CUTI. Negros em Contos. Belo Horizonte: Mazza Edições, 144p.

CARRETO



Quinta, dia de grande feira no Bairro do Butantã.
Cedinho, em meio à cerração, ele segue ladeira abaixo. Com o pé pressionando um breque de borracha, sustenta o carrinho de madeira que desliza sobre duas rolimãs, atrás, e uma roda de betoneira, à frente. Com os carretos de hoje, deverá conseguir, no mínimo, dinheiro para o remédio, cuja receita se encontra amassada no bolso. Se o dia for bom, ainda sobrará para as balas e um maço de cigarros.
Faz frio e a blusa que a mãe recebeu na casa da patroa não lhe aquece bem a magreza. No estômago, pão e café puros torcem-se.
Força o calcanhar. O carrinho vai parando. A roda dianteira no ar, suspensa, gira livremente. Segue a Avenida Corifeu de Azevedo Marques, interrompida por escavações para saneamento básico. Entre buracos e montes esparsos de terra e asfalto destruído, empurra, sustentando as alças de madeira, que rolimãs sem asfalto não deslizam. Pés descalços, ele vai com a esperança de conseguir trabalho. Sente-se adulto aos 13 anos. Pensa na doença do irmão. Está resoluto: “Vou conseguir o remédio.”

9 horas. Só um carreto para uma senhora. Não combinara o preço, crendo na generosidade dos velhos. Hora de pagar, a mulher dá-lhe só a metade do que costuma cobrar. Reclama, mas ela revida com um desdém, dando-lhe as costas. Engole em seco.

Na rua principal de acesso à feira, muitos garotos oferecem serviço. Têm idades variadas. São movidos pela responsabilidade que a pobreza lhes impõe.
É aceito por uma senhora. Um outro surge e disputa:
Moça, eu faço mais barato.
Perde a paciência. Dá um tapa no adversário. A mulher resolve:
Nenhum dos dois! – e chama um outro, que a acompanha sorrindo.
“Cacete! Ia dar uma nota...”, pensa, com ódio nos olhos, enquanto o concorrente foge.
Resolve adentrar o movimento. Oferece-se para transportar compras, mas sua voz some em meio à gritaria dos feirantes. Continua, insiste:
Olha o carregador! Olha o carregador! Olha o carregador!
O céu estronda. Pressa nos passos. Os carrinhos que as mulheres transportam, para evitar despesas com os meninos, são arrastados com mais vitalidade.
Rente a uma barraca, aproveitando a agitação, apanha uma jabuticaba.
Ô, macaco! Fora daqui, tição apagado! – o feirante grita.
Olha o carregador!... – insiste no seu pregão.
Hei, vem cá! – alguém intima. E continua: Dá o carrinho aqui.
É um funcionário da prefeitura. Duvida. Mas é verdade. O homem robusto leva seu ganha-pão, dizendo ser proibido. O menino segue-o sob uma fina chuva que se inicia. Já próximo às barracas de peixe, observa o tumulto fora da feira, para além do pasteleiro. Dois homens lançam seu carrinho de tábuas em meio a outros sobre um pequeno caminhão quase repleto. O barulho de madeira contra madeira lasca a esperança. É o rapa que, periodicamente, é realizado não se sabe por ordem de quem.
Pô, a molecada nem pode trabalhar sossegada!... Maior trabalho de fazer um carrinho, chegam essas caras e... – resmunga a outro colega, sustentando um pedregulho para atirar contra os homens.
Chovem pedras. Trovejam gritos. Desencadeia-se uma correria de homens e moleques.

Traga com dificuldade a forte bituca de cigarro pega no chão de um boteco. Evita, com esforço, a tosse. Fugiu da confusão, depois de também lançar algumas pedras contra os funcionários municipais. Mas perambula ainda pela feira. Está decidido: só voltará para casa quando arranjar o dinheiro do remédio.
Sem nada para adoçar a vida, põe-se a mastigar planos amargos. Olho nas bolsas. “O Gulinho vai sarar!”, repete consigo mesmo, medindo as possibilidades. O vento espanta as nuvens e o sol acalma o vaivém na feira. Uma velha de óculos dourados, cabelos brancos, bem trajada, compra tomates verdes e grandes. Pende de seus braços, pálidos e murchos, uma bolsa branca de crochê. Na mão esquerda, anéis e alianças; na direita, algum dinheiro enrolado.
Um salto. Um grito. Outros gritos de Pega ladrão! Inicia-se a fuga. Ágil, o menino ultrapassa o obstáculo de transeuntes. Em seguida pula um muro de quintal, mas é surpreendido por empregada de vassoura em punho. Lembra-se da mãe, em uma faísca de tempo, e volta atrás. Na calçada de novo, surge feirante em seu encalço, muito próximo. Foge em direção ao Rio Pinheiros e, por uma rampa de terra, rola rumo à Avenida Marginal. Um caminhão-tanque brecando, derrapando, roda dianteira direita rumo à cabeça do fugitivo... Pára! A menos de 1 metro de distância. Desce o motorista esbravejando, chega o feirante afobado. Põem-se a falar, suspendendo o pequeno assaltante, que apresenta escoriações pelo rosto, pernas, braços. A bolsa é arrancada a safanão. Uma tenaz peluda aperta-lhe fortemente o braço. Arrastam-no ao encontro do guarda gordo e afogueado.
Trombadinha, hein!?... – diz o policial, com um sarcasmo retorcendo-lhe a boca.
Algemas, banco de trás da viatura, olhar em pânico, encolhe-se espremendo a lágrima necessária que teima e sai.

Ô, neguinho! Desce!
Ele desperta de um outro mundo. O policial empurra-o pelas costas, enquanto o motorista já caminha à sua frente com uma prancheta debaixo do braço. Sobem uma escada.
Recebe ordem para sentar-se diante de um escrivão. Chega o delegado.
Nome?... Idade?... Onde é que mora?...
Depois, mandam-no para o “chiqueirinho”, uma pequena cela em um porão. Já tem a alcunha de “Pelezico”, que o investigador alardeia, diante dos outros presos, acrescentando:
É preto e tá com a camisa do Flamengo.
Alguns risos e chacotas.
No chão dorme um bêbado balbuciando. O garoto procura se acomodar na pequena cela superlotada e fétida. Está entre adultos. Busca a receita no bolso. Desapareceu. Apavora-se, prostrado por um imenso cansaço. A noção de tempo se vai em um cipoal de pensamentos, ramagens de sonhos e troncos de medo...
A mãe abre a porta e entra furiosa.
É isso! Puxou o pai direitinho. Só falta andar caindo bêbado pela rua. Seu moleque desgraçado! Praga dos infernos... Como é que vai roubar dinheiro dos outros? Fala, praga! – e agride-o com tapas na face esfolada. Depois segura-o pelos cabelos e vai batendo-lhe a cabeça na parede...
Que gritaria é essa aí, moleque? – diz alguém.
José desperta do pesadelo repentino. Os demais presos olham-no. Pelas grades, um policial dirige-se a ele:
Levanta, pivete! Vamos sair.
À porta da delegacia, a perua do Juizado de Menores. Levam-no.

Fundação do Menor – FUMEN. Assistência Social. Sala bem iluminada. Uma mulher ruiva ocupa-se em ler. O garoto observa, levantando levemente os olhos. Mantém, contudo, os músculos retesados. Às suas costas, a porta trancada. Nenhuma possibilidade de fugir. Em volta não há qualquer instrumento para fazer uso em sua defesa. Depois de um silêncio comprido, ela o encara. A voz forte e agressiva inicia pelo recém-apelido: “Pelezico!”... Primeiro, perguntas formais, depois, ela questiona a intimidade. José torna-se mais seco e ríspido. Não quer se emocionar. Até que se emburra e não fala mais. Gulinho chora no fundo de seu peito, lá no cômodo e cozinha da Vila Indiana. Sem o remédio. É preciso protegê-lo, que a mãe só volta de suas faxinas tarde da noite.

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