Entrevista para Luciane Mediato da redação do diário do Grande ABC
22/5/2011



1) Como surgiu a ideia de homenagear Lima Barreto?

Cuti – Na realidade não se trata de homenagem. Este livro que escrevi pretende ser uma reflexão sobre a obra e a vida de Lima Barreto, levando em conta a perspectiva do humilhado que ele assumiu, para realçar aspectos que até então eram tratados com certo descaso ou abordagem visivelmente comprometida com a ideologia dominante naquele momento histórico, final do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX.


2) Como foi feita a pesquisa para escrever a biografia dele?

Cuti – A minha tese de doutoramento resultou no livro “A consciência do impacto nas obras de Cruz e Sousa e de Lima Barreto”. Todo estudo que você leva muito tempo para realizar acaba revelando muitos atalhos para temas interessantes que não é possível trilhar. Essa impossibilidade acaba sendo necessária para que não se perca o foco. A respeito da obra barreteana eu realço no livro de agora aspectos da nossa atualidade que são passados a limpo por uma consciência crítica bastante aguda do autor. Portanto, foi oportuno o convite feito por Vera Lúcia Benedito – a coordenadora da coleção Retratos de um Brasil Negro – para que eu produzisse o texto. Ele significou uma retomada de alguns temas transversais da minha pesquisa anterior.


3) Quais os fatos na vida de Lima Barreto que mais chamam a sua atenção?

Cuti – A opção ideológica e estética merecem atenção, pois ele optou pelo caminho mais difícil e pagou um preço muito alto por isso. Criticar o pensamento e costumes do período em que viveu, dar voz ao subúrbio, a tipos lá esquecidos pela literatura realista e parnasiana, não fazer vista grossa ao racismo pretensamente científico assumido pela intelectualidade branca de então, tudo isso demonstra a importância de Lima Barreto para a cultura brasileira.

4) Na sua opinião quais são as obras de Lima Barreto que mais se destacam na história de literatura brasileira?


Cuti – “O triste fim de Policarpo Quaresma” é a obra mais lida, porém, eu considero mais importante o livro “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, pelo que ele traz do ponto de vista do brasileiro humilhado, daquele que não se deixa vencer e, assim, faz da própria obra que escreve em primeira pessoa uma forma de resistência ao relatar suas frustrações bem como o cenário em que se desenvolve um exemplo da imprensa brasileira. “Clara dos Anjos”, outro livro importante, abriga a continuação das relações escravistas entre homem branco/mulher negra no contexto suburbano.

5) Ao seu ver qual foi o papel de Lima Barreto na história do Brasil?

Cuti – O papel de Lima Barreto foi o de mostrar que nosso país pode e deve ser visto também pelo ângulo dos pobres, dos sonhadores, dos idealistas que fogem a luta de rapinagem que se instaurou no comportamento arrivista e se cristalizou na vida brasileira. Do ponto de vista literário, foi um precursor da Literatura Negro-brasileira atual, pela sua aproximação com a dicção popular e a revelação dos dramas que vivem os afastados do poder.

6) Você acredita que ele tenha o reconhecimento que merece?

Cuti – Lima Barreto não teve e não tem ainda o reconhecimento devido porque o Brasil ainda abriga uma mentalidade racista nos vários nichos do poder político, econômico e cultural. Essa mentalidade é a responsável pelo processo de alienação de nosso povo, pela falta de autoestima, pela recusa ao patriotismo sério tão necessário aos povos do mundo inteiro, pela desconsideração das práticas raciais discriminatórias como item relevante a ser superado em nossa vida social, pela recusa de ler a história pelo ponto de vista dos humilhados.

7) Quais outros autores e personagens da nossa história podem ser comparados a Lima Barreto?

Cuti – Lima Barreto não pode ser considerado um personagem, como a crítica o vem tratando há muito tempo, patologizando sua trajetória intelectual. Lima Barreto foi um escritor resistente às seduções da ideologia dominante. Semelhante a ele temos, dentre outros,Cruz e Sousa, Luís Gama, Augusto dos Anjos.