REVISTA SUBMARINO


“Democracia racial é uma camisa
de força da literatura negra”
O poeta e militante negro Luiz Silva, o Cuti, diz que
a falsa idéia da boa convivência faz parte da
ideologia racista

MARIA JULIA COUTINHO

O poeta, ensaísta e escritor negro Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, é um dos mais engajados militantes da literatura afro-brasileira. Nascido em Ourinhos, interior de São Paulo, em 31 de outubro de 1951, Cuti foi um dos fundadores do Quilombhoje-Literatura, grupo paulistano de escritores, surgido em 1980 e dedicado a discutir e aprofundar a experiência afro-brasileira na literatura. Autor de livros como “Poemas da Carapinha” e “Batuque de Tocaia” (Edição do Autor), Cuti está também entre os criadores da série Cadernos Negros, “nascida no bojo de um incipiente movimento que pretendia dar continuidade à histórica epopéia de uma imprensa negra”.
Em entrevista à Revista Submarino, Cuti dispara suas críticas às desigualdades raciais que dificultam a qualidade de vida e a produção intelectual da comunidade negra no país. “O racismo para o branco é um trunfo, ilusório, mas trunfo”, diz. Fala também da autocensura do negro à sombra do chicote, da visão obtusa da esquerda brasileira sobre a harmonia racial brasileira e a cristalização na língua portuguesa de expressões racistas de difícil reversão.

Revista Submarino – Como surgiu o Quilombhoje?
Cuti – Em 1978, havia, no Bexiga, um bairro de tradição negra de São Paulo, uma das Escolas de Samba mais importantes da cidade, a Vai Vai. Era lá também que, no passado, existiu o chamado Quilombo da Saracura. Havia uma entidade chamada Centro de Cultura e Arte Negra (Cecan). Esse centro era muito ativo, e ali nasceu uma organização que pretendia aglutinar as outras organizações: a Federação das Entidades Afro-Brasileiras do Estado de São Paulo (Feabesp). Nessa época, no Cecan, chegamos a publicar um jornal chamado Jornegro. No Cecan se uniram pessoas muito ligadas às letras e dali nasceu a idéia de fazermos uma antologia que fosse capaz de publicar poemas e contos de outros negros.

Revista Submarino – E a origem do nome?
Cuti – Trata-se de um neologismo que inclui a atualidade do Quilombo, a noção da nossa retomada histórica e também inclui a palavra bojo, ou seja, a nossa literatura está no bojo de um movimento maior, que é o Movimento Negro Nacional. Além dos encontros para discussão, o grupo passou também a realizar recitais de poemas. Hoje, ele é uma instituição legal, cuja finalidade me parece que continua a mesma, pelo menos em termos de Cadernos Negros.

Revista Submarino – Por que razão você se afastou do grupo?
Cuti – Minha preocupação era de que o Quilombhoje se tornasse realmente uma empresa, que entrasse no mercado e pudesse caminhar com suas próprias pernas, que não dependesse de dinheiro de instituições. No momento em que temos verbas, realizamos eventos, mas não temos condições de enraizar um trabalho, de fazer com que o trabalho se torne auto-suficiente.

Revista Submarino – Segundo o escritor e historiador Joel Rufino, a contumaz invisibilização da afrodescendência na sociedade brasileira e o monopólio de representação pelos brancos explicariam a “inexistência” de obras literárias que retratem o negro como herói, sábio etc. Você concorda com esta afirmação?
Cuti – Sim e não. O que os brancos mais fazem com os negros é desanimá-los. No campo literário e em outros que concorre a inteligência e o discurso é assim. A ilusão do racismo faz com que o branco em relação a nós negros sustente, com esforço, a noção de que é superior. Ora, reconhecer que negros são iguais tira o branco de sua ilusão. Em uma sociedade competitiva, todos querem ser os melhores. O racismo para o branco é um trunfo, ilusório, mas trunfo. Negar capacidade ao outro é uma forte maneira de atribuí-la para si mesmo. Manter o negro invisível é procurar manter sua visibilidade. Racismo faz parte do “levar vantagem em tudo”. Mas cedo ou tarde a armadura da ilusão vai mostrando suas fragilidades. O poder da representação não será jamais doado, mas sempre conquistado. É o que nós, escritores negros, temos feito.

Revista Submarino – E a receptividade do mercado diante dos escritores negros?
Cuti – O ‘Deus Mercado’ é uma criação do branco. Eu não o adoro. Para mim nem tudo que se vende é bom. Essa lógica é perversa. Há uma necessidade de libertação interior. Os descendentes de africanos sabem disso, lutam por isso. A literatura negra vai encontrar dificuldade sim, porque o tal mercado é um deus, como todos, vaidosíssimo. Tem suas vontades e quer um mundo refletindo a sua ideologia. Mercado é reflexo da ideologia dominante. A vontade da maioria é imposição de uma minoria branca, machista e racista. O que sinto, portanto, é a imposição de pontos de vista, de estereótipos, de uma visão de Brasil para inglês ver: branco, loiro e de olho azul. Mas há aí uma luta. Inevitável. Porque a receptividade é ideológica também. Em um jogo de cartas marcadas é preciso desmascarar o jogo.

Revista Submarino – Por que existem tão poucos escritores contemporâneos da raça negra?
Cuti – Porque há racismo no plano subjetivo e objetivo. Há uma instância subjetiva muito importante a ser vencida: romper com a “desidentidade” que o racismo nos impõe. Quando uma pessoa começa a escrever, ela sabe que está produzindo algo que terá a sua permanência e trará respostas. Ora, a sombra do chicote ainda está madura no inconsciente coletivo da afrodescendência. Ser negro no momento da escrita é, pois, o primeiro desafio para o poeta e ficcionista negro. Saber que se trabalha com o branco no horizonte de leitura é enfrentar, na raiz da criação, a opção em libertar-se ou manter as correntes invisíveis. Por isso vemos que muitos negros tornam-se branquíssimos quando escrevem. Ou seja, nada de sua subjetividade negra aparece. Ele cultiva uma sentinela de censura em seu subconsciente porque sabe que o branco é o leitor para o qual suas palavras serão dirigidas.

Revista Submarino – Você acredita que o fato de muitos autores negros não produzirem livros desvinculados da questão racial pode denotar um comodismo, ou seja, é mais fácil se “proteger” com o escudo da raça?
Cuti – Muito pelo contrário. Tudo tende a enterrar no desdém a chamada “questão racial”, como se ela fosse algo atinente ao complexo de inferioridade do negro. Por isso é mais cômodo se falar de outras coisas e não tocar na questão racial, colocá-la debaixo do tapete. A convivência entre negros e brancos impõe que se faça silêncio com relação a raça no Brasil. Essa é uma maneira que se encontrou de manter o racismo, ou seja, a vantagem dos brancos em todos os campos. Veja, quando há nos meios de legitimação literária a idéia de superioridade branca reinando, falar de racismo é tocar em um tabu. Somos levados, portanto, em nome de uma falsa boa convivência, a silenciar as variadas experiências de vida no tocante aos contatos inter-raciais. Todo texto que silencia é muito melhor aceito pelas instâncias de legitimação. No fundo, o que os brancos quase sempre dizem, ao avaliar o texto de um autor negro que silencia, é o seguinte: “Olha como ele não se deixa levar pelo rancor. Olha como ele é universal.” No fundo, a idéia do Pai Tomás está muito sólida na expectativa que o branco tem do negro. Por aí que se valoriza e desvaloriza textos. E o próprio leitor negro acaba embarcando nessa.

Revista Submarino – Por que a grande maioria da produção de selos e de autores negros da atualidade está voltada quase somente para a própria comunidade?
Cuti – Não está voltada só para a comunidade. Os demais é que têm medo de tocar, queima a mão e incendeia os olhos. Faça um teste. Deixe a “Revista Raça” em um consultório de classe média, entre outras tantas revistas. Filme. Você certamente vai perceber como a imagem do negro e sua mensagem serão repelidas. É a ilusão do branco, o seu complexo de superioridade. Racismo tem em sua base funcional a rejeição do outro, a recusa.

Revista Submarino – E como você aborda a questão racial em suas obras?
Cuti – Procuro, em primeiro lugar, libertar-me da autocensura. Para isso é fundamental permitir-me vislumbrar um horizonte de leitores negros. Depois, deixo-me brincar com as palavras, entrelaçando a questão racial em seus vários ângulos, inclusive abordando os brancos e seus complexos enquanto matéria ficcional. Também é importante para mim o jogo de desmontar os estereótipos.

Revista Submarino – Você se interessa por outros temas desvinculados das questões raciais?
Cuti – Parece que, no fundo, a sua pergunta vem na direção seguinte: você é também não-racista? Minha obra não tem centro temático. Não me escondo para outras dimensões do ser humano. A preocupação de que o negro escreva textos que não falem sobre a questão racial é a preocupação da própria ideologia racista. Quem mais escreveu sobre questão racial, tentando minimizá-la, foram brancos. Nós negros temos muito ainda que produzir. Mergulhar na história dos séculos de colonização e abordar a contemporaneidade é uma tarefa imensa para várias gerações. A temática racial convive com todas as outras em meus textos.

Revista Submarino – Como lutar contra essas barreiras?
Cuti – Creio que o esforço pessoal pode vencer tais barreiras internas, mas é imprescindível que surja, em grande quantidade, o leitor negro. Este é fundamental para libertar a criação. Os brancos nos “coisificam” em suas produções intelectuais porque não nos tem no horizonte de sua recepção. Um escritor branco jamais pensa em leitor negro. Daí que se dirige a um outro branco, no seu íntimo. Para o escritor negro se dá o contrário. Ele sabe que quem legítima a literatura é branco e, por isso, tem dificuldade de se libertar do leitor ideal branco, que, por tabela, remete o criador a uma profunda autocensura. O monopólio do branco é, sobretudo, da mente dos negros. Esse domínio subjetivo é a mais séria escravidão. E, sem dúvida, dificulta e muito a criação literária afrodescendente.

Revista Submarino – Você escreveu um artigo em que falava sobre a cristalização da língua portuguesa no Brasil. Como isso influencia o trabalho do escritor negro?
Cuti – Ao cristalizar-se, a língua portuguesa enfeixou em seu conteúdo semântico uma série de expressões racistas de difícil reversão. A própria palavra “negro”. Os vários significados pejorativos são empregados até hoje. Sem contar os novos termos que os brancos vão cunhando ao longo do tempo, como por exemplo, “crioléu” é a nova versão de “neguinho”. O sujeito fala reiteradamente “neguinho faz isso faz aquilo”, querendo dizer com isso que é um sujeito qualquer de péssima índole, folgado, irresponsável, ou que tais, agiu de tal maneira. Quando você diz “branquinho fez isso e aquilo”, ele acorda e te chama de racista. É isso, dorme-se em “berço esplêndido”, sendo racista. O despertar é sempre um espanto.

Revista Submarino – Como você vê a produção literária do negro no Brasil comparada a outros países?
Cuti – Diante dos Estados Unidos, por exemplo, a literatura afro-brasileira é muito pouco numerosa e bastante intimidada. A ausência de uma luta declarada, a existência da camisa-de-força chamada “democracia racial” desanima, confunde, atrasa o desenvolvimento dessa literatura. Escritores com grande capacidade literária, em nome de uma integração espúria na vida intelectual dos brancos, acabam por silenciar a sua subjetividade e a de sua gente negra. São chamados muitas vezes de crioulos, negões, e acham que tudo vale, desde que sejam considerados escritores pelos que monopolizam a opinião pública. Daí que preferem, os que se pretendem de esquerda, veicular a noção de harmonia racial brasileira, impedida, apenas pela exploração de classe. É a cartilha de Jorge Amado. Os que se pretendem de direita, então, vão basear a identidade negra apenas em traços de cultura popular de origem africana e farão um completo silêncio quanto à zona de conflito étnico. Passam longe.