Texto da orelha do livro Kizomba de vento e nuvem

Tem crescido no Brasil a publicação de livros cujo estofo é a subjetividade da população negra, o seu ponto de vista, a sua visão de mundo, naquilo que a especifica pelas formas culturais de matrizes africanas aqui desenvolvidas e pela experiência acumulada de enfrentamento do racismo cruel e hipocritamente silencioso.  A literatura vem tendo um expressivo papel no conjunto de tais publicações. Desde o ano de 1978, a edição da série Cadernos Negros – que, anualmente, traz alternadamente novos poemas e contos – e publicações individuais ensejaram o surgimento de uma relevante crítica que passou a dar atenção a este importante aspecto da escrita nacional. Essa crítica tem possibilitado que mais pessoas possam se beneficiar, a partir dos bancos escolares, dos aportes dessa literatura que busca revelar a complexidade das relações cotidianas e históricas dos diversos segmentos humanos formadores do país. A reprodução de estereótipos, o processo de apagamento da personagem negra e de negar-lhe protagonismo, o bloqueio editorial e outras formas de exclusão vêm sendo superadas pelo ativismo de autora(e)s negra(o)s e de inúmeros professores empenhados na pesquisa, nos cursos de formação e na realização de eventos.  Além disso, há persistentes iniciativas editoriais com visão de futuro.
Nesse cenário,  poemas, contos e o teatro de Cuti contribuem significativamente. Este Kizomba de vento e nuvem marca mais um ponto para o conjunto de obras que não tergiversam ou silenciam sobre os variados e complexos tópicos relativos às relações raciais. Este livro também aborda outras tantas facetas da vida nacional, demonstrando a importância de a poesia ir além das questões de fundo amoroso, abarcando assuntos mais espinhosos e inusitados, pois em verso o mundo pode ser iluminado nas suas mais misteriosas cavernas. Este livro é um entrelace de sonoridades, ora harmônicas, ora dissonantes, e metáforas que redimensiona com acuidade nossa percepção dos sinuosos caminhos da consciência e das emoções.
O autor é formado em Letras pela USP e fez mestrado e doutorado, na mesma área, na Uni-camp, o que lhe trouxe condições favoráveis para se dedicar também ao ensaio. Seus quatro últimos trabalhos no gênero – A consciência do impacto nas obras de Cruz e Sousa e de Lima Barreto (2009), Literatura negro-brasileira (2010), Lima Barreto (2011) e Quem tem medo da palavra negro (2012) – discutem vários temas concernentes ao amplo significado da literatura enquanto produção humana envolvendo ideologias, políticas de mercado, preconceitos de toda ordem e concepções estéticas diversas.
Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, foi um dos fundadores do Quilombhoje-Literatura e um dos criadores e mantenedores dos Cadernos Negros, série na qual publicou poemas e contos em 34 dos 35 volumes lançados até 2012. Também conta com diversos textos em antologias.
Sua obra poética e ficcional se constitui dos seguintes títulos: Poemas da carapinha, 1978; Batuque de tocaia, 1982 (poemas); Suspensão, 1983 (teatro); Flash crioulo sobre o sangue e o sonho, 1987 (poemas); Quizila, 1987 (contos); A pelada peluda no Largo da Bola, 1988 (novela juvenil); Dois nós na noite e outras peças de teatro negro-brasileiro, 1991/2009; Negros em contos, 1996; Sanga, 2002 (poemas); Negroesia, 2007 (poemas); Contos crespos, 2008 (poemas); Poemaryprosa, 2009.

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