Entrevista para Marcos Stefano, do Jornal da ABI.



1) Apesar de o livro ser apresentado como uma biografia, percebi que analisa a obra de Lima Barreto e sua importância e atualidade. Compreender essas facetas foi seu objetivo?
Cuti – Sim, foi esse o objetivo por uma razão simples: Lima Barreto se tornou personagem de quantos estudam a sua obra. Isso porque o fazem pelo viés de estereótipos biográficos. É preciso enxergar o grande escritor que ele foi. E isso é pela obra que conseguimos ver. Um escritor não deve ser valorizado por ter tido essa ou aquela doença, por ter sofrido falta de dinheiro, ter sido preso etc. A obra é que dá a dimensão do escritor. E a memória de Lima Barreto já foi demasiadamente linchada por alguns traços de sua biografia apresentados nesse sentido. O resultado disso é que o preconceito é transferido para sua obra. Ele continua um autor atual porque enxergou o Brasil criticamente a partir de um lugar desprivilegiado, o lugar dos humilhados.


2) Como surgiu seu interesse no personagem?
Cuti – Lima não é um personagem, embora uma crítica irresponsável o tenha considerado assim. Ele é um dos maiores escritores brasileiros. Meu interesse pelo seu trabalho nasceu há muito tempo, quando li “Clara dos Anjos” e percebi que do lugar existencial de onde se realiza um discurso é o fator mais importante para se considerar em uma análise. Descobri que Lima Barreto fez a diferença em sua época exatamente por isso. Sua obra e a de Cruz e Sousa foram objeto de minha tese de doutorado. Então, fiz uma imersão total em seus textos e descobri a força, a tenacidade e a dignidade de um grande intelectual que, já naquela época, dizia que no Brasil as pessoas têm medo de ter opinião e um de seus personagens dizia que ninguém quer ser negro no Brasil. São expressões aparentemente simples, porém abrigam duas grandes questões que ele soube trabalhar: a necessidade de desenvolvermos um pensamento crítico enquanto postura de vida e a busca de nossa identidade enquanto povo por meio do desmascaramento do racismo e suas performances camaleônicas.


3) Lima Barreto foi considerado durante muito tempo como um dos escritores "malditos" do Brasil. Qual é a real importância de sua obra para a literatura nacional?
Cuti – Lima não foi maldito por modismo modernista. Ele foi amaldiçoado por uma recepção literária extremamente reacionária, formalmente submissa a padrões eurocêntricos e por ser racista em termos temáticos. A importância de sua obra está em propiciar abordagens de personagens de pouco interesse para os intelectuais da época. Quando o subúrbio adentra a obra de Lima Barreto não entre como pitoresco, folclórico, mas como lugar onde pessoas carregam seus dramas, seus questionamentos perante a existência, suas angústias e ambições. A dimensão humana dos pobres surge densa, complexa. Por outro lado, aspectos como carreirismo, corrupção, hipocrisia, crueldade, tudo isso aparece por uma ótica opinativa que não camufla em onisciente e onipresença o narrador. Há um foco preponderante e o autor faz questão de não esconder isso. A obra de Lima é um exemplo de coragem e um estímulo à sinceridade na arte de escrever.

4) De que forma podemos dize que sua obra continua atual?
Cuti – Temas como discriminação racial, uxoricídio, corrupção na política, violência no futebol, impunidade, falência do casamento, abuso de autoridade são presentes na obra barreteana não como assuntos banais, mas como tópicos que são acompanhados de reflexão crítica. 


5) Já ouvi falar que seu trabalho na imprensa era apenas um "ganha pão". É isso mesmo ou teve outra importância, dado que ele era um grande cronista?
Cuti – Lima Barreto teve muito problema financeiro. Vivia no limite orçamentário. Precisava trabalhar mais para reforçar o orçamento doméstico. Escrever para a imprensa foi uma das saídas que ele buscou, mas impregnou essa atividade de um sentido de luta por corrigir hábitos, costumes, formas de comportamento, e para debater ideias, como a concepção de literatura, e para atuar nos fatos do cotidiano.


6) Em sua opinião, qual é a grande obra de Lima Barreto e qual é a importância do escritor para a sociedade brasileira?
Cuti – A grande obra de Lima Barreto foi nos ter deixado um legado de coragem e abnegação. Seus livros mais importantes, O triste fim de Policarpo Quaresma, Recordações do escrivão Isaías Caminha, Clara dos Anjos, Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá e Numa e a ninfa, além de seus contos e crônicas, são exemplos de um propósito intelectual de, com a arte literária, tocar no fundo do sentimento do leitor. São obras que nos levam a pensar no destino humano, que nos remetem – mesmo que pela via satírica – a formular juízo sobre vários assuntos.  Os Bruzundangas e Coisas do reino do Jambon são o retrato vivo e jocoso do que nós brasileiros infelizmente somos e do quanto devíamos deixar de ser. Trata-se de uma obra profundamente preocupada com as relações sociais do Brasil.

7) Cento e trinta anos após seu nascimento, você acha que ele ainda é desconhecido para uma grande maioria, apesar do sucesso de personagens como Policarpo Quaresma e Isaías Caminha?
Cuti – Temos uma pena do Policarpo que, a meu ver, é indevida. A insensatez do personagem traduz o descolamento da realidade que a maioria dos brasileiros vive, achando que somos de um jeito quando somos de outro. As estatísticas estão aí para mostrar que não somos cordiais e que Deus – por mais que o Cristo Redentor fique como os braços abertos – não é brasileiro coisa nenhuma. Policarpo, caída a máscara da hipocrisia, certamente nos leva a ter vergonha de ser um país tão moroso em resolver seus principais problemas. Quanto a Isaías Caminha, esse não é um personagem muito conhecido. Mas tão ou mais importante do que o Policarpo, pois Isaías inaugura no romance brasileiro o ponto de vista do humilhado em processo metalingüístico de auto reflexão. Em primeira pessoa o narrador-personagem recupera fatos de sua história e da história de um grande jornal em que trabalhou. Desfilam, então, verdadeiros tipos de um país bufão, no qual impera a chamada Lei de Gerson. Só que os pés de barros ficam à mostra, pois do lugar de Isaías, contínuo do órgão de imprensa, as notícias do que vê são outras. Além disso, Isaías sofre preconceito racial e não deixa de registrar isso e comentar. No Brasil, infelizmente, por se tratar de um país onde o povo ainda têm vergonha de ser diverso como é, o que gerou uma falta de identidade abissal, é hábito não se valorizar o que se tem de produção intelectual própria. A mentalidade de colonizado ainda impõe a dependência intelectual do que vem de fora. A educação reflete isso, com seu índice de leitura baixíssimo. A obra de Lima Barreto é espelho. Nela está o rosto que queremos esconder enquanto povo e nação.

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