CUTI. Negros em contos. Belo Horizonte: Mazza Edições, 1996, 141p.

Audemaro Taranto Goulart - PUC Minas


PRECONCEITOS SOB CONTROLE

Negros em contos é um livro de contos de Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, paulista de Ourinhos, formado em Letras pela USP e mestrando em Teoria Literária na Unicamp.
A obra de Cuti já é bastante significativa, pois alcança todos os gêneros clássicos: na narrativa incluem-se os contos de Quizila (São Paulo: Quilombhoje, 1987), a novela juvenil A pelada peluda no Largo da Bola (São Paulo: Editora do Brasil, 1988) e o livro de memórias... E disse o velho militante José Correia Leite, (São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1992, em parceria com José Correia Leite).
Na lírica, o autor publicou Poemas da carapinha (São Paulo: Ed. do Autor; 1978), Batuque de tocaia (São Paulo: Ed. do Autor, 1982), Flash crioulo sobre o sangue e o sonho (Belo Horizonte: Mazza Edições, 1987).
Para o teatro, Cuti já produziu Suspensão (São Paulo: Ed. do Autor, 1983), Dois nós na noite e outras peças de teatro negro-brasileiro (São Paulo: Eboh, 1991) e Terramara (São Paulo: Ed. dos Autores, 1988, em parceria com Miriam Alves).
Além dessas edições, fez-se presente em mais de uma dezena de antologias, inclusive no exterior, com traduções de textos seus para o alemão e para o inglês.
Recentemente, Cuti lançou esse Negros em contos (Belo Horizonte: Mazza; Edições, 1996). São nada menos que 27 narrativas, em que o negro e a negritude fazem-se personagem, tema, motivo e busca. Diga-se que Cuti foi um dos fundadores e membro do grupo literário Quilombhoje e um dos criadores e mantenedores da série Cadernos Negros. Assim, o livro representa uma espécie de consolidação de definidas propostas do autor. Nesse sentido, ele é um projectum, na medida em que se caracteriza como um lançar-se à frente de si mesmo, tal é o movimento que o anima e que o faz obra singular, no que diz respeito à ideologia que perpassa suas páginas.
Essa aliás é a dimensão axial da obra. O sujeito, enquanto participante crítico de um processo social, cede lugar ao autor que, diante da transformação a que o imaginário o conduz, recoloca sua visão crítica em termos de uma concepção artística que, de certa forma, dilui o tom puramente panfletário em que escorregam os autores que costumeiramente tratam de temática como a de Negros em contos.
Nessa condição, Cuti reflete bem a concepção antropológica que Lévi-Strauss flagrou na estrutura social dos índios winnebago, do Canadá. Analisando a mitologia daquele povo, Lévi-Strauss percebeu que a preocupação com a morte, existente em inúmeros de seus mitos, colocava a singela situação de que para “que se possa superar a oposição entre a vida e a morte, é preciso reconhecê-la como tal; caso contrário, a ambigüidade que se deixou introduzir persistirá indefinidamente”. Tal singeleza encerra, na verdade, essa grande sabedoria que o discurso mítico transmite por via inconsciente.
Ao aproximar os contos de Cuti desse comentário da antropologia levistraussiana, quero justamente chamar a atenção para o fato de que a construção literária transita nesse caminho misterioso do mito. Assim, embora fazendo obra que quer marcar a questão da alteridade do negro, Cuti não enviesa pela crítica gratuita, quer dizer, não cai numa ideologia simplista. Ao contrário, seus textos procuram, sobretudo, reconhecer a oposição entre brancos e negros, existente na sociedade brasileira, por mais que se queira afirmar o contrário. Seria, pois, o reconhecimento dessa tensão que conduziria à superação desse conflito. Mascará-lo, fingir desconhecê-lo, “eufemizá-lo” são atitudes que só farão com que ele se instale insuperavelmente, é o que parece gritar o livro.
Por essa via passam todas as narrativas de Negros em contos. Destacaria, a título de exemplo, o conto “Boneca”, em que a marginalização do negro é apontada objetivamente mas também se insinua de maneira sutil, através de um interessante jogo de metáforas. Ao tentar comprar uma boneca negra para o Natal de sua filha, a personagem se dá conta da dificuldade que era encontrá-la. Afinal, o produto “esta em falta, sabe... Eles não entregam. Eu mesmo encomendei na semana passada. Mas o representante disse que a firma está ex-portando para a África”. No final da narrativa, depois do sacrifício que foi encontrar a tal boneca, a personagem senta-se junto ao balcão de uma lanchonete e, ironia suprema, lá vem a metáfora, na forma de uma gentil atenção do atendente: “Vai uma loira gelada aí, chefe?”
Melhor ainda, nesse particular, é o conto “O batizado”, em que o gerenciamento do conflito se dá numa perspectiva em que a serenidade do narrador não permite a imposição da radicalidade. Daí que, numa arenga entre as personagens, numa festa de batizado, apareça, num plano, a figura de Paulino, negro de posições extremadas, a dizer:

Ouviram todos vocês? Eu acabo de dizer; com este exemplo nas mãos, da quebra da nossa identidade negra Ouçam o nome de meu adorado sobrinho: Luizinho... Já não chega o sobrenome Oliveira? Luiz é' nome de qual ancestral? Refere-se a qual matriz cultural? E, minha gente, o nome é de origem francesa. Significa defensor do povo...

De outro lado, numa posição contrária, e pondo cobro às impertinências de Paulino, aparece a cunhada e mãe da criança, Joana, a negra que faz o contraplano às posições radicais de Paulino:

Cala essa boca! Se quiser pôr nome africano, põe no teu filho. Vai fazer filho primeiro. (...) Agora eu não vou deixar passar. Esse teu irmão tá pensando o quê? Tá pensando o quê; dirige-se a Paulino aos berros, hein, macaco de óculos?

Aí está, apontada, a tensão, sem que alguma das partes, no final do conto, possa receber qualquer rótulo. Na verdade, é a ficção de Cuti colaborando para que a ambigüidade possa ser enfrentada, naquela condição mítica a que se fez referência.
Essa disposição inteligente dos contos, em não investir numa radicalidade ideológica, encontra também uma outra explicação significativa, como a que se pode ver em Pierre Macherey e em Adorno. Tratando da condição ideológica da obra literária, ambos consideram que a obra de qualidade não pode reduzir-se ao sistema ideológico que contém, ao contrário dos textos que insistem na explicitação panfletária de suas idéias. Adorno, inclusive, é enfático ao defender o princípio de que a arte não pode ser redutível à ideologia, não podendo, por isso mesmo, ser teorizada como expressão de uma visão do mundo de uma classe particular. Nesse sentido, Adorno considera grande arte aquela que consegue pôr em evidência as contradições históricas. E isso, particularmente, é o que faz Cuti em seus contos.
Conhecedor do ofício a que se dedica, é possível ver-se em Cuti uma prática textual marcada por singularidades. Assim, a linguagem, sempre simples e objetiva, é uma garantia da perfeita interação que os textos têm com o leitor. Ainda assim, Cuti não se furta a trabalhar alguns efeitos, como a interpenetração dos discursos direto e indireto, fazendo com que, muitas vezes, o fluxo nervoso da participação das personagens no diálogo se transfira para a narração como um todo. Essa prática, aliás, é uma sutileza utilizada para fugir à explicitação ideológica. Através dela, Cuti consegue insinuar-se, enquanto autor, na sua relação com as personagens, advindo daí um novo tipo de relação, em que ambos – autor e personagens – dirigem-se ao leitor, também um sujeito, cooptando-o a uma identificação com suas posições. Na verdade, o que se tem aí é aquilo que Althusser chama de “função ideológica de reconhecimento”, processo que visa fazer do leitor um sujeito ideológico, o “portador aparentemente ‘livre’ da ideologia do texto”.
Essa sutileza é que permite a Cuti produzir alguns textos significativamente concisos e sugestivos, como os minicontos “Morro” e “Incura”, em que o jogo de significantes aproxima os textos do registro poético: “Era branca de doer. Mas, como amor não tem cor, desposou um negro retinto. A dor não passou. Desenlace, divórcio, casório de novo. Loiro de olhos azuis. A dor piorou”.
Aliás o trabalho que faz o deslizamento de significantes, em todo o livro, já está indiciado no próprio título da coletânea: O Negros em contos tanto pode ser lido como a presença de negros fritos personagens das narrativas quanto na perspectiva de que os textos apresentam negros em grande quantidade. Em qualquer dos casos, o que se tem é, de fato, o privilégio da raça negra enquanto motivo da produção literária.
Também a focalização do estranho, enquanto gênero que tipifica os princípios surrealistas, pode ser encontrado no livro. Dois contos, particularmente, trabalham essa distensão do imaginário: O “Célebre confidência” em que o sobrenatural se faz presente como forma de provocar espanto nas personagens e “Toque-te-me-toque”, em que o diálogo com um morto se dá de forma tão natural que o conto serve bem como exemplo do gênero fantástico.
De todos os textos, apenas dois me pareceram fugir ao equilíbrio e à contenção que enformam a produção de Cuti. Um deles é “Carreto”, em que o drama dos desamparados, marcado de forma incisiva na ação do garoto que é levado ao roubo como única alternativa para salvar o irmão doente, coloca-se como ingrediente artificial em busca da comiseração do leitor. O outro é “Preto no branco”, em que a qualidade da fluência da narrativa acaba comprometida com um “fabricado” elemento surpresa, colocado no final da trama. Na verdade, ao marcar a atitude racista que a família da moça branca tinha para com o namorado dela, o negro Betão, o texto não precisava cair num lugar-comum-construtivista como aquele do final, em que a única pessoa da família dos brancos, presente na cerimônia de casamento, era a avó da noiva, que Betão só conhecera num retrato antigo, e que “era real e lindamente negra”. Esse escorregão, tão impróprio na caracterização equilibrada da alteridade do negro, enquanto vítima da incompreensão e do preconceito, tal como observado nos demais contos, é de um artificialismo improcedente.
Numa resenha é impossível falar de todos os contos, ainda mais quando eles são tantos, como nesse livro de Cuti. Entretanto, um deles, o mais longo de todos, merece uma consideração especial, tal é a sua qualidade.
Trata-se de “Vitória da noite”, narrativa que encontra espaço para uma variação de procedimentos e estratégias narrativas. E tudo feito em limites justos e evidentes. A ironia, o humor; um incessante jogo de deslizamento de significantes, tudo colabora para que o conflito branco x negro flua de modo natural, sem exageros ou apelações.
O conto fala do lançamento do livro de poemas do poeta negro Ednardo Santos. É uma reunião de negros, feita num clube de negros, com convidados negros em sua quase totalidade. Lá aparece um branco, espécie de contrafração irônica que o narrador explora enquanto peça do conflito: é o doutor Mendes, sociólogo e professor universitário, figura que oscila entre o ridículo e o escárnio. Depois da festa – o narrador explora também esse lado festivo de um lançamento literário – o professor Mendes sugere a Maria Inês, uma negra quarentona e atraente, que o levava para casa, que passassem na casa dela. É para lá que também vai o poeta Ednardo, pela primeira vez, depois de terminado o lançamento. Lá chegando, Ednardo provoca grande constrangimento no professor Mendes. Este, antes de adormecer, bêbado, compusera uma cena imaginária de luxúria com Maria Inês. Esse confronto entre o entusiasmo do imaginário e a impotência da realidade, explorado de modo irônico pelo narrador, desconcerta o professor diante da figura do outro. Tem-se, aí, pois, um dos momentos de supremacia do negro sobre o branco. O professor, do alto de sua pretensa competência intelectual, cede a vez ao poeta. Este, por seu lado, também passa por desagradável humilhação, pois fora constrangido pelos diretores do clube, onde se fazia o lançamento de seu livro, a terminar a festa mais cedo. Afinal, haveria um baile a começar à meia-noite, sem dúvida muito mais importante que aquele sarau literário, que se deixava animar, inclusive, por um grupo de capoeira. Esses são, dentre inúmeros outros, alguns dos lances que roçam o humor e a ironia, articulados numa narrativa interessada em relativizar tudo, minimizando qualquer possibilidade de radicalização na projeção do conflito básico do texto.
É preciso notar, ainda, que o título do conto é o título do livro cujo lançamento se realizava. Na articulação metafórica desse espaço da narrativa, fica no ar a indagação: que vitória? Que noite? Enfim, venceu a noite, representada pelo baile que desalojou a, festa? Venceu a noite que o poeta Ednardo, afinal, quis dar-se, nos braços de Maria Inês? A noite de bebedeira venceu o intelectual pretensioso e impotente? Ou a vitória é da raça, metaforizada na noite? Na verdade, o plano da intelectualidade é inteiramente descentrado, seja o do professor ridículo, seja o do poeta vencido pelo baile. O que a narrativa, no fim, parece enfatizar é uma espécie de apelo que mobiliza as pessoas, na busca umas das outras. E, nesse caso, ela, a narrativa, está pouco interessada em dizer se esse apelo rola nos negros ou nos brancos. Ela, simplesmente, ri da improvável seriedade que poderia subsistir no paroxismo de um confronto social aberto, de um confronto explícito qual uma fratura exposta.

Lançamento

Escritor