CUTI. Vá procurar sua turma. Jornal Maioria Falante, Ano IV, nº 2, fevereiro e março, 1991, p.14

As razões para a desmobilização do Movimento Negro são muitas. Podemos, em qualquer área do saber, chegar a conclusões bastante profundas acerca da dificuldade de sobrevivência dos grupos e associações. TUDO, portanto, é sempre muito para se analisar. Quando nos detemos nas partes, estamos – de certa forma – analisando o todo. Peguemos, pois, o aspecto profissional dos militantes.

Para começo de conversa, é necessário conceituar um pouco esta palavra “militante”. Aos que detestam a farda, saibam, vem da mesma raiz: “militar”. Aliás, o verbo militar (nesse ou naquele partido ou movimento) mantém a mesma grafia do substantivo. O significado de “defender idéias de um grupo político” traz sua ligação direta com a guerra, preparo físico e, sobretudo, a severa disciplina.

Considerando estes dados de dicionário, podemos, à luz dos mesmos, olhar o caráter combativo do chamado “Militante do Movimento Negro”. O sentido amplo de Movimento Negro (associações, clubes, grupos, etc.) é a primeira dificuldade para tentarmos uma caracterização. Contudo, por nossa conta, vamos considerar “todo aquele que, propositadamente, luta contra a discriminação que se abate sobre brasileiros negros e estrangeiros”. O número, assim, já ficou reduzido. Todos os que atuam tão-somente na área das diversões (samba, funk, etc.) religião (candomblé, umbanda), bem como os artistas diletantes estariam fora.

A estes, agora melhor definidos como militantes, vamos perguntar sobre sua vida profissional: – Milita na área de sua formação profissional? – Realiza-se existencialmente na entidade em que atua? – Recebe algum provento na entidade em que milita?

Se analisarmos a realidade de perto, veremos que há muitos desencontros e situações nas quais a inadequação é flagrante. De nada adianta, por exemplo, uma pessoa sem braços tentar ensinar como se assenta tijolos, ou um cego tentar ministrar aula de tiro ao alvo.

Aqui, de novo, nos encontramos com as áreas do saber. A dualidade mantida por um grande número de militantes, pelo fato de estarem preparados profissionalmente numa direção e atuando em outra, ou terem afinidade para determinadas atividades distanciadas daquelas que desenvolvem no Movimento Negro, é uma situação de conflito e atraso na organização. Por outro lado, é necessário que a militância tenha um sentido verdadeiro de VIDA e não mero passatempo, ou crise de identidade até que... “um emprego desponte no horizonte ou uma paixão racial por branco realize o afastamento do indivíduo”. Uma das frases comuns dos que se afastam: “Fui cuidar da minha vida”, dizem ao toparem com os que continuam na luta. A frase ilustra bem essa NÃO-VIDA que, para muitos, torna-se a militância.

Quando se luta por idéias e concepções de sociedade, há a pressuposição de que o indivíduo está convicto, pois detém um saber refletido e analisado em profundidade. O despreparo do militante negro quanto ao saber específico é grande. As “palestras” desenvolvidas pelas associações e grupos tentam contribuir para o “escurecimento” de muitas questões embranquecidas, mas não substituem algo fundamental para o militante: o estudo. Movimento Negro hoje é um saber de características universais. O acesso a ele exige empenho do indivíduo e de seu grupo. O pré-conceito contra a leitura (tida por muitos como elitista – pois a maioria é analfabeta – e longe da tradição oral) é o fator de MAIOR IGNORÂNCIA em que se pode incorrer, pois, incorporando o “lugar do negro” que a ideologia dominante dissemina, esse mesmo pré-conceito bloqueia a formação teórica do militante. Com isso, o surgimento de novos quadros – mais preparados – para as entidades e grupos não ocorre.

Por outro lado, quando a chamada “vida pessoal” tende a ser uma “outra vida” sem ligação com a atividade militante, dá-se o conflito, o desânimo. O militante “brocha” ante outros atrativos.

Desta feita, é bastante produtiva a aproximação de profissionais negros de áreas afins para realizarem o trabalho de militância. Ainda que, em muitos casos, a profissão corresponda a um vazio de informação específica da questão racial (há muitos doutores tapados nesse aspecto), a vida pessoal traz uma capacitação ao Movimento Negro e nele encontra um sentido existencial novo. Os “especialistas em generalidades” já pediram água faz tempo.

A definição de militante, proposta anteriormente, deve ser ampliada, abrindo a era dos que fazem da militância a PRÓPRIA VIDA. Não será mais “pecado burguês” a militância conquistar em seu trabalho o dinheiro e o prazer. Por isso é fundamental que as pessoas busquem afinidades no Movimento Negro. E, aos que insistem em viver desviados de si mesmos, é preciso dizer: VÁ PROCURAR SUA TURMA!

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