CUTI. “Chegou Tarde”. Jornal Cecune, ano II, n° 6 – abril/maio/junho, Porto Alegre, 1995, p.7.

CHEGOU TARDE

 

A vida nas grandes cidades tem, cada vez mais, exigido que as pessoas sejam pontuais. Entretanto, em determinados horários, há trânsito congestionado, grande número de pessoas nas ruas centrais, enfim diversos obstáculos entre o ponto de partida e o ponto de chegada de um indivíduo. As distâncias cresceram com o inchaço dos centros urbanos. Há dificuldades de todos os tipos.

Paralelo aos problemas de se chegar no horário, e como sua contrapartida, surgiram os métodos de pressão para que este desafio seja enfrentado com êxito diariamente. O livro-de-ponto (ainda existente em repartições públicas), o relógio-de-ponto e os crachás magnéticos são instrumentos utilizados na busca de maior produtividade. As reações  contrárias também vão se especializando. Uma assinatura falsa ou um pouco de areia tiram  de tais controladores a sua eficiência. O que está por detrás de toda esta luta é o conflito interno do ser humano: tempo cronometrado X  tempo qualitativo. Podemos situá-lo também como ação de medir e ação de realizar. O capitalismo trabalha com a noção de que um é a chave para o sucesso do outro. E leva às últimas conseqüências a assertiva "tempo é dinheiro". Vivemos a angústia coletiva dos prazos. Da conta que vai vencer amanhã até os compromissos com o amor, vive-se o sobressalto de se "perder a hora". O tempo, uma entidade abstrata, acabou ganhando espessura, tornando quase algo palpável. Não há quem, no seu dia-a-dia, não tenha a sua rusga com o relógio. Nesse contexto, os ricos vivem a assaltar o tempo dos pobres. Afinal, cada indivíduo tem apenas 24 horas por dia. O trabalho briga contra o prazer. Controlando o tempo alheio e o próprio, uns tentam garantir para si mais prazer. Só quando a atividade que se exerce torna-se agradável  é que se consegue dar a volta por cima.

Não possuindo os meios de pressão citados acima, por não tê-los incorporado, o Movimento Negro, em suas mais variadas manifestações e tentativas de se fortalecer, encontra forte resistência para organizar-se na sociedade atual.  Não bastassem as resistências externas, surgem as "intestinais". São poucas as nossas organizações que pagam salário e, portanto, tenham o direito de cobrar horário de seus empregados. Mesmo as que existem (algumas ligadas à administração pública: municípios e estados) vivem o problema de fazer a rapaziada cumprir os horários.

Nos encontros de entidades ou grupos do Movimento Negro, o atraso já se tornou quase crônico. E é fator de desentendimento e discórdia. Há indivíduos militantes que até justificam seus constantes descumprimentos de horários como uma característica do país ou herança cultural africana. Por esse prisma, toda pessoa que chega atrasada estaria mais perto de suas raízes. Em que se baseariam tais argumentos? O tempo seria diferente para negros e brancos?

Em um ensaio, Alexis Kagame faz uma ligeira comparação entre a noção de tempo euro-americana e africana: "Empregamos o tempo, no sentido de que o aproveitamos para realizar esta ou aquela ação. Perdemo-lo, quando afrouxamos o esforço e ficamos um momento em repouso. Nesse último caso, podemos recuperá-lo intensificando o esforço. /.../ Na cultura tradicional bantu, pelo contrário, o tempo é uma entidade incolor, indiferente, enquanto um fato concreto não sobrevém para marcá-lo, selá-lo. /.../ Entre os Bantu, o que importa é o tempo disso ou daquilo, o tempo propício para isso e aquilo. /.../ Terminado o evento que selava o tempo, os instantes vazios não apresentam mais ponto de referência, eles se desenrolam marcados pelas atividades inúmeras da vida diária." (Kagame, Alexis."A percepção empírica do tempo na concepção da história no pensamento Bantu" in As culturas e o tempo. Petrópolis : Vozes; São Paulo : Universidade de São Paulo, 1975. p.114-115)

Admitindo que dados da memória coletiva estejam persistindo em nós, é preciso reconhecer que o meio onde se situa nossa ação diária tem suas imposições e, mesmo que queiramos alterá-lo precisamos fazê-lo utilizando suas próprias armas. Os eventos que temos realizado não podem ser substituídos por vazios que lhe sucedam com uma carga paralisante das atividades e  da esperança. O planejamento temporal implica no conhecimento destes elementos culturais que, se por um lado nos fornecem uma visão-de-mundo talvez mais consolável perante à existência, nos confinam fora do poder em todos os níveis. Carnaval e miséria não deviam coexistir tão pacificamente como ocorre em nosso país.

A noção culturalista da questão racial no Brasil tem, quase sempre, servido para nos folclorizar. Quando se considera uma análise sobre a cultura bantu, por exemplo, e sua noção predominante sobre o tempo, é preciso lembrar que esta noção foi, e talvez ainda seja possível em algumas comunidades africanas, por se tratar de comunidades ligadas essencialmente à terra. Mas a invasão já houve. Os navios negreiros fizeram a travessia e o racismo continua prejudicando nossa vida aqui na América. Por outro lado, a necessidade de desenvolvimento desafia a África a superar o tradicionalismo imobilizante.  O evento significativo, de que nos fala o autor africano, precisa ser colocado aqui e agora. Aliás, na mesma visão bantu, o indivíduo só é possível na confluência do tempo e do espaço.

Nosso passado de Brasil, é um passado de desorganização de vários povos dos quais somos descendentes. Os resultados da ação histórica do homem branco estão até hoje bem visíveis. O atraso de certos militantes do Movimento Negro que, mesmo chegando após as discussões, são do contra e pretendem ter o direito de decidir, é identidade cultural com a desorganização histórica a que fomos e continuamos sendo submetidos. É atraso mesmo. Serve apenas aos senhores das casas-grandes de hoje e impedem a alegria da conquista do nosso espaço social. Não somos desorganizados. Fomos e continuamos sendo desorganizados pelo poder racista. Desorganização é, também, uma ação que seres humanos exercem sobre seres humanos. Por isso, nossos avós, não perdiam o trem. Horas antes estavam na estação. Já sabiam a necessidade de se ter eficiência na vida. Experiências como esta deviam ser levadas mais a sério, ao invés de ficarem sendo folclorizadas. Nossos guerreiros do passado quilombola certamente sabiam manipular o tempo. Por isso hoje podemos comemorar, como bem expressou o poeta gaúcho Ronaldo Augusto, os 300 anos da Imortalidade de Zumbi.

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