A consciência do impacto nas obras de
Cruz e Sousa e de Lima Barreto


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 13
EXCLUSÃO HISTÓRICA 17
Eventos, ideias e violência 21
O racismo e seus métodos 27
O estreito corredor das letras 53
O prestígio desde que romântico 56
Pele, escrita e enfrentamento 62
Pretensões de realidade 65
Brasilidade exclusiva de brancos 67
Autor para que te quero 73
Gosto e desgosto do leitor 76
O sujeito étnico 85
O VENTRE LIVRE DAS OBRAS 96
A ficção e a poesia 103
Considerações sobre os paralelos 104
Uma polarização possível 109
Com a vara curta 113
Tangenciando 119
Convite para o “eu” desconhecido 124
Loucura e cura 130
A morte adversária 141
Literatura e literatos 154
O desejo e a censura 160
A encenação da memória 187
Ventura 210
Desventura 215
Enlace memorial negro-brasileiro 224
IMPACTO E FORMA 235
Poema em prosa. 242
Sátira 251
O BECO E A SAÍDA 265
Identidade despojada 271
Consciência racial possível contra o
recalque 279
CONCLUSÃO 281
Referências 287
O autor 294


INTRODUÇÃO

Quando os parâmetros da interpretação textual encontram-se tão questionados e em situação visivelmente cambiante, levantar hipóteses sobre obras literárias é uma tarefa temerária que, habitualmente, vai buscar o seu consolo na adoção declarada de uma vertente como se fosse uma armadura cujos dados de sua resistência constituíssem a priori uma salvaguarda contra a amplitude dos limites.
Que a Literatura e a Realidade tenham se dissociado e, consequentemente, a busca do significado secreto de uma determinada obra tenha perdido o sentido dado pela “caça ao tesouro”, que tanto serviu de plataforma de lançamento para as investidas críticas contra os textos, tudo isso constitui matéria sabida. Se isso, entretanto, redundou em um certo desânimo advindo da desilusão com a pergunta “o que o autor quis dizer?”, equivalente ao passo para a busca da verdade subjacente ao texto, por outro lado o indivíduo, em sua singularidade, foi valorizado enquanto leitor e instância autônoma de fruição literária. Contudo, o grande desafio passou a ser o “como” tornar possível a comunicação dessa fruição, pois o caminho do discurso não literário sobre o discurso literário tornou-se bastante sinuoso e marcado por uma necessidade de questionamento de seus propósitos. O fim da literatura, propalado em vários momentos históricos, passou. O fim da crítica, entretanto, parece estar em curso. Os próprios escritores do século XX lançaram as bases para a morte da crítica, não apenas através da contracrítica, mas, sobretudo, através de obras que faziam ruir os pressupostos tradicionais de análise.
Comunicar, pois, uma leitura situa-se no bojo de uma certa falência, no qual tudo parece redundar em um exercício contínuo de tentar o caminho estreito deixado pelas diferenças de paradigmas teóricos.
Por outro lado, quanto mais amplo apresenta-se o objeto da tentativa de comunicação analítico-interpretativa, mais problemática ela se torna. E, ainda, caso tenhamos um objeto que implica a reunião de obras de autores diversos, tudo pareceria apontar para o caos da impossibilidade, tão recomendável é a redução especializadora nos vários campos da atividade humana, inclusive no da cultura, ainda que seja ressaltado o paradoxo de estarmos em uma época na qual a comunicação humana tem sido cada vez mais intensa, envolvendo as mais profundas diferenças. A compartimentação do saber, em face da totalidade da vida, situa-se na base desse paradoxo. A autonomia das partes (sejam elas unidades ou sistemas) diante do todo vê seu território ameaçado. Os gêneros e formas literárias demarcaram territórios a tal ponto de a poesia ter deixado o âmbito da Literatura para, situando-se à parte, aproximar-se das artes menos palpáveis pelo discurso referencial que medeia os negócios da vida prática cotidiana. A tentativa de reaproximar poesia e prosa enfrenta, pois, a tradição de se marcar a diferença de ambas.
Mas, se há certa preocupação para com o estreitamento dos objetos de análise, desde o século XIX vem crescendo as pesquisas no campo da Literatura Comparada, cujas instituições têm, cada vez mais, traçado aproximações inusitadas no âmbito da cultura global. As demarcações não escondem mais as zonas fronteiriças a problematizar os limites.
Além disso, desde os primeiros estudos em torno de raça e literatura no Brasil, a tônica sociológica tem negligenciado a abordagem estética das obras, como se tão somente as questões temática e biográfica pudessem dar conta do fenômeno literário.
Ciente de tais dificuldades que envolvem o objeto deste trabalho, a obra de Cruz e Sousa e a de Lima Barreto, é necessário frisar que a delimitação de um propósito nas duas obras não restringe a abordagem de outros aspectos nelas reiterados. Enquanto tese, este trabalho se propõe comunicar uma leitura, não uma verdade (o tesouro atrás do texto), mas uma “ilação”, no sentido primitivo de transportar e trazer aproximações das duas obras. O que se pretende mostrar é que, considerando não terem as obras, dos referidos autores, trafegado à margem do campo minado pela escravidão e pelo racismo, o sujeito étnico percorre seus textos criando uma tensão com o discurso racial dominante, uma oposição direta ou indireta. Essa tensão caracteriza um momento importante da evolução de uma negrobrasilidade literária, implicando, também, uma superação significativa de padrões estéticos, constituindo dois grandes desafios ao cânone.
A sociedade brasileira, sua evolução histórica e os valores predominantes, no final do século XIX e começo do século XX, constituirão a porta de entrada para as reflexões aqui desenvolvidas, na perspectiva da abordagem da exclusão social, que redundou no desenvolvimento de um profundo senso de missão artística, cujo mote principal foi buscar o “eu” autoral negro e mulato, pela constituição diferenciada de um sujeito étnico do discurso.
A seguir, o vetor deste trabalho aponta para as semelhanças da funcionalidade do sujeito étnico nas obras dos dois autores, destacando trechos de maior relevância para o debate racial e refletindo como a ausência aparente deste não exclui a sua presença metaforizada, mas latente.
A terceira parte cuida das resultantes formais das duas obras e o debate estético que elas colocam, como manifestação de posicionamentos fronteiriços na cultura brasileira e no que eles implicaram e implicam.
A guisa de conclusão, pretende-se chegar à importância do sujeito étnico negro-brasileiro para a evolução da Literatura Brasileira, no sentido da realização de um diálogo estético e ideológico com as convenções predominantes, em especial com aquela concernente à formação étnica e suas relações com o desenvolvimento do país.

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