Rosane de Almeida Pires


FRATURANDO O DISCURSO –
A LITERATURA ÉTNICA DE CUTI


Texto apresentado no lançamento de
Negros em Contos, de Cuti
Casa do Jornalista – 22 de novembro de 1996.


Belo Horizonte, 1996.


Sumo

“O negro pronto
Está se fazendo sempre
ponto por ponto

O negro pronto
se refaz sempre
ponto por ponto
na decifração das marcas
transpirando povo”

É do espaço de atuação da teoria da literatura que tento perceber as determinações étnicas na produção literária e, como negra, defini minha busca reflexiva sobre a produção textual que venho denominando afro-brasileira.
Venho pesquisando a produção literária do escritor afro-brasileiro com o objetivo de analisar o seu papel no processo de dominação cultural característico dos espaços colonizados e, a partir daí, investigar seu poder enquanto agente de conservação ou de transformação cultural. Pretendo, nesse sentido, avaliar de que forma as intervenções sociais e a preocupação com a construção de um percurso de identidade aparecem representadas nas obras de alguns escritores negros brasileiros.
Este texto que trago hoje propõe-se a analisar uma pequena parte da grande produção literária de Cuti, que compõe-se de contos, poemas, peças teatrais e, ainda, de reflexões sobre a literatura afro-brasileira.
Por toda sua obra podemos apontar, como recurso recorrente, o uso de uma heterogeneidade de linguagens – a ironia, a paródia, a paráfrase e a alusão – que são modalidades intertextuais que os escritores afro-brasileiros têm utilizado para desencadear um processo de desestabilização na proposta de formação de uma nação brasileira via literatura, nação essa que, embora com 45% de negros, tem sido apontada, insistentemente como sendo branca.
Os escritores afro-brasileiros e sua produção estão no que Silviano Santiago  define como o “entre-lugar”, aquele espaço existente entre a assimilação da cultura européia (lugar do colonizador) e a perda das raízes africanas (lugar do colonizado). Estar nesse “entre-lugar” é que permite o resgate da identidade cultural e o conhecimento dos elementos fundadores da cultura a que se pertence, possibilitando, nesse sentido, o intercâmbio, a relação com o outro em busca do equilíbrio, atentos ao que diz Octávio Paz  quando afirma que “o conhecimento da cultura do outro é um ideal contraditório, pois exige que mudemos sem mudar, que sejamos outros sem deixar de ser nós mesmos”.
A leitura que realizo das narrativas de Cuti vem no sentido de apontar que um dos elementos que caracterizam sua produção, é o constante ritual de transgressão que pratica, pois seus textos revertem valores estabelecidos e questionam a ordem simbólica imposta pela classe dominante, caracterizando-se como uma nova proposta de reconstrução do mundo através de uma representação simbólica outra, que apresenta um novo universo a partir da ótica dos excluídos.
Na tentativa de indicar como seu texto aponta para o que chamo de fratura do discurso proponho algumas reflexões sobre o signo negro que, no imaginário social da população brasileira, apresenta-se embebido de forte carga pejorativa. Nazareth Soares Fonseca no seu texto “Memória e Identidade” conta que

“... era uma vez uma categoria de seres humanos que a colonização genérica e pejorativamente batizou de negros. Assim considerados, os africanos, embora provenientes de etnias e povos de culturas as mais diversas foram transformados, na América, em combustível biológico que movimentou plantações e engenhos e fomentou o nascimento de uma lenda fantástica que justifica a essência inferior do homem de cor, condenado a viver por séculos (de)formado por esse ponto de vista.”

Nesse sentido, o signo negro tornou-se identificador de valores depreciativos, sendo o sujeito portador desse signo, um outro, não somente diferente, mas inferior e indesejável. É dessa visão que se justificaria, por extensão, o lugar apropriado para o negro na sociedade brasileira e em outras ex-colônias, espaço marginal desprovido de índices de cidadania.
Na tentativa de fugir desse estigma, o negro brasileiro se vê preso à rede eficaz da política de branqueamento que propõe, para o país, uma imagem do negro distorcida e fragmentada, cuja maior função é de seduzi-lo a negar sua ancestralidade.
Essa sedução é produzida por um discurso que se utiliza do mito da democracia racial e do projeto da ideologia do embranquecimento existente em nossa sociedade, que reforça no sujeito negro um ideal de ego, que segundo Jurandir Freire Costa,  “não é um modelo humano de existência psíquica concreta, histórica e conseqüentemente, realizável. O modelo de identificação normativo-estruturante com o qual o negro se defronta é o de um fetiche: o fetiche do branco, (e) da brancura”.
Os sujeitos negros, desejantes de embranquecimento, desejam em última instância, a própria extinção. É essa a violência que a prática do racismo engendra em nossa sociedade e em espaços colonizados, onde o discurso do colonizador consiste, indiscutivelmente, em negar o colonizado em sua totalidade.
As narrativas de Negros em Contos colocam em evidência a discussão sobre a elaboração da identidade étnica, como também, o da construção de um ser negro que seja sujeito de sua vida e, dessa maneira, ressemantizador do signo negro, devolvendo a esse signo sua dimensão histórica e política, relacionando-o a origem racial no sentido da valorizar atributos religiosos e culturais dos que representam a maioria da população brasileira.
Para a leitura dessa obra faz-se necessário atentarmos para o fato de que a construção da identidade étnica para nós, negras e negros brasileiros, passa, necessariamente, pelo resgate de nossa memória ancestral. Tal resgate encaminha a possibilidade de demarcar um lugar de reterritorialidade, um espaço de diferença e de vivência de nossa identidade.
Proponho, nesse sentido, uma análise dessas narrativas que identifique os signos negros ancorados em nossa ancestralidade africana, e onde possam os afirmar a existência de um sujeito de enunciação revelador do processo de conscientização de ser negro entre brancos e de pertencer a uma sociedade onde nossos valores são sempre tomados como inferiores e/ou folclóricos.
Os textos de Cuti indicam um espaço de reflexão acerca do lugar enunciativo. De onde fala o autor? Quais signos ancoram sua narrativa? Utilizando-se da memória, que percorre o tempo como movimento circular, o discurso sobre o passado parte do presente para buscar no passado elementos necessários para a reconstrução desse presente. Com essa técnica narrativa onde dialogam filhos e ancestrais, Cuti recupera um patrimônio comum de mitos, lendas, ritos e feitos de gerações anteriores e aponta para o aprendizado existente nessa troca, seus textos refletem uma faceta da literatura afro-brasileira, que busca reinventar a diversidade sócio-cultural brasileira na perspectiva do diverso e da relação.
Em sua obra, a autonomia da literatura afro-brasileira como produção de resistência, faz-nos perceber que, apesar da opressão e mesmo ocupando a margem, essa literatura existe, resiste e intervém, tornando-se coletiva. A voz dos marginalizados torna-se audível e assume um ato político que é também incômodo, pois, ao exteriorizar sentimentos causados pela prática do racismo e da discriminação racial, condena não somente tal atitude, mas toda a sociedade que a autoriza.
Os textos de Cuti apresentam, portanto, uma nova estratégia de abordagem para a discussão racial. Hoje, a literatura produzida por escritores negros quer ser o espaço onde o texto espelha a dor e a revolta, bem como, a auto-estima, a auto-afirmação e a grandeza da coletividade afro-brasileira.
Cuti, escritor afro-brasileiro e militante, propõe, ainda, em seus textos, a revisão do processo histórico que, no discurso da sociedade brasileira, configura o negro como excrescência. Sua narrativa recupera, assim, o caminho proposto pelo imaginário do povo negro, reterritorializando sentidos e ritualizando o sujeito.
Nos contos de Negros em Contos percebemos o entrecruzar de dois discursos, pois à literatura afro-brasileira contemporânea cabe fazer aflorar a história dos negros brasileiros, a qual só se manifesta, na literatura canonizada, sufocada e/ou distorcida pela visão dos romancistas e historiadores oficiais da nação e é através da elaboração da linguagem que o escritor afro-brasileiro faz a leitura de sua própria história e a de seu povo.
Sendo claro que cada universo criado – seja o da história, seja o da literatura – irá retratar a realidade a partir de suas normas, visto que cada um desses discursos tem uma “função” social específica na totalidade da sociedade, a opção pelo texto literário afro-brasileiro se justifica, pois esse torna-se discurso histórico na medida em que podemos apontar toda uma discussão em torno da organização da sociedade e as questões da vida cotidiana dos negros brasileiros.
O espaço das histórias de Cuti é, por excelência, o dia-a-dia daqueles que, como diz o ditado, matam um tigre por dia e as personagens que habitam seu texto são pessoas comuns que vivem, cotidianamente, tentando não sucumbir à violência e à opressão do racismo.
São os diálogos existentes no conto Batizado, por exemplo, que nos permitem dizer da beleza do tratamento literário que Cuti dá à fala cotidiana em seu texto:

Fala da irmã:
Paulino estragando a festa dando o seu espetáculo de sempre não foi viajar como prometeu lá com o grupinho dele e agora ai minha Nossa Senhora o prédio amanhã vai estar em polvorosa vão comentar o papelão da casa dos pretos porque é assim mesmo que chamam a gente são capazes de ligar pra polícia só pro escândalo aumentar já devem estar rindo pelas janelas (...)

Fala do pai:
O Paulino com a conversa de seu movimento não pode estragar a festa não vai me tirar do sério se conseguir será de uma vez por todas ainda sou o chefe da casa se não estiver bem com a família vai então morar com seu tal movimento fala fala fala em prol da raça e agora quer estragar tudo dar show para essa gente branca ver (...)

Fala de Paulino:
“E reparem na contradição: minha família, depois e negar suas raízes, com esse batizado, ainda tenta me impedir de falar. A alienação é dupla. Fosse um nome escolhido um nome africano (...) mas com nome africano cartório põe areia, não é mesmo?
E digo mais: enquanto nós negros continuarmos a ter padrinhos brancos (...) que zombam dos nossos verdadeiros valores, nunca vamos ter dignidade. A nossa religião não vai iniciar nenhuma criança.”

Nesse sentido, a apropriação que a obra de Cuti faz da oralidade é, no mínimo, revolucionária. Ela representa o resgate da dignidade, salienta seu espaço de resistência e antecipa, na escrita, o caminho da construção da identidade, pois põe em evidência sujeitos/personagens que sempre estiveram à margem dos discursos.
É dessa forma que a literatura afro-brasileira desempenha papel fundamental na construção da identidade étnica nacional e no resgate da dignidade do negro, pois, através da criação/reelaboração de uma linguagem literária que se apropria do falar cotidiano, é que o escritor possibilita ao povo negro contar a história a partir de seu ponto de vista, permitindo-lhe contar sua própria história, com seus conflitos e suas paixões.
A literatura afro-brasileira reinterpreta os conhecimentos, adaptando-os a uma tessitura nova, apropriando-se das histórias, narrando-as literariamente, levando em conta a presença do negro, não mais como mero figurante ou como aquelas nossas velhas imagens conhecidas e estereotipadas, como a do bondoso preto velho ou da cozinheira negra (quase da família) ou daquele homem negro tão forte quanto mil cavalos, ou, ainda, como aquela figura super sensual e sexual com a qual, constantemente, nós, as mulheres negras somos associadas. Aqui, no texto afro-brasileiro nós somos sujeitos, nós fazemos e somos a história.
As narrativas de Cuti repudiam a história colonialista resgatando uma tradição de resistência que remete à nossa ancestralidade. Sua produção rompe com a versão oficial preparada pela sociedade dominadora e propõe um fazer literário onde a presença da coletividade negra se mostra dinâmica e atuante.
E é nesse sentido que afirmo que os textos do livro Negros em Contos se configuram como rasuras no enunciado, pois provocam a inclusão do diferente instaurando a fratura no discurso.

“... porque a consciência
não é uma luzinha
que acende na mente
é um relâmpago da verdade
que não se apaga nunca.”

Lançamento

Escritor