CUTI. Sanga. Belo Horizonte : Mazza Edições, 2002. 96p. 


Poemas para ler e sentir

Maria Nazareth Fonseca*  


O livro de poemas Sanga, de Cuti, coloca-nos frente a frente com questões da realidade social brasileira, mesmo quando celebra o amor ou aborde, de forma mais contundente, as relações entre homem e mulher e a atração entre macho e fêmea. A questão social transparece nos poemas quando se denunciam as condições impostas pela sociedade para camuflar as distâncias que separam pobres e ricos e os preconceitos que continuam a estigmatizar a diferença configurada pela cor da pele, pelo tipo de cabelo, por detalhes do corpo, contabilizados como marca de uma “inferiorização constante”** .

Com fina ironia, o eu-lírico brinca com as disposições sociais que nos ensinam a tolerância e a passividade, observando que o risco de se aprender a “curvar a espinha” é acabar tendo de “comer os próprios pés”*** .

Outras vezes, fazendo da pele emblema de uma posição crítica diante dos fatos observados, esse eu se assume como sujeito de uma escrita que, atenta, registra o dia a dia vivido pela imensa população de excluídos, no Brasil. A cor da pele, que marca os mais excluídos entre excluídos, os negros e os mestiços, faz-se emblema da intenção participante de um sujeito que se nega a compactuar com o que vê:

minha bandeira minha pele

não me cabe hastear-me em dias de parada
após um século da hipócrita liberdade vigiada
minha bandeira minha pele

não vou enrolar-me, contudo
e num canto
acobertar-me de versos.

 

(Porto-me estandarte, p. 46) 

De modo bastante contundente, alguns poemas, como “Porto-me estandarte”, insistem no compromisso da poesia com dados concretos de uma realidade hostil que segrega e inferioriza, ainda que recursos de construção poética desestabilizem uma intenção meramente referencial.

Por vezes a palavra procura construir outros espaços em busca dos “mares temperados com africanas algas” e dos “orgasmos intensos de amanhãs possíveis”, celebrados em versos do poema “Nação inusitada”, p. 19. O erotismo faz-se impulso à transposição da dificuldade vivida em busca de espaços nos quais se possa sentir “o sereno prazer de ser” (p. 32) e torna-se resistência à descaracterização brutal imposta pela sociedade aos indivíduos marcados pela discriminação e pelo preconceito.
 

Se, por um lado, fica transparente a intenção do livro de posicionar-se como resistência ao apagamento da voz dos excluídos – e o eu-lírico deixa claro ser daqueles “que cobram o leite derramado”, p. 41 –,  por outro, salienta-se uma feição metalinguística, o voltar-se da escrita para a exposição dos impulsos que obrigam o poeta a escrever e registram, no poema, as pulsações do mundo. Nesse jogo, os laços que ligam os versos a um referente externo tornam-se incentivo à construção de outras ligações que impelem os poemas a transitar por espaços nem sempre tão atentos aos clamores da rua. É o que se percebe em “Embate”, p. 24, ou em “Tecnofobia”, p. 25, ou mesmo em “Sexo frágil”, p. 21, que, ludicamente, encaminham manifestações do erotismo, ainda que elaborem uma intenção crítica latente.
 

Na época atual, a literatura enfrenta crises intensas com relação à sua especificidade e às condições de circulação impostas pelas novas redes de mercado. Num mundo ressignificado pelo potencial das novas tecnologias, o fazer literário vê-se influenciado por formas de negociação e por tendências que, não sendo opostas, mostram-se às vezes em campos distintos. Registre-se a invasão dos textos midiáticos, mais sedutores e transparentes e a dificuldade de culturas – que, como a nossa, têm distâncias econômicas absurdas – em facilitar o livre acesso ao livro e à leitura. Acossada pela rejeição de muitos à visão do texto literário como produção fechada em si mesma, pouco propícia a ouvir os ecos da rua, uma outra feição da literatura assume um compromisso aberto com a realidade dura que povoa as páginas dos jornais ou os conflitos do mundo globalizado.

Essa literatura, que se quer atenta às questões da cultura, assume a palavra articulando-a com diferentes linguagens, propõe-se como um jogo que incita o leitor à busca de outros sentidos que se moldam fora do texto, nas redes de significação distendidas por ele. Uma visão de texto enquanto interatividade problematiza tanto uma função meramente comunicacional entre a literatura e seus leitores, quanto aquela que faz da escrita literária um simples jogo, que não almeja a nada mais além do seu próprio fazer.

Os poemas de Sanga, porque transitam entre vários espaços significantes, expõem a dificuldade de se pensar o texto literário fora da complexidade de seu próprio discurso. Fortalecem a proposta de que a literatura pode ser uma forma de resistência possível aos horrores impostos ao mundo. Optam por envolver o poeta com o mundo e suas grades e o leitor com “os luares tristes dos lupanares” e com “os olhares ensimesmados de crack”, p. 71, com cenas da rua que se transformam em motivos de poesia. Por não conseguir desviar os olhos dessas cenas, o poeta fixa-as em seus versos, ainda que não desestimule a esperança e aposte em transformações:


.........................
façamos auroras
com nossas auras
no horizonte

sinceridades raras

                   sayonarás pretos.

                   (Colo, p. 26)

Essa crença em mudanças se manifesta também no poema "Sedeusa", direcionada à celebração do amor e da mulher:

Vale navegar

O céu em teu olhar
Aflora luz e maravilha

                     (Sedeusa, p. 27)

É instigante, todavia, o trabalho exposto nos metapoemas em que o poeta se debruça sobre o seu próprio ofício, procurando explicá-lo, talvez mais para si mesmo, pois a realidade fora do texto parece exigir um compromisso maior com o que se vê pelas ruas, “pelos guetos em guerra fratricida” (p. 54).

O poema “Estética” é, nesse sentido, bastante sintomático de uma atitude que perpassa outras experimentações do livro. Ao trazer para os versos o contexto da escravidão e com ele rememorar os significados sociais do uso da escrita, o eu-lírico registra o ato de rebeldia que transgrediu leis e modelos, para conquistar a liberdade. Liberdade que o poema metaforiza, inclusive, no modo como ocupa o espaço em branco, desobrigando-se da severa observação de imposições gramaticais. 

quando o escravo
surrupiou a escrita
disse o senhor:
- precisão, síntese, regras
e boas maneiras!
         é seu dever

                                      enxurrada se riu demais em chuva
   do conta-gotas e sua bota de borracha rota
na maior despercebida enchente daqueles tempos
adjetivos
                                                   escorrendo ainda hoje
em negrito.
                             
   (Estética, p. 77)

Em “Do ofício” registra-se o poder mágico das palavras que podem ajudar  na construção de novos sentidos, desestabilizadores de lugares demarcados:

poeta cozinha o galo em fogo brando
e sabe
que o inimigo feroz
tem fome
mas desconhece
os venenos
que das palavras fazem a carne apetitosa
tão macia
e letal

           (Do ofício, p. 78)

O papel contraditório da escrita literária torna-se, ao mesmo tempo, referência a um trabalho que se faz em solidão, distante, pois, dos tormentos da rua, e o compromisso do poeta com as guerras nossas de cada dia.

Por outro lado, o trabalho do poeta pode evocar, às vezes, como se dá em “Poema”, outras forças que também habitam a poesia:

trabalho em transe
do coração à tez
overdose
e osmose
de lucidez

         (Poema, p. 82).

Na escrita do poema, evidenciam-se os intercursos entre estados de lucidez e alterações de consciência que permitem ao poeta transitar por diferentes espaços. Um outro poema, “Momento poético”, também se refere aos estados de ferocidade que se fazem impulsos à feitura do poema para alívio da tensão, transformada em motivo de poesia:

uma tensão leão corcoveia-me nas veias
   sol assanhado farofeia de luz a soleira
   quem tiver barriga de versos
não creia
        a juba amarela e brilhante incendeia
              cães de pólvora soltos da coleira

                  (Momento poético, p. 85).

Fica evidente, no poema, a proximidade entre o fazer poético e as alterações que motivam esse fazer. As metáforas sugeridas pelas expressões “uma tensão leão” e “cães de pólvora” não deixam dúvida quanto à utilização de recursos poéticos que contaminam os versos com impulsos e forças não controláveis.

No livro, os poemas podem também ser entendidos por alguns dos  significados dicionarizados da palavra sanga. Recuperam-se nele os sentidos de dizanga, do quimbundo, de nsánga, do quicongo, de zanza, do espanhol, significados que remetem o leitor ora às escavações que a chuva provoca no seio da terra, ora às modulações da água e à sua capacidade de assumir formas indiferenciadas, de expandir-se, sem controle. A força das palavras escava a memória a contrapelo, constrói uma poética que, insistindo no poder da escrita, aposta numa  arte produzida em desassossego, buscando, como bem diz um verso do poema “Insight”, p. 88, tirar “a máscara do equilíbrio”.


O poeta bem sabe como é perigoso e fugaz o equilíbrio, mas também acredita que as palavras podem compor poemas indignados que desafiam as águas paradas e abrem frestas por onde a “...negrura exposta/tece vida/na resposta” (p. 37).

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*Professora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e de Literatura Afro-Brasileira no  Programa de Pós-graduação em Letras da PUC-Minas.

** A expressão foi tomada de verso do poema “Operação pente fino”, p. 43.

*** As expressões estão no poema “Trajetória quase inevitável”, p. 30.

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