hess: Podia fazer o favor de recitar dois poemas desta antologia?
Cuti: Sim, faço o com muito prazer.  Um deles é um poema muito curto que aponta para um problema que existe não só no Brasil, mas no mundo, que se chama “Para ouvir e para entender `Estrela´”. E explico: “Estrela” é uma das grandes empresas que fabricam brinquedos no Brasil.
“Se o Papai Noel/ não trouxer boneca preta/ neste Natal / meta-lhe o pé no saco!”
Este pequeno poema agradou muitas pessoas porque no Brasil, embora seja o país –  fora da África – com maior população negra, é ainda hoje muito dificil de se encontrar nas lojas e supermercados bonecas negras. Então as crianças negras, as meninas, sobretudo,  tendo na sua formação bonecas apenas brancas, essas crianças não desenvolvem ou têm muita dificuldade para desenvolver a autoestima.
O próximo poema se chama “Quebranto”. “Quebranto” é um poema que eu gosto muito. Ele está traduzido para o alemão e é um poema de autorreflexão no sentido de detectar os efeitos da discriminação racial na subjetividade.
 
QUEBRANTO
às vezes sou o policial
que me suspeito
me peço documentos
e mesmo de posse deles
me prendo
e me dou porrada

às vezes sou o zelador
não me deixando entrar
em mim mesmo
a não ser
pela porta de serviço

às vezes sou o meu próprio delito
o corpo de jurados
a punição que vem com o veredito

às vezes sou o amor
que me viro o rosto
o quebranto
o encosto
a solidão primitiva
que me envolvo com o vazio

às vezes as migalhas do que
sonhei e não comi
outras o bem-te-vi
com olhos vidrados
trinando tristezas

um dia fui abolição que me
lancei de supetão no espanto
depois um imperador deposto
a república de conchavos no coração
e em seguida
uma constituição que me promulgo
a cada instante

também a violência dum impulso
que me ponho do avesso
com acessos de cal e gesso
chego a ser

às vezes faço questão
de não me ver
e entupido com a visão deles
me sinto a miséria
concebida como um
eterno começo

fecho-me o cerco
sendo o gesto que me nego
a pinga que me bebo
e me embebedo
o dedo que me aponto
e denuncio
o ponto em que me entrego.

às vezes!...

Renate Hess: O que mais me espantou foi o verso “às vezes sou o meu próprio delito.”
Cuti: No Brasil há uma inversão da questão racial no sentido de culpar a própria vítima. A ideologia diz que a discriminação é por culpa do próprio negro. E muitas vezes isto é interiorizado. Mas a realidade nos mostra que a discriminação existe e parte daquele que discrimina e não do discriminado. Não é a cor da pele de uma pessoa que deve ser culpada  pela discriminação e sim quem interpreta mal esta cor da pele, quem relaciona esta cor da pele a aspectos negativos. Não é a textura do cabelo crespo que é culpada da discriminação racial, mas sim, a culpa está naquela pessoa que interpreta essa textura  de uma maneira negativa e preconceituosa, ou seja, o racismo não mora, não está, não faz parte dos negros, mas sim daqueles que discriminam os negros. Então este verso traduz um pouco este “às vezes” da interiorização da culpa indevida.
Renate Hess: E o verso “às vezes” no fim – isto é esperança, é o futuro?
Cuti: Este “às vezes” reiterado no poema mostra como que a discriminação racial se traduz em ostracismo, que o cérebro humano registra como dor física. No final, como último verso ele traduz que isto ocorre de forma assistemática. Nem sempre você está nesse estado, mas uma pessoa submetida à discriminação racial passa por vezes por esse estado durante seu dia, sua semana, seu mês ou pela vida toda. Então, como no Brasil a discriminação não é declarada, você nunca sabe quando ela vai surgir, daí que, em muitos momentos, ela surpreende você; você não espera, e ela surge, sobretudo em ambientes de classe média. Porém ela pode surgir até em ambientes de manifestações culturais de origem africana, como os terreiros, como nas escolas de samba. Nesses ambientes também surgem discriminações raciais e são sempre inesperadas, porque, como a ideologia prega desde sempre que não existe discriminação racial no Brasil, nós muitas vezes acreditamos nisso e passamos a ficar desprevenidos. Por isso acabamos sendo surpreendidos por ela.
Renate Hess: Cuti, além de ser professor de literatura você tem uma vasta atividade/produção  literária e empenha-se há mais de trinta anós pela literatura negra do Brasil. Quais foram as suas experiências ao longo destes anos? Quais as dificuldades na produção/divulgação desta literatura?

Cuti: Por ter me conscientizado de um conjunto de bloqueios, como professor eu me dedico a ensinar a literatura feita por escritores negros, por meio de cursos e palestras, pois é uma literatura rejeitada pela maioria dos professores. As causas dessa rejeição são o desconhecimento e a má vontade.
Desde 1978, quando eu publiquei o meu primeiro livro – “Poemas da Carapinha” – eu venho refletindo bastante sobre as dificuldades que surgem no caminho de um escritor negro que pretende não abafar a sua experiência no campo das relações raciais como se pede e como se exige na sociedade brasileira. A primeira dificuldade que nesta minha trajetória se apresentou foi a dificuldade de acessar as minhas próprias memórias e acessar também a memória coletiva, isso  devido à minha formação educacional e também a um tipo de convivência que impede as questões raciais de fazerem parte do diálogo das pessoas. Há uma discriminação, mas no Brasil há um silêncio proposital sobre essa discriminação. Então se nós temos amigos que não sejam negros nós não podemos conversar com eles a respeito da discriminação sofrida. Isso faz com que a gente chegue à idade adulta com uma verdadeira autocensura e essa autocensura nós acabamos cultivando sem saber, sem perceber. E no ato da criação, quando tentamos liberar estas energias, estas histórias, estes conflitos, nós acabamos tendo dificuldades. Porque o diálogo não ocorre com facilidade no seio da família, mesmo das famílias negras. As famílias negras têm uma preocupação de se adaptar  aos valores predominantes da sociedade para não vir a sofrer admoestações maiores, piores. Então eu percebi que isto não era algo apenas pessoal. Tal comportamento também era algo que se referia a muitos produtores negros de arte que fazem música, que fazem literatura ou outro tipo de arte. Repare o samba, ele é de origem negra e os negros sofrem discriminação, mas são raríssimos os sambas, as músicas, cujas letras condenem o racismo brasileiro. E porque isto ocorre? Ocorre porque esses artistas, para não terem a sua obra rejeitada no mercado cultural, eles evitam este tema, não falam deste tema, preferem temas mais aceitáveis como, por exemplo, o amor, as relações entre homem e mulher, questões de ciúmes, temas que são – digamos assim – mais palatáveis. Outra coisa que eu percebi nesta minha trajetória é que nós escritores, quando veiculamos este assunto da questão racial, percebemos que há um bloqueio editorial, porque os editores são também agentes ideológicos. Por isso, há temas que são bem-vindos para a literatura e outros não. As editoras acabam, também, fazendo um crivo ideológico do que deve ser editado e daquilo que não deve ser editado. Portanto, no meu segundo livro “Batuque de Tocaia”, eu me conscientizei dessa dificuldade editorial a partir de uma carta que recebi de um editor de uma grande editora, cujas publicações foram importantes na luta contra a ditadura militar no Brasil, a editora Civilização Brasileira; este editor chamava-se Ênio Silveira. Ele me enviou uma carta em reposta os meus originais dizendo que não iria publicar o meu livro porque o meu livro era racista contra os brancos. Então quando os brancos não querem falar do racismo eles dizem: “Não, vocês é que estão fazendo racismo” – ou seja, para sermos bem aceitos nós temos de silenciar, nós temos que fazer a política do silêncio, a política da censura e da autocensura e considerar o assunto racismo brasileiro como um tabu.
Mas evidentemente que isto não é possível para todos. Desde sempre há luta dos negros no Brasil. Ela é contínua e progressiva. Hoje nós temos muitas conquistas e há vários escritores bastante afinados com o Movimento Negro. E essas conquistas têm sido motivo de celebrações e de muito mais literatura que traduza toda a vivência da população negra, da população branca e também da população mestiça no que concerne às relações raciais.
Renate Hess: Quais são as conquistas mais concretas?
Cuti: As conquistas mais concretas são as das ações afirmativas. Mas há uma conquista importantíssima no plano simbólico que é o dia 20 de Novembro, hoje considerado no Brasil como o `Dia Nacional da Consciência Negra´. Exatamente porque a 20 de novembro 1695 morria assassinado o líder do maior Quilombo que existiu no Brasil. Esse líder é conhecido pelo nome de Zumbi dos Palmares. Essa conquista simbólica é muito importante porque hoje as escolas, por determinação legal, são obrigadas  a fazer referência a esse dia, fazer comemorações e considerar Zumbi dos Palmares não apenas um líder do povo negro, mas um líder de todo o povo brasileiro.  Esta é uma conquista do Movimento Negro. No plano das ações afirmativas ainda este ano o Supremo Tribunal Federal do Brasil considerou constitucional a reserva de cotas raciais nas universidades do País. A partir do ano que vem será obrigatória nas universidades federais do Brasil  a reserva de uma porcentagem de suas vagas para alunos afrodescendentes e indígenas que estudaram em escolas públicas, e, também, para alunos de todas as etnias que estudaram nessas mesmas escolas. E depois o restante dos 50 por cento ficará para todos os demais. Então qualquer aluno hoje no Brasil terá opção; ele poderá optar por ficar em qualquer dessas reservas ou no geral sem identificação nenhuma.
Renate Hess: Você foi cofundador dos “Cadernos negros” há mais de 30 anos,  que foi fundado por um grupo chamado “Quilombhoje”. O quilombo é um símbolo de vossa luta hoje em dia?
Cuti: É. Quilombo é um símbolo da nossa história, da nossa luta, da história do Brasil. Durante muito tempo a historiografia brasileira não estudou os quilombos. É no seculo 19 que temos o primeiro poema sobre Palmares, o maior dos quilombos que existiu no Nordeste do Brasil. E este primeiro poema foi escrito pelo poeta abolicionista Castro Alves. A atualização simbólica dos quilombos é para mostrar essa disposição de transformar a sociedade, a disposição que havia nos propósitos dos quilombos. A luta da população negra no País tem a idade do País, podemos dizer assim. Porque as fugas, as organizações no campo e ainda hoje as lutas por moradia, as lutas por reforma agrária, elas têm muito dessa inspiração. Porque a mentalidade escravagista aparentemente foi interrompida, mas na ralidade ela não foi. Até hoje ela tem reflexos nas relações de trabalho, ainda hoje existe trabalho escravo em alguns lugares do interior do país, em fazendas nas quais os trabalhadores não recebem absolutamente nada, são muito mal tratados, são violentados e permanecem praticamente sem comunicação com as suas famílias. Existem leis que proíbem, que punem os responsáveis pelo trabalho escravo. Existem leis exatamente porque esse tipo de prática ainda existe em alguns lugares do Brasil. E a mentalidade de escravizar o trabalhador vem dessa herança colonial brasileira. O escravismo que termina oficialmente no século 19, em 1888, projetou essa mentalidade no século 20 e atingiu o século 21. A relação de trabalho ainda é permeada por essa visão de crueldade. A violência, de forma geral, que existe no Brasil vem deste período. Repare que em 1910 houve uma revolta de marinheiros no Rio de Janeiro que foi um fato histórico conhecido como Revolta da Chibata. E por quê? A abolição da escravatura foi em 1888 – até 1910 os marinheiros eram chicoteados como se fossem escravos. Então esses marinheiros se revoltaram, liderados por um negro, João Cândido; eles ameaçaram bombardear  a cidade de Rio de Janeiro, e então a marinha cancelou esses tipos de castigo para os marinheiros, que eram em sua maioria negros. Então houve essa conquista. Entretanto até hoje o líder da revolta, João Cândido, não é considerado um heroí nacional. O Movimento Negro luta muito para que este personagem da nossa história seja considerado um heroí nacional, mas existiu alguma dificuldade porque a marinha brasileira não o reconhece como herói mas sim como alguém quem foi um péssimo marinheiro. 
Renate Hess: E porque o neologismo “Quilombhoje”?
Cuti: “Quilombhoje” é a junção da palavra `quilombo´ – que eram grupos de escravizados fugidos das fazendas que se organizavam em comunidades no interior das matas, com a palavra `hoje´, por isso é que a palavra `Quilombhoje´ se escreve com “h”, para tentar traduzir um pouco o espírito daquelas revoltas e daquelas organizações e este desejo de transformação  da sociedade brasileira na atualidade a partir da literatura. “Quilombhoje” é um grupo de escritores negros que publica os `Cadernós Negros´. Esta série existe há 35 anos. Ela se constituiu da publicação de uma antologia por ano, uma antologia de contos ou de poemas de autores negros, editadas alternadamente.
Renate Hess: Para mim, o termo “caderno” tem uma evocação ou uma alusão à escola. Esses  “Cadernós negros”  também têm um lado educativo?
Cuti: A ideia dos `Cadernos ´ foi usada  porque o caderno é algo preparatório. Nós temos assim uma perspectiva de que os `Cadernos Negros´ sejam um espaço de exercício para novos escritores e um espaço de publicação para todos os escritores que enfrentam o bloqueio editorial. Como eu disse anteriormente, todo assunto referente às relações raciais no Brasil é muito mal aceito pelas instâncias do poder instituído. Então nós temos que ter o nosso espaço no qual não censuramos este tema, no qual nós, muito pelo contrário, incentivamos para que os autores abordem este tema e que rompam com a sua autocensura. “Cadernos” é exatamente isso, é um espaço de liberdade, porque no caderno você pode escrever muitas coisas, você pode escrever o que você quiser,  inclusive você pode rasurar o caderno, então ele é um espaço de experimentação. Os autores enviam os seus poemas ou os seus contos e uma comissão composta de professores, leitores e escritores analisa os textos enviados. Aqueles textos que a comissão considera deverem ser retrabalhados  ela devolve ao autor com alguns comentários e esse autor tem a possibilidade de retrabalhar o seu poema ou seu conto. Então é uma forma de publicação que também tem um compromisso com a experimentação, com a troca de informações, com a discussão sobre literatura, sobre os vários conceitos de literatura e também é um espaço muito rico de convivência.
Renate Hess: Você falou de antologias de poemas ou antologias de contos; também há novelas na literatura negra, há romances?
Cuti: Sim, nós temos vários romances, e um dos romances mais recentes e muito importantes é o de Ana Maria Gonçalves, chamado “Um defeito de cor.” Este título traduz um pouco como a religião católica lidava com os negros que tentavam nela ingressar, em seus seminários. Eles poderiam, por meio de alguns rituais, perder aquilo que a Igreja considerava ser um defeito,  a cor escura da pele. Esse romance é muito importante porque pela primeira vez na história da literatura brasileira a narradora é uma mulher negra e nada menos que Luiza Mahin, uma heroína negra da luta pela resistência, e que foi a mãe de um dos maiores abolicionistas brasileiros, o poeta Luís Gama. Então a Ana Maria Gonçalves foi mutio feliz em conceber esse romance em primeira pessoa de uma mulher negra que é o primeiro romance nessa perspectiva literária.
Renate Hess: Por tudo que você disse, eu percebi que a literatura negra sem falar diretamente da política tem um lado extremamente político.
Cuti: Considerando que a política se traduz em relações de poder, a literatura negro-brasileira (como eu a denomino) realmente tem esse lado, porque na base da discriminação está o propósito de alijar a população negra do poder. No pós-abolição os poderosos do Brasil, e também os intelectuais brasileiros, montaram uma estratégia para que o país se tornasse um país de população branca, para que não mais existissem negros no Brasil. A historiografia do racismo brasileiro demostra como o próprio governo em vários momentos participou deste projeto e que era realmente um projeto de extermínio, um projeto de genocídio. Existe um livro chamado “O presidente negro” de um dos escritores mais importantes do Brasil, que também é um dos escritores mais racistas, que foi Monteiro Lobato. Este autor escreveu este livro tentando focalizar a situação do negro nos Estados Unidos. No entanto, na realidade ele traduz neste livro toda a postura ideológica dos racistas brasileiros. E neste romance o que ocorre é que a população negra americana após conseguir ter um presidente negro, ela, por conta de um produto que é colocado nos alisantes de cabelo, se torna completamente esteril, e portanto não vão nascer mais negros nos Estados Unidos – Estados Unidos entre aspas, porque esta é uma grande metáfora que traduz a ideologia racista brasileira. Portanto este aspecto político da literatura negro-brasileira é procedente exatamente porque nós estamos diante de uma ameaça histórica, a ameaça de uma crueldade extremamente refinada. E eu digo isto porque a ideologia racista brasileira é muito refinada. Ela não se deixa denunciar com facilidade. Ela é muito hábil, ela tem por base a hipocrisia, e contra a hipocrisia e muito difícil você lutar, porque há sempre o disfarce e há sempre a atribuição do problema à própria vítima da discriminação, além das rearticulações que essa ideologia realiza com frequência. Por isso é que é muito difícil no Brasil alguém ser incriminado pela prática do racismo. Porque nos meios jurídicos e nos meios policiais há sempre um jeito de disfarçar, de dizer que não se tratou de discriminação racial, mas apenas injúria ou um mal entendido. Nós temos leis que punem a prática do racismo tanto em prédios quanto em lugares públicos. Há leis que proíbem tal prática, há leis que são colocadas nos elevadores, mas, no entanto, se uma pessoa  pratica discriminação racial dificilmente ela é condenada, dificilmente ela é presa. É necessário se constituir muitas provas, há muita dificuldade, e as pessoas que recebem tais denúncias estão propensas a não as aceitarem de boa vontade. Assim, a caracterização do crime é dificultada  para o denunciante, fica muito dificil incriminar as pessoas que praticam discriminação racial por conta de uma prática baseada principalmente na hipocrisia. Mas, algumas pessoas recentemente têm sido condenadas, entretanto a condenação também é muito provisória, a pessoa paga uma cesta básica ou não paga coisa alguma, e é solta, embora a prática do racismo, com a Constituição de 1988, seja um crime inafiançável. O Movimento Negro, naquela época, conseguiu sensibilizar os parlamentares e hoje a Constituição brasileira considera a prática do racismo um crime inafiançável. Entretanto, a especificidade do racismo brasileiro é a de ser muito eficiente na sua função de apartar a população negra do poder.
Renate Hess: Voltando para a literatura negra, há atualmente uma outra recepção desta literatura, há uma abertura, há uma outra postura da nação perante a literatura negra?
Cuti: Sim. Há por conta de um decreto que determina que as escolas brasileiras ensinem cultura afro-brasileira e a história do negro brasileiro. Então nesses itens entra também a literatura. Portanto as editoras passam a ter interesse porque há um mercado garantido no campo educacional. Mas a literatura para adultos encontra maior dificuldade  por não haver esta demanda do ponto de vista legal. E os avanços vêm ocorrendo por conta de algumas pessoas da área acadêmica que têm procurado organizar antologias e dar cursos para falar do assunto, dar abertura a esta manifestação literária. No campo acadêmico nós temos também hoje no Brasil o Congresso de Pesquisadores Negros que é um espaço importante de discussão crítica da realidade brasileira e, nele, há também um espaço para promoção dessa literatura nos meios acadêmicos. Existem vários professores negros que trabalham com nossos textos em salas de aulas. Os próprios “Cadernos Negros” já foram motivo de dissertações de mestrados e teses de doutorado e de estudos críticos, inclusive no campo da própria metacrítica. Isso tudo são iniciativas que promovem a abertura de espaço para o interesse de um maior número de leitores. Por conta dessa luta que é travada em vários campos e principalmente pela resistência dos autores que além de fazerem os seus textos criativos também se dedicam a reflexão crítica, há mudanças no cenário da receptividade. O escritor Osvaldo do Camargo, por exemplo, é um dos pioneiros a fazer um grande estudo, a fazer uma grande reflexão da história da nossa literatura.
Renate Hess: Falamos agora muito dos lados amargos. Também há aspectos mais lúdicos na literatura negra. O que é a “roda de poemas”?
Cuti: A “roda de poemas” tem como propósito reunir pessoas para ouvirem e dizerem poesia.  Por conta  da reunião de vários escritores em torno de Quilombhoje, nós criamos essa manifestação que se organiza mais ou menos assim:  um grupo de pessoas – em geral de 20 a  40 (ou até mais!) – se reúne, forma um círculo, e é feito para esta roda uma pequena cantiga, muito simples e de fácil memorização. As pessoas decoram rapidamente essa cantiga, então todos cantam. O canto é interrompido e alguém entra no centro deste círculo e diz um poema. Para o lançamento deste meu livro, esta antologia “Negroesia”, eu criei uma pequena música que nós já cantamos em algumas rodas de poemas em São Paulo e também no Rio Grande do Sul. Ela é assim: “Agora é a tua vez de dizer mais poesia/ entra a nesta roda com a tua negroesia./ Roda, roda, roda poesia, o lelê/ Roda, roda, roda poesia, o lelê.” Então, há um parada e entra alguém e diz um poema e nós voltamos a cantar até que estejamos satisfeitos de tanta poesia. Daí, cantamos a música final. Porque no inicio nós abrimos a roda com essa cantiga: “Canta para assentar o axé, iô, iô / Canta para assentar o axé...”. O axé é a força energética das pessoas, a força que vem de seu orixá que é aquela relação que ela tem com os seus arquétipos. E, depois da roda, quando as pessoas ficam satisfeitas com tanta poesia, nós cantamos: “Canta para espalhar o axé, iô, iô / Canta para espalhar o axé...”  E a roda se encerra com este canto que tem o sentido de “olha, vamos levar esta energia para todas as pessoas, vamos espalhar essa energia coletiva, que nós conseguimos produzir aqui.”
Renate Hess: Muito obrigada, Cuti. Espero que nós também possamos espalhar essa energia por nossa rádio. 
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