CUTI. Fundo de quintal nas umbigadas. In: XAVIER, Arnaldo; CUTI; ALVES, Miriam (orgs.) Criação crioula, nu elefante branco: I Encontro de Poetas e Ficcionistas Negros Brasileiros – São Paulo – 7 e 8 de setembro de 1985. São Paulo : Imprensa Oficial do Estado, 1986. 160 págs. 20 Autores.
 


A melhor ousadia nossa é não esperar

  Neste ano, pelo que eu saiba, serão 13 (treze) antologias de poetas e ficcionistas negros brasileiros. A memória do número não é nada boa. Mas o palpável é uma conquista. Pra quem não sabe, cito:
a) 8 Cadernos Negros
b) 1 Capoeirando
c) 1 Poetas Baianos da Negritude
d) 1 Poetas Negros do Brasil
e) 1 Axé - Antologia Contemporânea da Poesia Negra Brasileira
f) 1 Tetos de Aurora dos Punhos.
(Este livro,organizado por Éle Semog e Manoel Botelho dos Santos (antologia) deveria ter sido publicado no ano de 1985, financiado por iniciativa angolana. Porém, até o momento da organização deste livro (janeiro a março/1986) não tive conhecimento da publicação.)

  Mapeamento. Incentivo ao pessoal sem horizonte na gaveta. Democratização (e até socialização) do ato de escrever. Uns carrancudos querem que haja um crivo inibidor e se garanta o direito de publicar aos escolhidos. Encolhidos do egoísmo. Tá lesma a história de talento inato...
  Livros individuais, com a edição do sacrifício: em torno de cinquenta (incluindo os que põem selo de editora para valorizar o livro e descontando as antologias) de poesia e prosa de ficção. Debruçando sobre este pequeno mar de palavras, pesco

O sentimento de orfandade intelectual
  Talvez o que mais nos enfraqueça enquanto artistas seja isso. Traduzindo: desconhecimento ou desprezo pelo nosso próprio passado literário. Há muito de ser “inventa o guarda-chuva de novo”. É também a miséria da visão do branco, tomada como orientação segura. Pelo prisma da vivência de negros e mulatos (experiência interior), considero o tripé básico da nossa tradição: Cruz e Sousa, Lima Barreto e Machado de Assis. Considero aqui a densidade da obra de cada um. As ideias falsas:
* Do Cruz e Sousa disseram e propalaram (brancos e até militantes negros) ter sido um autor que não lutou pela causa de seus irmãos de raça, ter escrito muito a palavra branco, almejado o embranquecimento como única saída. As consequências são os preconceitos contra o autor. Costuma-se não ir além do poema “Antífona”.
* Do Lima Barreto a ideia corrente é de que escrevia errado gramaticalmente e de ser um bêbado, e por fim um louco. Há até uns defensores que tentando livrá-lo da visão pejorativa, acabam por justificá-la com populismos traiçoeiros. O autor não precisa disso. É, contudo, o mais bem quisto dos três.
* Machado de Assis é igualmente colocado no paredão como traiçoeiro, porque não se envolveu no Abolicionismo, e só retratou o branco nos seus livros. Da maneira como o fez, nada melhor para nós, vindo de um mulato que foi discriminado, apesar da presidência da A.B.L.
  Desses chega-pra-lá, podemos inferir sensíveis perdas para a nossa produção literária. De Cruz e Sousa a vertente trágica, o profundo mergulho psicológico, a estética da velocidade, o domínio da métrica e recursos musicais. De Lima Barreto, a objetividade irônica, o despojamento na abordagem da questão racial, a visão do cotidiano. De Machado de Assis, a monumental ironia com que focaliza a sociedade dominante, o refinado domínio técnico na elaboração da narrativa.
  Ao tripé acrescentaria mais um nome - só pra ficar no século passado - de menor densidade na produção (apenas um livro), porém oferecendo suas lições de grande valia: Luís Gama, o “Orfeu da Carapinha”, com sua ousadia satírica deu-se o direito de fazer troça, rir em verso, o que se vê muito pouco nos textos de autores negros contemporâneos. Isso porque o grande vício ainda é sobra condoreira, na sombranca do discurso de fora. Não é preciso elaborar exegese na obra de Castro Alves para que se perceba tratar de um branco falando de negro, para outro branco - considerando evidentemente os textos onde o escravo é o tema.
  A nossa literatura, enquanto comunicação (a finalidade última), merece aqui uma reflexão até mesmo esquemática:
* O “eu poético” negro quando identificado com o branco gera atitudes, no criador, de paternalismo (o escritor tem pena da sua gente e comenta sua tragédia), e pseudocrítica (numa atitude de defensor dos miseráveis). Isso quando é concebido um interlocutor branco. No caso de um interlocutor negro, o discurso costuma adquirir tom de advertência, conselho.
* O “eu poético” negro, quando assumido como tal, dirige-se ao interlocutor branco em postura de lamento (o que mais se tem refletido nos textos) e/ou acusação crítica. Quando pressupõe um interlocutor negro é muito comum espelhar-se um princípio de solidariedade e a reiteração da proposta de identidade racial via África-Mãe, paraíso perdido. Mais recentemente a identidade através da tomada da consciência política vem surgindo.
  Mas a obra, ou melhor, o tom de Castro Alves tem influência mínima em nossa produção se lembrarmos que, para a ideologia dominante, pressionando sobre nossas cabeças, somos o outro, o agregado, aquele a quem se tolera na condição de personagem plana, sem profundidade psicológica nem pretensão maior que não seja tornar-se um cidadão brasileiro branco. Daí sermos vítimas, até inconscientemente, de uma

Camisa de força temática
  Se o mais comum tratamento que nos é dispensado na literatura brasileira, em particular, e nos meios de comunicação de massa, em geral, tende a reduzir nossa complexidade humana, nós enquanto criadores somos vítimas desse condicionamento. A perda da individualidade é um traço desta contenção. Flui com predominância uma ideia de coletivo amorfo, estigmatizado e os temas a ele referidos (o flagelo da escravidão, crise superficial de identidade, defesa de manifestações culturais - às vezes retrógradas - como resistência, racismo do branco enquanto atitude exterior). É o reinado do estereótipo lançando seus domínios alienantes. “O oprimido é hospedeiro do opressor” já escreveu o educador Paulo Freire. Por isso a dificuldade de fazermos do branco nossa personagem. E talvez isso até explique a pequena produção de textos teatrais, ou contribua para explicá-la. No teatro as personagens estão em relação direta, e o conflito é básico.
  Mas, voltando à educação os olhos da citação, vamos perceber nela a formação do arcabouço do nosso calabouço intelectual, porque é nos referenciais da escola que

Acabamos nos espelhando e vendo a imagem torta
  A Lei 4.024 de 20/12/1961, mantida em parte pela 5.692 de 11/8/1971, também das Diretrizes e Bases da educação nacional, propõe como fins da educação, entre outras coisas: Art. 1º, letra b “o respeito à dignidade e às liberdades fundamentais do homem”, e letra g “a condenação a qualquer tratamento desigual por motivo de convicção filosófica, política ou religiosa, bem como a quaisquer preconceitos de classe ou de raça”. No caso de discriminação racial e dos preconceitos de classe onde a perda da dignidade é tão massacrante, os meios de condenação e combate ao racismo estão longe de eficácia. A criança negra continua a ser vítima de uma educação de supremacia branca. E mais: modelos de bem e mal estético, concepção burguesa de escritor, negação de si mesmo enquanto negro. Contempla-se o paraíso da exclusão como se não fosse o inferno purgatórico. Exatamente essa exclusão que gera a invisibilidade da personalidade, tão prejudicial para a criação artística. O autodidatismo não é para o escritor negro fator de complementaridade na formação escolar. Significa a possibilidade de emersão do leite azedo da educação formal e informal. Mas, e a ideia de poeta e ficcionista diante das miragens?

Nada pior do que ser parnasiano na aproximação com o ariano
  Inspirado pelas musas, “capaz de ouvir e de entender estrelas”, talento diferenciado, melancólico, solidamente só, solidão sem solidariedade, uma posição econômica privilegiada ou pelo menos estável, ampla biblioteca bem aparelhada, 3 idiomas ou mais, viagens pela Europa, óculos e, se possível, uma bengala de prepotência no olhar.
  Isto posto enquanto espelho, resta-nos conflito. É a capa e a máscara, o terno e a gravata. O nó da ilusão.
  Acrescente-se o dado importante da ideologia do embranquecimento: somos um país racialmente democrático. Esse discurso desanimador e essa miragem vão promover confusões e titubeios. Há que se ficar

Em cima do muro
  “Não sou um negro escritor e muito menos um escritor negro. Na verdade sou um contador de es/histórias...” escreveu Paulo Colina em sua auto-apresentação para os Cadernos Negros 2 (1979). // Para ser contador de história não é necessário renunciar-se como negro//.
  No prefácio de Gestas Líricas da Negritude, livro de Eduardo de Oliveira, Tristão de Athayde depois de assegurar que o poeta “é, sem dúvida alguma, o nosso novo Cruz e Sousa”, acrescenta que nos seus poemas “não há sinal algum de racismo”. E ainda falando da arte de Eduardo, assinala: “O maior dos apostolados é precisamente o que faz abrindo as vestes para que se veja os sinais dos troncos, dos azorragues, dos ferros em brasa...”.// É ... pimenta no olho alheio é refresco para o sadismo histórico//.
  O prefaciador do livro O Estranho, de Oswald de Camargo, assinado como Gilberto de Mello Kujawski acentua: “Mesmo em intelectuais negros maduros como Oswaldo de Camargo, nota-se, por baixo do gesto generoso e desarmado, algum ressaibo desse particularismo negro, cuja tentação devem evitar a todo transe” e continua logo depois: “Seria de todo conveniente que Oswaldo de Camargo vencesse as últimas hesitações, o derradeiro pudor em relação aos elementos não negros de sua Formação Humanística. Precisa convencer-se de vez por todas, e convencer seus correligionários...” e vai pela vereda de ensinar humanismo para evitar que nos tornemos racistas.// Cá entre nós, é mais importante nos preocuparmos com os valores perdidos, os valores negros jamais encontrados na nossa f.h. alienante//.
  Nestes pequenos exemplos fica esboçado o tratamento que alguns de nós admitem e assumem. O branco intelectual reacionário está de olho, vigiando atitudes, distribuindo conselhos, elogios e, porque não dizer, pancadas. É que no fundo está patente a incompatibilidade de sermos autenticamente negros e literatos conforme o modelo.
  Mas a ideologia que permeia o discurso neo-racista acaba também por oferecer opções, tais como

No coração da miséria, a miséria da expressão
  Quando legitimaram Carolina Maria de Jesus, legitimaram um horizonte para o negro na literatura brasileira. Escrever como se fala, cometer erros de ortografia e fazer do naturalismo jornalístico a razão de ser da nossa arte. A própria Carolina chegou a reclamar quando alguém a repreendeu por estar ela perdendo a “autenticidade” com o uso de certas palavras “difíceis”.
  Ao falarmos de folclorização, notemos que esse fato não se prende ao passado. Ocorre no presente e pretende continuar no futuro. Por isso, os negrófilos. Faz parte da coisificação da nossa presença maciça no País e tem como instrumento básico de sua determinação o processo de mumificar ou incentivar a mumificação (até hoje cristãos vencem os mouros nas congadas). Conservação de estruturas reacionárias é o propósito da ideologia dominante. Dominante, escureça-se, é o que é colocado na cabeça da maioria das pessoas para manter a minoria no poder. O sentimentalismo de quem mamou na Mãe Negra (mas não lhe pagou aposentadoria) é característico e norteia a produção escrita no Brasil. Paulo Duarte, um intelectual paulista quatrocentão, em 1947 queixava-se na imprensa: “Desapareceu, pelo menos da cidades, aquele tipo tradicional do negro bom. Cada um de nós, da geração de antes da primeira guerra, guarda na lembrança a memória agradável das velhas empregadas negras tidas como pessoas da família e que, com o mesmo carinho, a mesma amizade e dedicação, substituíram as mucamas do tempo da escravatura que os nossos pais viram e nós não conhecemos. Hoje isso desapareceu. As empregadas de servir, em geral, e as de cor em particular, são ingratas, descabidamente exigentes, pouco asseadas, grosseiras e agressivas”. E o mesmo cidadão articulista, depois de citar a opção brasileira da “eliminação do elemento negro pela miscigenação” conclui: “sem nunca perder de vista que queremos ser um país branco”.
  O escritor negro, por mais que se pretenda, ou seja diferente dos demais, não escapa ao processo seletivo geral de

Há vaga para negro de fino trato
  Este anúncio não se encontra nos jornais, mas está na cabeça da maioria dos editores, críticos e mesmo do público consumidor de literatura. É a expectativa da psique culposa. Dela abre-se o caminho da disputa entre os escritores, atualmente em fase embrionária, porém já com alguns excitados pelo reconhecimento. Em toda disputa existem as armas. Uma visivelmente utilizada é a de obter prefácio de algum intelectual branco, de preferência que seja reconhecido pelo establishment.
  Nenhuma legitimação é apenas estética. No mais das vezes é ideológica.
  Se escritores são incômodos em toda a sociedade, o que pensar da solidariedade entre poetas e ficcionistas negros brasileiros? Pelo prisma da psicologia social é fácil detectar um dos resultados da discriminação racial sistemática: o auto-ódio. O indivíduo é levado a não gostar de si, nem de seu semelhante mais próximo. A classe dominante sabe disso e da nossa miséria material. O que fizemos (livros autofinanciados) sem depender de paternalismo de ninguém já animou a vida literária entre negros. Uma substanciosa propina pode ser uma bomba. A ideologia racista elabora suas estratégias michaeljacksonianas de afilar o nariz (não esquecer Ângela Maria, Cauby e outros) e oferece incentivos para que entabulemos pelésmente um couro: “não há racismo, o problema é mais geral, preconceito social, questão de classe...” etc. etc. etc., dispersando os olhos da gente na realidade multifacetária para que ele se torne azul e autenticidade seja apenas banzo ou blue.
  Se a língua portuguesa com certeza veio se estruturando no Brasil a partir da caminhada histórica, onde, de uma maneira ou de outra, a exploração do nosso povo sempre se fez presente (aqui é bom lembrar que em nosso país é impossível dissociar raça e classe numa perspectiva global), fica evidente uma questão latente na problemática literária para o escritor negro (e demais)

A linguagem agindo em nome da liberdade
  Apesar dos pesares já apresentados, é possível detectarmos as perspectivas de avanço nesse sentido. Há autores negros preocupados com a metalinguagem, a estrutura do texto, a construção de palavras. Não podemos ser ingênuos. A língua não foi estruturada de modo a facilitar o trânsito de nossos sentimentos e ideias com facilidade. O código tem toda uma série de armadilhas, nas quais caímos por vezes. Precisa ser mexido, alterado, manipulado com a máxima destreza possível, o que implica lucidez e desconfiança. É a linguagem. O fazer é quem garante que os “nós” do código sejam desfeitos. Já contamos com neologismos, experiências estruturais novas, ousadias inusitadas com base na nossa experiência de negros. Arte é liberdade de pesquisa, antes de tudo. Defender isso é assegurar que os insidiosos métodos de domesticação ideológica encontrem resistência no campo literário, e que também a nossa mensagem não se esterilize na camuflagem dos conflitos humanos, mas sim os revele em profundidade.
  A vida do negro é tudo o que o negro vive. As relações raciais são relações sociais. Não há mundo paralelo. O branco e o mestiço também fazem parte do nosso tema. A mudança de foco (pois ainda há uma tendência a nos considerarmos objeto de estudo de nós mesmos) traz muitas novidades. O que mais importa é o olho aceso. Incomoda, evidentemente, mas é necessário e desaliena. Do gol à bomba atômica, temos direito de fazer literatura e imprimir a nossa vivência.
  A universalidade tão decantada é consequência da dimensão humana da abordagem do texto literário e não da renúncia do negro assumir-se como tal. Isso é a esterilização, a não-consciência, a mentira. A arte existe não apenas para consolar, mas como ensinamento, reflexão profunda da humanidade. É lícito perguntar neste momento: o que temos nós com os conflitos do apartheid? Há motivações históricas que nos permeabilizam no sentido de uma transafricanização. Essa unidade psicológica mundial, não vamos renunciar a ela, nem tampouco a ela nos acomodar diante das explorações do homem sobre o homem em todo mundo, inclusive flagrantemente em países da África e do Caribe. Esse estar no mundo contribui para não nos perdermos em nacionalismos caolhos. Afasta-nos também da sensação de isolamento internacional.
  A literatura de países africanos e de outros com grande população negra, está mais próxima de nós do que muito da produção do nosso próprio país. Os condicionantes históricos, as proximidades culturais e as situações sociais são a base disso. Daí porque também ser fundamental este alimento estrangeiro. Deseurocentralizar a informação/formação em nosso país é uma necessidade urgente.
  Nosso contato com essas literaturas citadas é dificultado pela barreira do idioma e a política das traduções, voltada para centros culturais hegemônicos. Assim, por exemplo, livros importantes e básicos da Negritude não foram traduzidos. Inúmeras obras de escritores negros americanos encontram-se na mesma condição. A indústria cultural brasileira tem suas preferências. Literatura é produto de consumo. Dourar a pílula é uma técnica de venda das mais comuns. Como e por que

Dourar a literatura negra do negro?
  De plumas e paetês já estamos escolados. Alegria da gente no leilão turístico. “O tocador quer beber...!” O empresário lucrar. Mas este último não é tão frio que deixe de atuar como agente ideológico. Um escritor negro certa vez contou-me que a recusa de uma editora aos seus originais prendia-se ao argumento de não terem parâmetros para julgar seu trabalho, por ele ser negro. Ouvi também de uma mulher, se dizia editora de livros, a declaração pública sobre o fato de a literatura de negro fugir à linha editorial de sua empresa por não se adaptar à sua clientela. Em carta-resposta, de 18/8/1980, à apresentação dos originais do meu livro Batuque de Tocaia, o editor Ênio Silveira assim se expressou: “V. Sa. se propõe ser um poeta de negritude, mas só consegue exprimir sua revolta, que o leva, embora o negue, a uma outra forma de racismo, contra o branco”.
  Quando nos anúncios de emprego deparamos com a expressão “exige-se boa aparência”, não estamos longe do marketing literário.
  Não se trata, pois, de adequar a embalagem, mas o conteúdo, e com isso retardar o processo de identidade nacional.
  Evidentemente, este bloqueio editorial continuará exigindo paz/ciência e a iniciativa empresarial de negros. Por isso

Nossa esperança é feita de teimosia
“O que eu digo não é pra parecer
tristurinha épica” (Semog)

- o -

“Quando negro dá risada
é que nem uma cigarra soltando
o verão brasileiro

mas se aparece relâmpago
é que negro ficou
com raiva raiva

e fez da vida dele
um poeta puto da cara
uma cachoeira complicada

uma arma de ponta
um carecimento de
brincar no aroma dos tambores”
(Ronald Tutuca)

  O mercado é virgem. A Democracia Racial despudorada. Mas a gente não é besta pra nessa luta renunciar à gargalhada. Apesar de que ultimamente andam

Confundindo quilombo e gueto
  O que dizer da senzala, da favela, do cortiço, do alagado e dos conjuntos apertadinhos do BNH? Quem pôs a gente lá?
  Quando o negro começa a se organizar modernamente, vem esse papo de que está fazendo gueto, blá, blá, blá... Se a ascensão social implica em isolamento, ficar ilhado no meio branco - isso sim é gueto. Quando há propósito consciente, politização no se aproximar, temos a nova réplica do quilombo. Sabemos: racista não gosta nada disso, não. Se poetas e ficcionistas não se derem

Umbigadas
  O esforço solitário vai resultar em muita angústia, choro sem lágrima, proibição do riso e o nada como prêmio de consolação. O racismo abrirá os cantinhos da boca, com fina ironia, de onde poderemos ver uns restinhos de dramaturgia negra, comida na sobremesa do repasto de poesia e prosa.
  - Epa! Tome umbigada.

São Paulo, 14 de agosto de 1985.


Bibliografia citada

Camargo, Oswaldo de. O Estranho. Roswitha Kempf : São Paulo, 1984.
Colina, Paulo et alii. Cadernos Negros 2 - Contos. Ed. dos Autores : São Paulo, 1979.
Duarte, Paulo. “Negros do Brasil” (conclusão). In Jornal O Estado de São Paulo, 17/4/1947 , p.6.
Freire, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 3.ed. Paz e Terra : Rio de Janeiro, 1975.
Oliveira, Eduardo de. Gestas Líricas da Negritude. Obelisco : São Paulo,1966.
Tutuca, Ronald. Homem ao Rubro. Ed. do Autor : Porto Alegre, 1983.

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