CUTI. Pinga na veia. Jornal Como É, ano 1, n° 1, novembro/dezembro, Porto Alegre, 1995, p.8.

Segunda-feira é o dia de contar vantagem. Entre risos, como se fosse uma glória, muita gente faz o inventário do quanto consumiu de bebida alcoólica no final de semana. E, em certas situações, apesar dos incômodos da ressaca, chega-se à disputa. Quem provar que bebeu mais é o vencedor. "Bebi todas", argumentam uns, como se houvessem marcado um belo gol em partida de futebol. A dor de cabeça, as reclamações do fígado, os vômitos, o bafo, tudo isso é deixado de lado. Afinal de contas, ninguém que admitir ter tomado "cartão vermelho" de si mesmo.

Provar a resistência, além de ser um traço do machismo, é a revelação de carência. Faz parte da disputa. Assim, em certas rodas, quem bebe mais é mais homem (ou mulher). Portanto, destaca-se no grupo. Beber, e alardear a capacidade para tal, não é muito diferente do que pendurar uma melancia no pescoço.

Mas, o buraco é mais embaixo. Ninguém vai buscar o álcool só para levar vantagem nas discussões vazias. Relaxar as tensões do dia-dia é o objetivo maior. Parece tudo muito simples: você está tenso, pega uma garrafa, bebe, relaxa e pronto. Parece.

O passado tem suas lições. Não é de hoje essa mamação de manguassa, caninha, canjibrina, mé, quebra-gelo, goró, boa-ideia... Um pouquinho de visita no que foi nos ajuda a enxergar o que está acontecendo:  "No dia seguinte, o zum-zum da senzala era tal que o Simão foi procurar a Alvim, antes da hora habitual, e lamentou-se: já não conseguia ter mão na negrada./.../ O fazendeiro resolveu agir. Todas as manhãs, antes de partir para o eito, o Simão distribuía uma pinga aos escravos. Eles ficavam em fila, no pátio da senzala, e o feitor ia enchendo as canecas." Este pequeno trecho do romance A Marcha, de Afonso Schmidt, é revelador. Cabe uma pergunta: será que a ação de ingerir álcool, hoje em dia, é uma decisão tão livre como se pensa? Ou será que é o cumprimento de uma ordem?

Falar dos efeitos da bebida é algo chato, ninguém gosta de ouvir. Todos sabem. As consequências muita gente sofre na pele. E sempre haverá os defensores perpétuos da "branquinha" e da "loura gelada". Mas, o que pouco se reflete é este aspecto mais de fundo que as perguntas acima podem alertar. Ora, um sistema de exploração violenta da força de trabalho, que promove a angústia do querer consumir e não poder, que coloca as pessoas na corda bamba, na incerteza do amanhã, gera tensão e mais tensão, stress. Os ideais de justiça, distribuição de renda, fraternidade e outros,  se não forem incorporados por pessoas dispostas a lutar, caem no vazio. A situação continua como está e cada vez pior. Quando um indivíduo enche a cara e sente-se relaxado, "feliz", risonho, tudo não passa de uma ilusão. Não agiu por determinação própria. Apenas obedeceu uma ordem para dispersar sua energia represada pelas tensões. Não resolveu seus problemas pessoais, nem tampouco os coletivos.

 

Tensão é também energia, que pode ser também dirigida para uma finalidade útil.  Mas, as fábricas de bebida, os bares, os clubes e a imensa propaganda estão aí para dispersar esta energia. A ação do fazendeiro do romance citado sofisticou-se. Não se trata mais de um fazendeiro, mas de um sistema. As canecas, hoje são garrafas. A revolta na senzala é sempre dissolvida.

Os Movimentos Sociais fazem vista grossa a este assunto, inclusive o Movimento Negro. Pronunciar a palavra alcoolismo pode ser motivo para muita piada. Afinal, quantas reuniões e debates não são coroados no bar, em meio a cachaça, cerveja e outras "alegrias" líquidas? Além do que, o descaso transforma o tema em uma questão de assistência social e médica. O problema é individualizado. É visto apenas em seu aspecto crônico. Perde-se a dimensão política desta doença social.

Talvez, se driblarmos o tom moralista com que alguns encaram o assunto, possamos observa-lo melhor e perceber que quem bebe mais age menos em prol de uma ação construtiva. E que a bebida é uma droga que, como todas as outras, atua no sentido do controle social das camadas populares. Isso não quer dizer que só pobres bebam, mas que, neste caso, o efeito é previsto, e o instrumento de dopagem coletiva mantido, incentivado.

Com a "tonturinha" ou o porre alcoólico suporta-se mais a vida, dizem alguns. Contudo, a maior dificuldade de um bêbado é caminhar. Com as pernas e com o pensamento.

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