CUTI. Quilombhoje e Cadernos Negros. (texto não publicado)

No ano de 1978, no Centro de Cultura e Arte Negra - Cecan, situado no Bairro da Bela Vista, popularmente conhecido como Bixiga, em torno dos trabalhos de edição do Jornal Jornegro, aflorou a idéia, há muito tempo acalentada por militantes também poetas, de se produzir uma antologia literária de composições em versos. A formulação da proposta foi feita por Cuti (Luiz Silva) e Hugo Ferreira a demais autores, dentre os quais escritores já com obras publicadas, como Eduardo de Oliveira e Oswaldo de Camargo. A idéia contou com a aderência de 8 autores, além dos já citados, Jamu Minka, Ângela Galvão, Henrique Cunha Júnior (Cunha) e Célia Aparecida Pereira (Celinha), os quais, de forma cooperativa, arcaram com os custos do primeiro número da série Cadernos Negros, título sugerido por Hugo Ferreira, cujo sentido seria o de abrir o leque para as mais variadas experiências e tendências estéticas. A organização editorial, até o quinto número, ficou a cargo de Cuti (Luiz Silva), mas a ação cooperativa não se limitava ao pagamento dos custos de edição, mas também às várias etapas da feitura de um livro. Em novembro daquele mesmo ano, na realização do I Feconezu - Festival Comunitário Negro Zumbi, na cidade de Araraquara, SP, era feito o lançamento da brochura 10x14,5cm, com 52 páginas, impressa em tipografia.

No decorrer da elaboração do primeiro número surgiu o anseio de se publicarem, também, contos. Daí que, na última página da pequena brochura, vir anunciado “PRÓXIMO LANÇAMENTO  CADERNOS NEGROS 2 - CONTOS”.

“Todos os contos aqui reunidos formam um ensaio que pode ser o elo de uma união fraterna, com o nobre propósito de levar mais longe o enfeite literário, para se tornar na mensagem de uma nova esperança.”

Assim se expressou o velho militante da impresna negra, José Correia Leite, no prefácio do primeiro volume de contos. A visão de futuro e evolução está contida na frase, lastreada pela expressão que define a estruturação desse trabalho de mais de 20 anos: “união fraterna”, sem a qual o sentido cooperativo, em algo que não produz lucro, torna-se impossível. Até 1999, com a publicação anual ininterrupta, em tamanho padrão (14x21cm), alternando verso e prosa, com trabalhos de 11 artistas (fotógrafos, desenhistas e pintores) em suas capas, nos Cadernos Negros publicaram 90 autores, num total de 957 poemas e 201 contos. É algo significativo, como reflexo de uma população tradicionalmente iletrada, tanto pelo analfabetismo quanto pelo preconceito anti-leitura persistentes no Brasil.

No ano de 1980, Oswaldo de Camargo, Cuti (Luiz Silva), Paulo Colina, Abelardo Rodrigues e Mário Jorge Lescano, que, independente dos Cadernos, faziam reuniões informais para, semanalmente, discutir literatura, autodenominaram-se Quilombhoje, em um bar, coincidente e sintomaticamente conhecido como Mutamba (nome originário do quimbundo, que significa uma pequena árvore). A partir daí, o projeto do grupo evoluiu, criando o que se intitulou Roda de Poemas. Tratava-se de uma forma de declamação, animada com pequenas peças musicais - “pontos” - criadas pelo grupo e calcadas em ritmos da tradicão afro (como o jongo, samba-de-roda, ijexá), ao som de instrumentos de percussão. Preconizava-se a participação ativa do público. As Rodas, apesar da livre declamação, homenageavam figuras do mundo negro (Pixinguinha, Luís Gama, Agostinho Neto e outros). O Quilombhoje passou, também, a ampliar o número de pessoas nas discussões literárias.  Nessa época a composição do grupo já estava sendo alterada, com a saída de 4 dos fundadores, deles restando Cuti (Luiz Silva) associado aos que foram se integrando paulatinamente:  Sônia Fátima da Conceicão, Jamu Minka, Oubi Inaê Kibuko, Miriam Alves, Esmeralda Ribeiro, Márcio Barbosa, Vera Lúcia Alves e José Abílio Ferreira,

A partir de 1982, no quinto número da série, portanto, a edição dos Cadernos Negros deixa de ser atribuição de uma só pessoa, com eventuais colaborações, passando a constituir um trabalho efetivo do Quilombhoje. O entusiasmo coletivo levou o grupo a publicar 8 outros livros (um de cada membro, com uma exceção, e a coletânea de ensaios Reflexões sobre literatura afro-brasileira), além das brochuras Nomes afros e seus significados (1995) e Gostando mais de nós mesmos (1996), em co-edição com Amma Psique e Negritude. Em 1998, já então reduzido a três componentes, Esmeralda, Márcio e Sonia, o Quilombhoje publicou três livros: Cadernos Negros - os melhores poemas, Cadernos Negros - os melhores contos e Frente Negra Brasileira (depoimentos), de Márcio Barbosa. Os “melhores” dos Cadernos Negros, constituem coletâneas a partir de todos os números anteriores da série. No volume de poemas, 21 autores, e no de contos, 16. Neste último, é de se destacar o conto de Oswaldo de Camargo, intitulado “Civilização”, escrito na primeira pessoa de um rapaz que busca o seu lugar na cidade de São Paulo e se depara com o preconceito racial, por um lado, e cultural por outro:

“- ‘Negritude’...Você vai sair de ‘Negritudes’ e outras bobas atitudes. Vai morar comigo... Você se perdeu, rapaz, você está perdido nesse chão. Desse jeito você não chega a ser nada, ouviu? Nada!

- Mas eu sou negro e isso me diz respeito...

- Não reparei que você era negro... É, interessante, você é negro...

E ironia, como uma clava, me fendeu a resistência. E ele me levou pelo braço e alugou o quarto vazio de sua casa e de manhã perguntou: - Como é, gostou? E sua mulher, dona Aída, trouxe o café pra nós dois e se sentou também, mas isso como num sonho, porque tudo passou e hoje ando com outros passos.”

Além deste conto, “Pão da Inocência”, de Eustáquio José Rodrigues, é um dos grandes momentos do livro. Com uma linguagem sintética, o autor descreve, de forma intensa e progressiva, a vida miserável e o suicídio de uma criança:

“Ficou olhando os meninos da rua. Alguns passavam com a roupa arrumadinha. Sentiu que era domingo.

Antigamente iam à missa. Ele e o irmãozinho mais novo. Sabia como eram os santos da igreja. Mas não tinha nenhum parecido com ele. Eram todos brancos. Os anjinhos também. Mas diziam que todo mundo podia entrar no céu. Era só morrer que, se não tivesse pecado, ia pro céu.”

Nenhum conto do livro, entretanto, ou quiçá de toda a série, questiona o imaginário sexual brasileiro como “A Seiva da Vida”, de Éle Semog, história de um negro bastardo que, através do sexo, descobre-se um transmissor de juventude. Daí, o universo que se descortina galopa no sentido do fantástico, em diversas aventuras do “sêmen milagroso”.

“Pressionada, a rejuvenescida relatou a uma amiga o seu mistério. A notícia se espalhou. Boatos, mesquinharias, piadas burguesas sobre um negro que tinha a seiva da vida. Mas a curiosidade foi maior que o despeito. Organizaram uma festa na mansão dos Livia Alvarenga e exigiram de madame a presença de Jorge Ganga.(...)

No fim de um ano a polpuda conta bancária de Jorge Ganga tinha o peso que ele nunca sonhara.”

Os citados contos foram publicados, respectivamente, nos nos 4, 12 e 6 da série Cadernos Negros. A seleção limitada de 17 contos em um universo de, na época (1998), 186 textos, obrigou-se à exclusão de inúmeras histórias dignas do envolvimento intelectual e emotivo do leitor de qualquer tempo e lugar.

Dentre as realizações do Quilombhoje, é de se notar os lançamentos de livros, que se constituem em eventos culturais com declamação, dança, música e teatro, além da participação de diversos setores da cultura e militância negra. Quando deixou a informalidade, tornando-se uma entidade sem fins lucrativos, mais que justificadamente, o grupo passou a chamar-se Quilombhoje - Literatura, um adendo natural depois de mais de 20 anos de atividades. Nos Cadernos Negros, além  dos autores já citados, destacam-se escritores como Geni Guimarães, Carlos de Assumpção, Arnaldo Xavier, Oliveira Silveira, José Carlos Limeira, Paulo Colina, Abelardo Rodrigues, Jônatas Conceição da Silva, Roseli Nascimento, Conceição Evaristo, Ramatis Jacino, Lepê Correia, Landê Onawale e tantos outros.

Em 2000 está sendo preparado o no 23 da série, trazendo poemas de autores já publicados e, como sempre acontece, de novos talentos. A árvore continua a dar seus frutos.

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