CUTI. Contos Crespos. Mazza Edições, 2008. 216p.

OLHO DE SOGRA



Findava um dia difícil. No consultório, muitos problemas. Não bastasse a rotina dos que me envolviam com suas dores e reclamações a respeito do que me cabia (os olhos), a única funcionária ameaçava deixar tudo ao deus-dará, pois o salário estava muito pouco e as dependências do imóvel eram péssimas: torneira pingando, janela quebrada, persiana caída, tacos soltando do assoalho, vazamento no teto. Aliás, chovia.
Eu atendia a vigésima cliente daquela sexta-feira. Tratava-se de Gina Goltz da Silva. Dizia-me a tal senhora que seus olhos ardiam e que não sabia o motivo. Tivera muitos pesadelos na noite anterior e acordara daquele jeito. Tendo em vista o histórico estranho que ela me havia apresentado, gastei meus conhecimentos na tentativa de encontrar a razão daquele sintoma. Eu nada sabia de sonhos, nem tampouco podia conceber qualquer relação entre eles e o globo ocular. Contudo, era alguém que merecia uma atenção particular. Afinal, eu estava diante de uma paciente cujos olhos me eram confiados há cerca de dez anos. A região lesada apontava uma contusão, sem dúvida. Afigurava-se ter havido a ação de corpo estranho. Lembrei-me de que ela, certa vez, queixara-se de um inseto. Mas, naquele momento, não se notava sinal de picada. Talvez tivesse rolado na cama e batido em algo. Verifiquei, contudo, não haver gravidade, embora com aquela senhora eu devesse ser muito cuidadoso, pois eu já conseguira fazer-lhe regredir um processo de glaucoma, com alguma dificuldade. A faixa etária e as manifestações hipertensivas da paciente exigiam-me cautela. Uma solução a base de cloreto de benzalcônio e ácido bórico talvez pudesse ser o suficiente. Relutei um pouco, mas acabei preenchendo a receita: Dinill, o nome do colírio que deveria aliviar aquela irritação. E recomendei compressas de água fria. Entretanto, antes que eu lhe estendesse a receita, a tal senhora, olhando para o vazio, começou a falar:
Ele não presta, doutor. Imagine que ainda ontem chegou em casa bêbado e, com perdão da palavra, urinou na porta da sala! É uma sem-vergonhice. O meu é que era bom, um verdadeiro homem, de respeito. Esse? Eu bem que falei para ela, doutor: “Não case que esse moço não gosta de trabalhar.” Porque eu, com os meus 70 anos, aprendi a ver de longe quem tem caráter e é trabalhador e quem não é. O senhor, por exemplo, Doutor Marcílio, desde que eu vim aqui pela primeira vez, pensei: “Esse é um moço de bem.” Por isso continuo sua cliente.
Dona Gina... – eu tentei despertá-la, estendendo-lhe a receita.
Porém, ela prosseguia:
Agora, esse tal da minha filha, doutor, é um vagabundo, sem-vergonha. Sabe (Deus que me perdoe!), eu queria que um raio partisse ele ao meio. O senhor imagina, doutor, que um dia eu disse umas boas verdades na cara dele e o safado teve a pachorra de... Não leve a mal o que vou lhe dizer, que eu até tenho vergonha... O disgramado tirou a coisa dele pra fora e sacudiu dizendo que o que eu queria estava mole. Imagine o senhor, doutor, que pouca vergonha, que falta de respeito com a sogra!
Dona Gina...   – eu continuava tentando interrompê-la, mas percebia que ela me olhava, porém não me via, absorta estava nas imagens que lhe iam pela mente e nas palavras que lhe afluíam na composição daquela história.
E não foi a primeira vez que ele me fez desfeita desse tipo. É um cafajeste, mentiroso. Porque, quando tem gente perto, ele me trata com toda a falsidade. Na frente da minha filha, então, só falta me pegar no colo. Quando ela vira as costas, ele se transforma num bicho. Até beliscão já me deu. E no Natal passado, depois que ele bebeu até cair e estava pondo os bofes pra fora, eu – com pena, né? – fui ajudar e levei um sal de fruta no quarto dele. Ai, doutor, nem conto pro senhor! Um descaramento. Quando eu abri a porta, ele estava com a cabeça pra fora da cama, de bruços, parecendo que ia vomitar mais e logo ia escorregar e se esborrachar no chão. Aí eu cheguei perto e tentei levantar ele pelo ombro. O senhor nem sabe o que aquele vândalo me fez. Ah, eu fico até enojada de lembrar. Nem tenho coragem de contar. Fazer o que ele me fez... Francamente, doutor, eu não conheço um canalha pior. Imagine o senhor, eu agachada, tentando ajudar aquele porco e ele... Desculpe de eu falar, doutor... Aquele... me passou a mão na bunda, doutor! O senhor acha que isso é coisa que se faça com uma senhora da minha idade e mãe da esposa dele? Fez essa safadeza e ainda riu. Ah, doutor, eu saí, fui até a área de serviço, peguei a vassoura e voltei. Quando cheguei ao quarto, cadê? Eu fiquei tão assustada que fui até olhar pela janela. De repente tinha dado uma loucura nele e saltado, não é? Imagine!... Minha filha mora no décimo terceiro andar. Já pensou?
Trovejou forte e eu me preocupei com o retorno da dona Gina para casa. Além da chuva, anoitecia. A filha – uma bela mulata de porte senhorial – raras vezes a acompanhava até meu consultório. Eu precisava falar sobre minha preocupação, mas ante aquele turbilhão de palavras, nem eu nem a trovoada obtínhamos sucesso. A cliente que eu, na verdade, conhecia pouco era uma das mais antigas, daquelas que praticamente haviam inaugurado aquela sala de trabalho. Ela se tornara assídua, sobretudo após a cirurgia da catarata. Com aquela facectomia, eu havia conseguido meu primeiro sucesso na profissão. Era, portanto, uma paciente especial, que sempre se mostrara uma mulher reservada. Ela e a filha. Nas três últimas consultas é que desandara a falar de si, a princípio reticente, mas naquele começo de noite era uma matraca sem descanso. E foi assim que tive uma impressão ligeira de que havia um outro ser habitando dona Gina Goltz da Silva. Não que eu fosse umbandista, espírita ou de qualquer outra seita ou religião similar. É que a energia que movia aquela fala parecia demasiada para aquela senhora. A voz era límpida e os gestos agitados.
Naquele detalhe sobre a ação do genro bêbado, a minha vontade foi de rir, mais pela careta que ela fizera, ao me apresentar a questão, do que pelo fato em si. Ora, alguém passar a mão em um traseiro que já fora surrupiado de seus encantos pelo tempo não me parecia motivo de riso. Entretanto, a expressão do rosto de dona Gina era a de uma carranca com maquiagem de palhaço louco para soltar uma gargalhada. Aquela sua indignação tinha um quê de inautenticidade, de simulacro.
Fora um lapso relâmpago, contudo, a minha observação e esforço para segurar o riso. Ela sequer deu tempo para eu me recompor. Estava como que possuída por um ente falador.
Eu olhei pra tudo que era lado e não vi ele. Mais tarde, doutor, é que atinei. Aquele malandro tinha se escondido debaixo da cama, porque sabia que eu tenho dificuldade de abaixar e não podia socar ele. Agora, a minha filha é que me magoou. Sabe o que ela me disse quando eu contei? Disse que eu estava esclerosando ou, então, que eu tinha gostado. Veja, doutor, a gente só por que chega numa certa idade, ninguém mais acredita no que a gente fala. Se sente dor, dizem que é fingimento; se conta a verdade, falam que é mentira. É difícil ser velho, viu, doutor. Por isso, naquele momento, eu fiquei com tanta raiva da Jucélia que me deu vontade de dar nela de vassoura, dar as cacetadas que eu não tinha conseguido dar no malandro dela. Os filhos de hoje em dia não têm mais nenhum respeito pelos que puseram eles no mundo. O senhor viu, não viu, doutor, aquele caso da mocinha que mandou o namorado matar os pais?
Balancei a cabeça que sim, já que ela me olhara pela primeira vez depois que começara a contar a sua história. O caso, realmente, estarrecera o noticiário, sobretudo porque se tratava de gente rica de um bairro grã-fino da cidade: o Morumbi. Mas, com aquela referência ao crime, a atenção desviada para a minha pessoa fora rápida. Logo ela mergulhou no seu filme particular para traduzi-lo em palavras que borbulhavam.
Pois é, agora ninguém mais respeita os pais. E a minha filha é muito sem educação, sabe, doutor? Eu tenho medo. Já não posso mais com ela. A gente, quando não pode com quem maltrata a gente, é melhor ficar calado até quando agüentar. E eu fui agüentando o meu genro...
Ela fez uma pausa e mergulhou em um silêncio profundo. Depois prosseguiu:
Até que chegou um dia, doutor, que não deu mais. Aí eu fiz uma loucura, sabe.
Naquele momento fomos interrompidos. Ana, a minha auxiliar despedia-se. Sorriu:
Até logo, dona Gina! – ao que a velha senhora respondeu de forma soturna.
Para mim, Ana deu um seco “Bom noite, doutor!” Ainda tentei aconselhá-la a esperar a chuva passar um pouco, mas ela retrucou:
Eu tenho que andar ainda até a avenida para tomar o metrô. Senão são duas conduções e eu não ganho pra isso – disse, em tom rude, e virou-me as costas sacudindo suas tranças rastafári.
Senti a alfinetada. Era a velha reivindicação de aumento salarial. Levantei-me, respondi:
Boa noite! – e dirigi-me à cliente: Dona Gina, aguarde-me um instante, por favor.
Fui até o banheiro, pois estava com a bexiga cheia, tal o volume de trabalho naquele dia, que me obrigara a não sair da sala de atendimento por longas horas. Ouvi a forte batida da porta da rua. Estava começando a aliviar-me, curtindo o som do jato no fundo do vaso, quando senti algo estranho em torno. Desviei o olhar devagar, pois não queria perder aquele prazer. Uma linda borboleta azul estava pousada sobre a quina do armarinho que encimava a pia. Sua posição permitia seu reflexo no espelho, dando-me a ilusão de que ela possuía três asas. Era das grandes. Voltei a atenção ao meu prazer natural. Aquela imagem tão bela se associou ao meu alívio. Ao terminar, movimentei-me lentamente para não afugentá-la. Afinal, lá fora a chuva aumentava. Lavei as mãos sem muito ruído, enxuguei com calma e desliguei a luz. Ela se manteve inerte. Parecia, entretanto, que me observava. No corredor, imaginei que dona Gina já devia estar pronta para partir, pois, ao sair da sala, eu estendera em sua direção a receita. Mas não. Ela continuava mirando o vazio. Depois, com certa irritação na voz, continuou:
E o pior o senhor não sabe: meu genro é a cara do meu marido. Parece castigo. Um cretino daquele se parecer com o meu Samuel. Aquilo é que era homem, companheiro, fino, leal e trabalhador. E se foi tão cedo, doutor...  (a voz estava embargada) Tão cedo. Não tinha nem 60. Era um amor de homem...
Os olhos de dona Gina reluziam. A cena emocionou-me. Já não havia o grotesco de antes. Era um rosto triste. Uma lágrima escorreu e fez um minúsculo riacho em uma de suas profundas rugas. Acostumado a analisar os olhos, naquele momento chamou-me a atenção o olhar. Inundados como estavam os olhos mostravam uma luz diferente. Concluí que eu lidara com uma fonte de mistério durante anos e só então me dera conta disso. Eu, que apenas considerava retina, córnea, íris, traumatismos, lacerações, descolamentos, nervo ótico, humores, lentes e mais lentes, estava ali diante de um olhar sem saber o que dizer. Não se tratava de uns olhos anestesiados por proparacaína para meu exame, mas de uns olhos cheios de lágrimas que diziam muito de minha própria vida tão esquecida em sua sensibilidade pelo meu excesso de trabalho, minha ambição desmedida. A contemplação a que eu me deixara levar foi interrompida bruscamente por um raio. Veio o estrondo seguido pela interrupção completa da energia elétrica. Estávamos em meio à escuridão. Preocupado, eu disse:
Dona Gina, a senhora está bem?
Foi só uma trovoada, doutor. Não é nada comparado ao que eu fiz com o meu genro. E ela continuou em meio às trevas: Fiz o que fiz porque ele xingou o Samuel. Ele sabia que a memória do meu marido é o que eu tenho de mais caro na vida. Essa raiva que meu genro tinha de mim era porque em uma noite eu me confundi.
Nesse ponto achei estranho que ela tivesse dito “tinha”, referindo-se a alguém tão presente em suas adversidades. Meu estranhamento não era desprovido de sentido.
Confundi – ela prosseguiu – porque eu não andava bem. Sonhava todos os dias com o Samuel. Em um dos sonhos, lembro bem, ele pedia para que eu não deixasse os dois venderem a casa. Mas não adiantava. Eles já tinham vendido e comprado o apartamento. Ah, doutor, apartamento é tão ruim! Lá, nem o meu Tequila podia andar no pátio, doutor. Era um cachorrinho tão bonzinho. Acho que ele estranhou tanto que acabou morrendo. Mas eu estava falando dos sonhos... Então, aqueles sonhos me perturbaram muito. Numa noite, a Jucélia tinha viajado para um retiro da religião dela. Aquela praga do Jesuíno não gostava de igreja. Ficou em casa. Assistia ao jogo do Palmeiras, gritando várias vezes sozinho. Quando acabou a partida, ficou vendo filme, até dormir. Depois acordou, desligou a tevê e foi dormir. Eu ali, acordada, com meus pensamentos, com medo de dormir e sonhar com o Samuel de novo me pedindo para não vender a casa que já tinham vendido. Mas veio o sono, doutor, e eu sonhei...
Aquela pausa estava aflitiva. Eu, sem vê-la, agitei-me, tentando adivinhar a sua expressão. Minha preocupação era o olhar. O que estaria transmitindo?
Dona Gina! – chamei.
Estou bem, doutor. Vaso ruim não quebra fácil. É que, quando eu me lembro, fico pensando que podia ter sido verdade. Imagine o senhor que o Samuel no sonho estava tão lindo, todo de branco como quando a gente ia para o Centro da Mãe Cinira, a barba feita, aquela pele macia e brilhante... Meu Deus! Eu fui seguindo o Samuel, doutor, até que ele se deitou na rede que ficava no nosso antigo quintal. E me sorriu. Doutor, ele tinha uns lábios tão bonitos... Mas foi horrível. Quando eu beijei ele, escutei: “Sai daqui, velha nojenta!” Eu tinha beijado o meu genro, doutor! Eu não sei como pude caminhar dormindo até o quarto dele se eu tinha dormido no meu. E ele se levantou, me empurrou pra fora e bateu a porta. Não sei como eu agüentei aquilo. Eu estava com tanta vergonha que queria sumir, desaparecer para sempre. E, ainda, ele me chamou de velha tarada, doutor. Eu só sei que fui acordar em uma cama de hospital. Fiquei uma semana em observação. Foi por isso, foi por isso mesmo que ele passou a me perseguir. Ainda bem que não disse nada para a minha filha. Ela não sabe. Até hoje. Mas, em compensação, eu tive de comer o pão que o diabo amassou na mão do meu genro. Mas chegou um dia que eu não agüentei. Ele veio com aquela mania de fazer todo mundo de palhaço, justamente na hora do almoço. Falou: “Eh, vovó (e eu nem sequer tenho neto), e aquele dinheiro da aposentadoria? Vai emprestar pro genro querido?” Eu respondi, na lata: “Não sustento vagabundo que não pára em nenhum emprego”. Aí ele gritou: “Qualquer dia eu desenterro o macaco do teu marido pra você dar uns beijinhos nele”. A Jucélia, que estava na cozinha, ouviu. Veio uma fera e deu uma bronca nele. Acho que mais por parte do apego dela pelo pai do que por mim. Mas eu fiquei calada, dizendo comigo: “Hoje você me paga!” E fui pro meu quarto. Era sexta-feira, o único dia, fora o sábado e domingo, que os dois almoçavam em casa. Depois ela voltava para trabalhar. Ele, que na época era vendedor de bugiganga, nem sempre ia. A discussão deles acabou e a Jucélia pegou as coisas dela e saiu. Eu fiquei me remoendo sem almoçar, de tanto ódio. Ouvi quando ele ligou a televisão. Pensei comigo: “Esse vagabundo vai dormir”. Dito e feito. Passou um tempo e eu fui de pé leve até a sala. Ele dormia mesmo. Andei até a cozinha e peguei o martelo de amassar carne. Voltei e extravasei toda a minha raiva. Fiquei cega, doutor. Só lembro do sangue. Deixei o danado caído lá e saí.
Antes que ela pronunciasse qualquer outra palavra, eu saltei da minha condição de ouvinte e a interpelei:
Dona Gina, quando foi isso?
Hoje – ela me respondeu. E acrescentou: Daí eu vim até aqui. Como o senhor viu, eu me machuquei um pouco.
Senti medo. Eu conversava no escuro com uma velha assassina. Fria. Os criminosos odeiam testemunhas. E, naquele momento, eu passara a ser uma delas. O que havia ela arquitetado para mim? Eu seria a próxima vítima?
Meu celular tocou. Tateei no escuro até encontrar o aparelho. Agi com a atenção redobrada para qualquer movimento que dona Gina fizesse. Nada. Estava imóvel. Veio-me à mente a expressão “pé leve”, que ela usara. Estaria ela se deslocando sem que eu percebesse? Senti um calafrio quando apanhei o aparelho no bolso de meu paletó que estava pendurado em um cabide atrás da porta.
Alô!
Era a filha dela.

...

Na manhã seguinte, saí de terno escuro e fui ao velório. Na noite anterior, vítima de uma encefalopatia hipertensiva, dona Gina falecera. Eu fora avisado no início da madrugada. Sentira-me culpado, a princípio. Mas tivera, até que o sol nascesse, um bom tempo para me desvencilhar do peso. Concluíra que naquele acidente vascular cerebral definitivamente eu não estivera aliado à hipertensão, não tivera nenhuma participação. Também a filha, desde que falara comigo ao telefone, fora muito cuidadosa, pedindo-me para tranqüilizá-la, para dizer-lhe que tudo estava bem. Mesmo ela, dona Gina, pareceu-me segura, percebendo de quem se tratava. Disse-me, com estranha tranqüilidade, assim que a energia elétrica voltou, enquanto eu atendia à ligação:
Pode falar pra ela que eu não vou fugir, doutor. Eu me entrego.
E, ao sair, logo que a filha chegou, olhou-me com ternura, despedindo-se com essas palavras:
Obrigada, doutor Marcílio. Desculpe eu ter falado muito. É que o senhor me passou confiança. O senhor se parece tanto com o meu Samuel.
No velório, notei que ela se enganara. Se o genro era parecido, eu era muito diferente. Ou então, nem ele, o que mais chorava e demonstrava desconsolo. Olhando aquele homem, com uma faixa na cabeça, fiquei refletindo sobre a ilusão que levara dona Gina a procurar em outros homens negros a figura de seu marido. Assim como o epitélio pigmentado – as células ricas em melanina que compõem a retina, no fundo do olho humano –  serve para absorver a luz, impedindo que ela se disperse e seja distorcido o campo visual, assim também eu e aquele homem, indiretamente, mantivéramos, para dona Gina, a imagem viva de Samuel, sua realidade virtual. E, quem sabe, em seus momentos de lucidez, não a tenhamos decepcionado. Ela também não fugia do lugar-comum de os brancos acharem que os negros são iguais.
Não fiquei para o enterro. Além do horário que me impediria de trabalhar, ver sepultamento era algo que, desde menino, eu não suportava.
Ao despedir-me, eu sentia um grande alívio. Certamente contribuíra para isso o aspecto facial daquela senhora no caixão. Era de uma sobriedade completa. Nos lábios pouco expressivos um sorriso se insinuava.
Saí pensando na brevidade da vida. Pensava que não devia adiar as coisas. Devia reformar meu consultório, comprar um sistema de angiografia digital, trocar meu antigo oftalmoscópio, adquirir um retinógrafo novo, dar o aumento que Ana, a minha auxiliar, precisava... Estava assim, envolto pela fantasia de mudar o curso de minha vida, quando percebi que uma borboleta azul ia a minha frente, ora pousando aqui, ora ali. Quando eu chegava a meu carro, vi que uma outra, da mesma cor, estava pousada sobre o capô. Parei. As duas passaram a voar junto e se foram em meio às árvores. Ao perdê-las de vista, notei que a paisagem estava turva, depois de muitos anos. Lágrimas escorriam-me pelo rosto.

 

 


BONECA



Nenhuma! Cansou de tanto andar. Perguntara muito. Ouvira respostas de todo tipo. Algumas vezes, reagira à escassa delicadeza de certos balconistas e mesmo às ironias finas. Em outros momentos fora levado à autocomiseração, depois de ouvir, por exemplo:
Sinto muito!...
Ou:
Queira nos desculpar... A fábrica não fornece, sabe...
Desanimar? Não. Não havia por que desistir de encontrar o presente de Natal para a filha. Com os seus 33 anos, estava em plena forma física. Além disso, era como se a pequena o conduzisse pelas ruas do centro comercial. Continuar a procura, mesmo pisoteando o cansaço, era uma missão.
Com entusiasmo, entrou na loja seguinte. Cheia! Aguardou pacientemente. Uma mocinha branca, de ar meigo e aspecto subnutrido, indagou:
O senhor já foi atendido?
Não. Por gentileza, eu estou procurando uma boneca...
Temos várias. Olha aqui a Barbie, a Xuxinha... – e a loirinha foi apanhando diversas bonecas. Colocava-as sobre o balcão, como se escolhesse para si. Olha que gracinha esta aqui de olhos azuis! É novidade. Chegou ontem e já vendeu quase tudo. Chora, tem chupeta, faz pipi... E essa outra aqui? Não é uma graça? – e levou ao colo a ruivinha de tom amarelado, bem clarinha. Mexeu-lhe os bracinhos e as perninhas e indagou: Não gostou de nenhuma?
É que estou procurando uma boneca negra...

...

Meia hora de espera.
Tem sim! – o dono da loja dirigiu-se à empregada. Procura melhor, na prateleira de baixo, lá em cima mesmo, perto da pia.
A moça subiu de novo a escada, depois de sorrir um submisso constrangimento.
Desceu mais uma vez, recebeu novas instruções e tornou a sorrir. Em seguida, do alto do mezanino, mostrou o rostinho gorducho, marrom-escuro, de uma boneca. Radiante, a balconista empunhava-a como um troféu. Assim desceu a escada. Mas, descuidando-se nos degraus, despencou-se. Todos se apavoraram. As colegas de trabalho foram em socorro.
Nenhuma fratura. Apenas um susto. O patrão exasperou-se, mas logo conseguiu se controlar, vermelho como pimenta-malagueta. A loja estava cheia. Foi atender o cliente:
Peço desculpa pela demora e pelo transtorno. Espero que o senhor não tenha se chateado. O importante é que encontramos o produto. Está em falta, sabe... Eles não entregam. Eu mesmo encomendei a semana passada. Mas o representante disse que a firma está exportando para a África. Está certo, mas aqui também tem freguês que procura, não é? O senhor é brasileiro?
Sim.
Então... – o homem engoliu a frase e preparou a nota.

...

Já na rua, o pai, entre tantos pensamentos, alguns desagradáveis, lembrou-se da descontração a que fazia jus, depois de suar expectativas naquela manhã de dezembro. Respirou fundo. Contemplou o lindo embrulho de motivações natalinas, em que se destacavam o Papai Noel, crianças louras e muita neve. Seguiu, passos lentos, em direção a uma lanchonete.
Vai uma loura gelada aí, chefe? – pronunciou o balconista ao vê-lo sentar-se junto do balcão.
Sorriu, confirmando com um gesto de polegar.
Ao primeiro gole de cerveja, sentiu-se profundamente aliviado e feliz.

INCIDENTE NA RAIZ

Jussara pensa que é branca. Nunca lhe disseram o contrário. Nem o cartório.
No cabelo crespo deu um jeito. Produto químico e fim! Ficou esvoaçante e submetido diariamente a uma drástica auditoria no couro cabeludo para evitar que as raízes pusessem as manguinhas de fora. Qualquer indício, munia-se de pasta alisante, ferro e outros que tais e...
O nariz, já não havia nenhuma esperança de eficácia no método de prendê-lo com pregador de roupa durante horas por dia. A prática materna não dera certo em sua infância. Pelo contrário, tinha-lhe provocado algumas contusões de vasos sanguíneos. Agora, já moça, suas narinas voavam mais livremente ao impulso da respiração. Detestava tirar fotografias frontais. Preferia de perfil, uma forma paliativa, enquanto sonhava e fazia economias para realizar operação plástica.
E os lábios? Na tentativa de esconder-lhes a carnosidade, adquirira um cacoete – já apontado por amigos e namorados (sempre brancos) – de mantê-los dentro da boca.
Sobre a pele, naturalmente bronzeada, muito creme e pó para clarear.
Lá um dia, veio alguém com a notícia de “alisamento permanente”. Era passar o produto nos cabelos uma só vez e pronto, livrava-se de ficar de olho nas raízes. Um gringo qualquer inventara a tal fórmula. Cobrava caro, mas garantia o serviço. Segundo diziam, a substância alisava a nascente dos pêlos. Jussara deixou-se influenciar. Fez um sacrifício nas economias, protelou o sonho da plástica e submeteu-se.
Com as queimaduras químicas na cabeça, foi internada às pressas, depois de alguns espasmos e desmaios.
Na manhã seguinte, ao abrir com dificuldade os olhos, no leito de hospital, um enfermeiro crioulo perguntou-lhe:
Tá melhor, nêga?
Ela desmaiou de novo.

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