CUTI. Batuque de tocaia. São Paulo : Ed. do Autor, 1982 (poemas). 82p.
 
 
OFERENDA

Leva
a lava leve de meu vulcão
pra casa
e coloca na boca do teu
se dentro do peito
afogado estiver de mágoa
 
O fogo de outrora
do centro da terra
virá sem demora
 
Porque não há
por completo
vulcão extinto no peito



IMPRESSÃO

Parece que o brilho dos automóveis foi arrancado dos meus olhos
vazados num passado
Parece que nos rios poluídos corre o sangue de minhas veias
trituradas nas indústrias
Parece que as pilastras dos viadutos são meus ossos
descarnados a mil gemidos no pelourinho da História
Parece que o verde todo verde tem raízes negras que reclamam frutos
Parece que a bomba atômica foi enfiada nos meus pulmões
E que as chuvas das enchentes são as lágrimas
fugidas dos olhos revoltados
Parece que estenderam a minha pele em tiras
e fizeram as estradas e se cobriram as ruas
Parece que meus dentes é que encerram o verdadeiro sentido da paz.
E que meus nervos esticados e enterrados sob a terra
carregam a eletricidade das bobinas do meu coração...
Parece que às seis da tarde os sinos e as sirenes
           têm um pouco do meu grito
E que a noite traz uma rede de sonhos
Para pescar esperanças que me façam cafuné.
 
 
SOPRO NATURAL

eu sou a pupila preta das lagoas
o sono agitado dos rios
a gargalhada branca das cataratas
o fogo fátuo dos pântanos
o suor que desce em bica das montanhas
o vento nas gargantas
o silêncio trêmulo na boca dos vulcões
marcas de passadas antigas na areia da praia
o rosto abissal dos oceanos
o olho arregalado da noite
seguindo a ginga manca do mundo
sou a cara de dentro
o grito da fala que gemeu no fundo do quintal
a fogueira que se planta guerreira
no jardim da opressão
a mata que um dia mata o concreto
estrelas que estilingam interrogações ao longe
contra o império da razão...
 
sou um gigante bocejo dum grão rebelde de terra!
 
 
 
A PALAVRA NEGRO

A palavra negro
tem sua história e segredo
veias do São Francisco
prantos do Amazonas
e um mistério Atlântico
 
A palavra negro
tem grito de estrelas ao longe
sons sob as retinas
de tambores que embalam as meninas
dos olhos
 
A palavra negro
tem chaga tem chega!
tem ondas fortesuaves nas praias do apego
nas praias do aconchego
 
A palavra negro
que muitos não gostam
tem gosto de sol que nasce

A palavra negro
tem sua história e segredo
sagrado desejo dos doces vôos da vida
o trágico entrelaçado
e a mágica d'alegria
   
A palavra negro
tem sua história e segredo
e a cura do medo
do nosso país
 
A palavra negro
tem o sumo
tem o solo
a raiz.


AVE

Não sou urubuwww.fora
pra comer a carniça do Ocidente
e a podre culpa de brancos
 
Nem sou a pomba da paz
pra churrasquinho dos ditadores
 
Sou a ave da noite
Sou ávida noite
que bate asas de vento
e traz um canto agourento
ao sonho dos opressores
e traz um canto suave
a despertar outras aves
pro revoar da justiça.

Lançamento

Escritor