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CUTI.
Suspensão. São Paulo : Ed. do Autor, 1983 (teatro). 22p.
SUSPENSÃO
Peça em 1 ato e 11 cenas.
Cenário: SALA – ambiente pobre, com uma porta
ao fundo. Essencial: 1 mesa e 3 cadeiras.
BAR – Ambiente simples. Essencial: 1 mesa
e 3 cadeiras.
PLATÉIA/PALCO – PALCO/PLATÉIA – cadeiras no
palco. Ação na platéia.
Personagens: com exceção da Alegoria e dos 2
Homens, todas as personagens são necessariamente negras.
Isolina – jovem. Filha de Patrício.
Patrício – velho. Pai de Isolina e Baleia.
Baleia – rapaz. Filho de Patrício. Irmão de
Isolina.
Rapaz 1 / Rapaz 2 – amigos de Isolina.
Personagem 1 / Personagem 2 – jovens
2 Homens – Vozes no escuro – cena 6.
Fisicamente – cena 10.
Simbólicos:
Alegoria – esta personagem usa máscara/capuz,
na qual estão incrustadas embalagens de produtos industrializados de
consumo. Veste terno e gravata impecáveis. Estará imóvel debaixo do
Boneco Preto nas cenas 1, 2 e 3.
Boneco Preto – de pano. Meio metro de
comprimento. Sua localização original é – suspenso pelas costas – ao
canto esquerdo do palco, apartado da cena, porém bem visível. Nas
cenas 1, 2 e 3 está de braços pendidos.
Preto Velho – esta personagem é um
desdobramento de Patrício. É representada pelo mesmo ator – cena 2.
Voz Feminina – surge dos bastidores na cena
10. Na cena 11 aparece no público.
NA SALA
Cena 1
(Patrício e Isolina)
PATRÍCIO – (Acordando de um sono
debruçado sobre a mesa) Ahn... Ahn... Quem é?
ISOLINA – (Entrando depois de se ouvir
barulheira de coisas caindo. Corre atrás de rato com uma vassoura)
Filho da puta! Safado!...
PATRÍCIO – Que é isso aí?
ISOLINA – (Desistindo da perseguição)
É o Pelego, pai! Eu ainda pego ele. O senhor já viu como tá grande o
safado?
PATRÍCIO – (Rindo) Ah, de já hoje
tava me olhando ali da porta. Dá até pena. Parece que até se sente
da família.
ISOLINA – Mas eu ainda mato ele, o senhor
vai ver.
PATRÍCIO – Se desse pelo menos pra fazer uma
fritada, valia o esforço.
ISOLINA – Rato dentro de casa não é motivo
de graça, não, pai.
PATRÍCIO – Pelo menos esse aí pára em casa.
ISOLINA – (Pausa) Vai começar tudo
de novo, pô!?
PATRÍCIO – A coisa não tá direita, Isolina.
Você não tem idade pra tá chegando essas hora em casa.
ISOLINA – Mas que hora?
PATRÍCIO – Ontem.
ISOLINA – Como é que o senhor sabe que eu
cheguei tarde, ontem? O senhor estava dormindo. Já sei! Foi a velha
louca. Essa sardenta. (Em voz alta) Coruja depenada! Não
tenho culpa se ela não vai com a minha cara. Essa coruja!
PATRÍCIO – Mais respeito com os outros,
Isolina.
ISOLINA – Respeito o quê! É bom mesmo ela
escutar. O senhor fica lambendo essa bruxa só por causa da casa... A
gente muda daqui. Eu não agüento mais. Acho bom procurar um outro
canto pra viver.
PATRÍCIO – Devendo do jeito que a gente
está?! Só indo lá pro Fundão. E eu pra lá não volto. Sou preto mas
não quero saber de favela. Ao invés de ficar com boca-dura é melhor
ver se arranja emprego.
ISOLINA – O que é que eu faço todo dia?
PATRÍCIO – (Recuperando a calma) Ina,
minha filha, você precisa compreender que as coisas não são assim.
Tem que ter paciência. E de mais a mais ela só me fala pra ter
cuidado com você. Foi só a sua mãe morrer e você ficou cavala desse
jeito!...
ISOLINA – É, quando a mãe era viva essa
velha nunca veio aqui tesourar a minha vida. Sabe por quê? Por que
se viesse a mãe metia a mão na cara dela. Mas, eu vou arrumar um
emprego, o senhor vai ver!
PATRÍCIO – (Divagando) Já não chega o
Baleia preso há tanto tempo, mais essa malcriação agora!...Ô Dadá,
você não podia ter deixado uma carga tão pesada pra mim!
ISOLINA – Pai, deixa a mãe em paz. Olha, e
eu também não gosto que o senhor fica me comparando com o Baleia,
tá! Ele tá preso e eu aí me virando todo o dia pra arrumar
serviço... Sei lá... É que o senhor é tão mole. Parece que anda com
medo de viver.
PATRÍCIO – Eu sempre fui um homem sossegado.
É de natureza.
ISOLINA – Será que é mesmo, pai? Esse
negócio de natureza e destino eu não consigo engolir. Vai me dizer
que essa bebeção de cachaça é por natureza também?
PATRÍCIO – Bebeção? Eu não bebo tanto
assim...
ISOLINA – Não, pai?! O senhor não bebia
tanto enquanto a dona Dadá estava viva e regulava o seu aperitivo.
Foi só a mãe morrer e o senhor desandou. Parece até que quer se
afogar, se matar... O senhor pensa que eu não preciso do senhor? Não
é só pra ficar controlando a minha hora de chegar. Eu preciso de
papo, entende? De conversa. O senhor precisa continuar vivo...
PATRÍCIO – Mas será que eu estou morto?
ISOLINA – Não, mas está se acabando. É
difícil encontrar o senhor falando coisa com coisa. Tá sempre ó (gesto
com o polegar em direção à boca). Desse jeito vai acabar num
hospital.
PATRÍCIO – Prefiro ir direto, sem baldeação.
ISOLINA – Então é isso. Está a fim de se
matar, né? Põe filho no mundo pra depois largar por aí... (senta-se
desconsolada).
PATRÍCIO – Depois que a tua mãe morreu...
doença ruim... essa cadeira vazia... Sabe, a gente ganhou, a gente
gastou, mas ali, sempre junto. Era uma mulher e tanto. Nós até que
conseguimos comprar muita coisa. Não fosse a doença...
ISOLINA – Só uma casa é que faltou
comprar.
PATRÍCIO – Também, naquele tempo não tinha
essas mamata que tem hoje. Mas fica sabendo que a gente viveu muito
bem. (Sonhador) Desde aquela briga...
ISOLINA – Pai, não fica lembrando.
PATRÍCIO – Deixa, Ina. Num tem jeito. Essa
saudade não tem cura. Só alívio. É assim que alivia.
ISOLINA – Tá bom...
PATRÍCIO – Eu te contei da briga?
ISOLINA – Não, não contou, não.
PATRÍCIO – Eu sabia que não tinha contato.
Estou velho mas não caduco. É como Nega Dadá dizia: velho é trapo
esquecido de que roupa veio.
ISOLINA – Que negócio é esse de Nega
Dadá?
PATRÍCIO – Na mocidade todo mundo conhecia
ela assim. (Pausa) Mas como eu ia falando, “fechou um tempo”
num desfile de carnaval que foi uma coisa de doido. Uma confusão com
a escola de samba da Dadá e uma gente que assistia, que não teve
graça! E lá tava eu. Briga dela... É... (ri). Começou – eu
estava vendo, porque não era de desfilar. Começou com a chacota duma
dona que estava assistindo o desfile quando a Dadá passou. Uma
vizinha dela. A muiezinha acho que pensou que tinha proteção dos
macho dela – uns caboclo forte – e xingou a Dadá de nega bunduda e
safada. Ah, não teve caldo no feijão. Dadá deu umas rebolada perto
da dona, cuspiu na cara dela e cobriu com um tapão. Aí ferveu!
ISOLINA – E o senhor?
PATRÍCIO – Eu? Eu andava de olho nela há
muito tempo. Mas sua mãe era difícil. Fazia de conta que não me via.
Arrogante...
ISOLINA – É mesmo?
PATRÍCIO – Naquele tempo. (Pausa)
Mas, sabe, ela tinha me visto antes de chapar a cara da dona. Ela
deu o rebolado e gritou pra mim (Imitando): “Segura o
sinhozinho aí, Patrício!...” Ah, eu agarrei com tanta força o
caboclo que já ia pro lado dela que até hoje não sei... O resto
quando viu, embolou. Aí o pau comeu de vez. Uma negrada boa de briga
qu’eu vou te contar! E o batuque ali, ajudando a gente. Se não fosse
o xadrex e um olho inchado, tinha sido melhor.
ISOLINA – Deu cadeia?
PATRÍCIO – Se deu! Só na quarta-feira de
cinzas!... Mas quando eu saí ela já estava lá me esperando com um
sorriso des’tamanho e um olho de criança querendo doce. (Palmas.
Isolina vai atender. Volta com um papel na mão) Quem era?
ISOLINA – Um conhecido meu. Veio trazer um
convite. (Lendo) Semana de Zumbi...
PATRÍCIO – O quê?
ISOLINA – Semana de Zumbi dos Palmares.
Deve ser uma festa.
PATRÍCIO – Zumbi... hum...
ISOLINA – O senhor já ouviu falar?
PATRÍCIO – (Andando para um canto)
Não. Dessas coisas eu não entendo. (Som forte de atabaque.
Isolina dobra-se na cadeira, cabeça pendida para o chão, de frente
para o público. Penumbra seguida de iluminação sugerindo atmosfera
de sonho, de mistério. Patrício sai do canto como Preto Velho. Do
lado oposto acende-se uma vela).
Cena 2
(Preto Velho)
PRETO VELHO – (Fuma cachimbo e usa um
pedaço de pau como bengala. Caminha com dificuldade) Mas eu sei.
Fico atrás do que foi tapado e não passô do pai pro fio. O zóio que
num dorme. He, he, he. Sô a memória moída
que o sangue juntô. Moro dentro d’ocê (aponta o público) e
saio pra cochichá história no quieto do escuro.
He, he, he... (Fuma pensativo) E, sabe, as história de
Palmar tem muita coisa escondida no miolo do tempo. Tinha uma dum
escravo, home de Zumbi, que trabaiava na fazenda dum chamado coroné
Sezefredo. Ficava lá, só dano jeito dos companheiro fugi. E foi n’ua
coieita de café que um muleque – fio duma escrava com sinhozinho,
sem a sinhá sabê porque senão a danada botava a coitada no tronco
até matá – o muleque levô mordida de cascavé, uma cobra venenosa que
só!... Aí o home de Zumbi fez uma reza braba num caneco d’água e deu
pro muleque. O fio do coroné co’a sinhazinha – um branquelinho
posudo – quando viu, começô a dá risada e chamano o home de
fiticeiro. O home oiô bem no zóio dele e lascô mandinga (Imitando):
Hum, hum! Deu uns nó nos dedo que o sinhozinho danô a ri que num
parava mais. Aí foram chamá o coroné que veio cuspino fogo, e quando
viu o fio vermeio que ném brasa e dano risada feito lôco, foi de
reio pronto pra dá no home que já tava no chão fazendo umas micage e
dizeno (Imitando): Óia Zambi. Óia Zambi. Óia Zambi... Tava
gingano uma capoeira de matá. Deu dois tombo no sinhô com chicote e
tudo. Dispois uma pancada só: matô! Quando a cambada do coroné veio
pra ciscá no terrêro, os escravos já tava tudo gritano dum jeito só
(Imitando): Óia Zambi. Óia Zambi. Óia Zambi. Era a revorta
que já tava preparada. Muita gente morreu na luta. Mas o grosso dos
escravo caiu fora direitinho pro quilombo. A fazenda ficô limpa de
gente viva. Só o fio do sinhozinho é que restô, rino até caí no meio
dos morto, he, he, he... E tem um tantão de história!... Tem muita
coisa escondida no miolo do tempo, he, he, he... (Vai saindo,
voltando ao canto e onde veio. Apagam-se as luzes. A vela fica por
um instante, depois apaga-se).
Cena 3
(Isolina e Patrício)
ISOLINA – (Só. Canta, enquanto vai
retirando uns pratos da mesa que em seguida passa a limpar. Entra
Patrício visivelmente bêbado) Oh, meu Deus!... De novo?... (Decepcionada)
O senhor recebeu pagamento.
PATRÍCIO – Recebi.
ISOLINA – (Levantando a voz em tom
brando) E já depositou no bar, não é? E já tá (Gesto com o
polegar em direção à boca), né, pai?!...
PATRÍCIO – Não. Só tomei um golinho. (Tira
com dificuldade algumas notas do bolso e põe sobre a mesa) Tá
tudo aí, ó... Dá pra comer o mês todinho. Dá até pr’ocê ir nos seus
baile (ri. Está muito contente).
ISOLINA – Que felicidade mole é essa, pai?
(Ampara-o) Oh, dona Dadá, que cruz a senhora me largou!...
PATRÍCIO – (Brincando) Cruz não. Eu
num sô cruz. Eu sou Jesus! Patrício Jesus dos Santos.
Ah, ah, ah...
ISOLINA – (Ajudando-o a sentar)
Senta direito! Me fala então, por que e qual é essa transa nova.
Arrumou serviço pra mim?
PATRÍCIO – Nããoooo... mas a Dadá vai dar um
jeito. Ah, ah, ah... Ela (ensaia uma
maneira moderna de dizer) vai dar uma força pra nós três.
ISOLINA – Que conversa é essa?
PATRÍCIO – É uma conversa muito séria. Não
tem nada de fiado, não. (Pausa) Eu falei com ela!
ISOLINA – Espera lá, pai...
PATRÍCIO – Você não acredita em nada! Mas eu
falei com ela. (Pausa) Me disse pra pedir aposentadoria da
açucareira, e que eu vou ganhar muito mais, mesmo com dinheiro mais
curto. Ela quer que eu não fique mais agüentando desaforo daquela
cambada de safado.
ISOLINA – O senhor está falando sério?
PATRÍCIO – Tô. Eu tomei uns aperitivo mas
ainda estou lúcido. E tem mais, sua mãe mandou uma boa notícia pra
você e pro Baleia. Você vai arranjar o emprego não demora muito, e
seu irmão sai loguinho da cadeia e vai tomar juízo.
ISOLINA – Oh, pai, eu estou quase
acreditando. Mas, me diz uma coisa: sobre os aperitivos a mãe não
falou nada?
PATRÍCIO – Hum?
ISOLINA – É... ela não mandou o senhor
parar de beber? Nem mandou dar uns tapas na cara dessa velha que o
senhor vive lambendo por causa do aluguel atrasado? (Patrício
levanta-se e vai até a boca de cena. Contorce-se um pouco) O que
foi, velho? Fala?
PATRÍCIO – (Com as mãos sobre a altura do
fígado) Eu tenho que lutá muito, muito...
ISOLINA – (Amparando-o) O que o
senhor tá sentindo, pai?
PATRÍCIO – A dor... Bem que a Dadá falou...
ISOLINA – Deixa eu pegar o remédio. (Sai
de cena, deixando Patrício agachado. Continua falando de dentro)
Eu já falei! O senhor não pode beber...
PATRÍCIO – Anda , Isolina...
ISOLINA – (De volta. Tenta dar o
remédio numa colher) Bebe, vai passar.
PATRÍCIO – (Transtornado) Bem que ela
falou...
ISOLINA – (Sem conseguir medicar o pai
que se curva. Tenta segurá-lo com uma das mãos, na outra a colher)
Calma, pai. Agüenta um pouco. (Patrício despenca. Vai junto a
colher com remédio) Espera... eu vou chamar uma ambulância (Sai
apressada. Apagam-se as luzes).
NO BAR
Cena 4
(Rapaz 1, Rapaz 2 e Isolina)
(Sobre a mesa, garrafas de cerveja, copos
tipo americano, cálices de aperitivo. O Boneco Preto balança num
canto oposto à sua posição original, nas cenas anteriores. Balança
de forma perceptível. Os três, sentados à volta da mesa, conversam.
Uma música tipo balanço – soul, jazz – em alto volume impede a
conversa de ser ouvida. A Alegoria entra, dança expansivamente e se
perde no público. A música torna-se de fundo).
RAPAZ 1 – (Para Isolina)... é isso
a Semana de Zumbi. Uma forma da nossa gente estar mais junta,
entendeu? Um trabalho de conscientização buscando o nosso próprio
caminho nessa selva de mentira e ilusão que meteram na cabeça da
gente. E o teatro é a grande “lança”, percebe?
RAPAZ 2 – Da próxima vez você bem que
podia participar, Isolina. O Jorge do Grupo Malungo está montando um
puta texto que fala de toda a história do negro no Brasil. Ele
estudou a fundo o teatro do Abdias do Nascimento e a poesia do
Solano Trindade.
RAPAZ 1 – É uma boa, Isolina, porque a
gente tá sabendo que escondem uma série de coisas do nosso pessoal.
É preciso botar pra fora a nossa verdadeira história. Esse negócio
de pintar o negro sempre covarde, bonzinho, acomodado, isso não dá
mais pé. E sem contar que gente importante aí na história do Brasil
andou “aprontando”, igual o tal do Rui Barbosa que queimou uma “pá”
de documentos sobre a nossa história. Você sabia dessa, Isolina?
ISOLINA – Não... Eu estou meio por fora.
RAPAZ 2 – Não é só você não, Isolina. A
nossa gente está na maioria por fora. Muita gente entra naquela:
fica com vergonha por causa da escravidão, inibido, e acaba querendo
fazer de conta que não tem história.
RAPAZ 1 – Inclusive com vergonha da
África.
ISOLINA – É... mas, não tem problema da
gente acabar fazendo racismo, também?
RAPAZ 1 – Esse negócio de dizer que negro
estando junto provoca racismo é papo furado. É mania de sinhozinho.
O judeu, o japonês, o português, não têm seus clubes? Não promovem
suas coisas? Porque a gente não pode? Não é porque eles se unem que
eles fazem racismo, ou será que fazem? Nós não temos que pedir pra
ninguém pra ter o direito de se organizar. Só assim que a gente vai
mudar essa sociedade.
RAPAZ 2 – E tem outra, qual a raça que não
puxa farinha pro seu saco?
ISOLINA – É... tudo bem...
RAPAZ 2 – Se a nossa gente está na favela,
não é de graça, não. Tá lá ó (Apontando com o polegar pra trás,
por cima do ombro), tá lá no passado o começo de tudo. Já viu,
né, chega lá no Fundão, pode contar: 90% é negro e mulato.
RAPAZ 1 – Mulato é negro, pô!
RAPAZ 2 – E a gente nunca vai saber como
sair desse sufôco fodido, sem estudar o passado, sem ver direito
como tudo começou. O grande trunfo é a história.
RAPAZ 1 – (Levantando-se) É isso
aí, falou, Isolina?... Vai lá no dia 20. A programação tá boa. Acho
que você vai gostar muito da peça de teatro que a gente fez.
ISOLINA – É... se o velho melhorar eu vou.
Ele não está muito legal. Ah, não paga nada, né?
RAPAZ 1 – Micharia. Mas a gente quebra o
galho de vocês.
ISOLINA – Tá legal! Ah, aquele livro que
você me emprestou, eu te devolvo lá, no dia.
RAPAZ 1 – Não tem pressa. Gostou?
ISOLINA – Eu estou no começo ainda. Mas já
fiquei puta da vida de saber quanto nêgo chegou aqui na escravidão.
Pô! e de que jeito!
RAPAZ 1 – É barra... (Põe umas notas
sobre a mesa) Tcháu, Isolina! (Ensaia um cumprimento “black”.
Isolina se atrapalha) Espera lá. (Ensina) É isso aí. (Dirige-se
para o Rapaz 2, cumprimentando-o da mesma forma, com grande
agilidade) A gente conversa amanhã, falou? (Vai saindo).
RAPAZ 2 – Vê se chega no horário, hein,
meu! Não vai vacilar de novo.
RAPAZ 1 – Pode deixar. Vou até chegar no
horário... africano (Ri).
ISOLINA – (Para o Rapaz 1) Escuta
aí, a gente tem também aquele papo sobre o 13 de maio que você
falou. Como é que fica?
RAPAZ 1 – (Voltando-se) Ah, o 13 de
maio? Por enquanto joga na borboleta, porque essa história de
abolição da escravatura tá muito mal contada. Se der vê se faz 13
pontos na loteria esportiva (Ri). Dá uma ligada lá pro
serviço amanhã... (Sai de cena).
Cena 5
(Rapaz 2 e Isolina)
RAPAZ 2 – Você vai “subir”?
ISOLINA – Vou. Eu tenho que dormir logo
pra ir procurar emprego bem cedo. Não tá fácil!...
RAPAZ 2 – É... “trampo” parece agulha em
palheiro. Quando começam com esse negócio de boa aparência, aí é que
a coisa complica pro nosso lado. (Ri. Coloca algumas notas sobre
a mesa e dirige-se para o público apontando o dinheiro) Olha
aqui, Maneco. Não fica “marcando”, não. A grana tá aqui, ó. Depois
vai falar que negrão não paga conta... (Ri. Volta-se para Isolina)
Ah, eu tenho uma notícia pra te dar. (Vão saindo lentamente)
ISOLINA – O quê?
RAPAZ 2 – É o seguinte: O Baleia fugiu.
ISOLINA – (Espantada) O quê?
RAPAZ 2 – É... fica fria! Eu fui lá na
detenção e meu primo estava falando. Teve um motim lá, sabe, e fugiu
um bocado de gente... (Apagam-se as luzes)
NA SALA
Cena 6
(Dois Homens – Vozes)
(Palco inteiramente escuro. Barulho de
móveis sendo revirados com violência. Um lanterna procura. Incide às
vezes sobre o público. Dos dois personagens, apenas as vozes
sobressaem com irritação no escuro completo.)
VOZ 1 – O filho da puta não deve nem
tê cheirado o “mocó”.
VOZ 2 – É, nem sinal dele.
VOZ 1 – Vamo esperá o velho e dá um
aperto nele.
VOZ 2 – Não, deixa pra lá. O velho
não agüenta um peido. Dá do cão morrer, aí já viu. Já deu sujeira
daquela vez, porra!
VOZ 1 – Pode ser que já chegou no
barraco da mulata.
VOZ 2 – Se não chegou vai chegar.
Deve tá louquinho pra dar uma “trepada”, o puto.
VOZ 1 – (Luz de lanterna acendendo
num ponto, apagando e acendendo noutro ponto) É, esse é
perigoso. É jogar umas azeitonas e depois vê como é que fica o
“presunto”. (Vão saindo. A lanterna piscando.)
Cena 7
(Isolina, Patrício e Alegoria)
(Isolina lê. Uma projeção de slides mostra
cenas da escravidão, da obra de Debret. De costas para o público
encontra-se, sentada à mesa, a Alegoria, inteiramente invisível às
personagens. O Boneco Preto na localização original, acha-se com os
pés unidos à cabeça. Patrício está, de início, fora de cena.)
PATRÍCIO – Hum... Hum... Não.
Me larga... Solta... Me larga... Ahn...
Ahn... (Chega à porta assustado. Cessam os slides.)
ISOLINA – O que foi, pai?
PATRÍCIO – Um sonho... Nossa Senhora! Faz
tanto tempo que nem sonhá eu sonho!... Nunca tive dessas coisas...?
ISOLINA – É a bebida.
PATRÍCIO – Larga mão de bobagem. Aperitivo e
pesadelo é como ovo e pelo. Não tem nada a ver uma coisa com a
outra.
ISOLINA – É, mas quem me disse isso foi o
médico.
PATRÍCIO – Médico?
ISOLINA – É, o senhor até já se esqueceu
do vexame de ontem?
PATRÍCIO – Ah, sei... (Pausa) É, eu
não devia dar tanto trabalho.
ISOLINA – Não devia mesmo. Dá até
vergonha. Os vizinhos tudo vendo o senhor sair carregado, vomitando
uma água fedida... (Pausa) Mas, deixa pra lá, é bom esquecer,
pai. Eu não devia nem ter lembrado. Acho que as coisas vão melhorar
um pouquinho.
PATRÍCIO – Choveu na tua horta?
ISOLINA – Choveu.
PATRÍCIO – Ah, tá vendo. Eu não disse que a
Dadá ia ajudar? (A Alegoria saindo vai-se misturar ao público.)
ISOLINA – Foi engraçada a entrevista. O
homem lá do escritório, primeiro me elogiou tanto que eu até fiquei
meia sem graça. Depois falou (Ênfase, representando): “Mas,
sinto muito, a diretoria da firma resolveu exigir o curso de inglês
para esse cargo”. Aí eu não agüentei e perguntei se tudo aquilo era
porque eu era negra, se a firma dele não gostava de preto... Aí o
cara se espantou, disse que não era isso e que eu não tinha deixado
ele terminar, que tinha outra vaga...
PATRÍCIO – E então deu certo?
ISOLINA – Deu, né. Não deu pra
recepcionista mas deu pra datilógrafa. Começo depois de amanhã. Mas
não sei não... Parece que aquele cara não gostou muito d’eu ter
falado.
PATRÍCIO – Mas é assim. Sua mãe é que também
num gostava de meia conversa. Quando nós casamos ela até não
concordou mais que chamassem ela de Nega Dadá. Porque tinha muita
gente que aproveitava do apelido pra ficar com esse negócio de
preconceito.
ISOLINA – Agora vamos ver se não vão
inventar alguma outra coisa pra “pegar no meu pé”. (Pausa)
Pai?...
PATRÍCIO – Ahn?
ISOLINA – Eu ia falar com o senhor, mas
não deu...
PATRÍCIO – O que é que já foi, Isolina?
ISOLINA – Eu briguei com a dona aí e ela
pediu a casa. E logo. Eu acho até melhor mesmo a gente sair.
PATRÍCIO – Como é que é isso?
ISOLINA – Hoje, depois que o senhor voltou
do hospital, ela veio aqui, com desculpa de fazer visita e começou a
falar que o senhor bebia por minha causa; que eu só dava
aborrecimento; meteu a língua no Baleia porque a polícia teve
aqui... Chegou uma hora que não deu: “saí com os cachorro” em cima
dela.
PATRÍCIO – Você não tem juízo!... E o que tá
atrasado?
ISOLINA – Ela espera. O senhor faz tanta
coisa pra ela e ela nunca pagou!
PATRÍCIO – Mas, não é assim. A gente tem que
ter um pouco de paciência... Você parece que quer levar tudo na base
do porrete! Desse jeito...
ISOLINA – (Controlando-se) Não fui
eu quem falou que a gente ia mudar. Foi ela que pediu a casa. Eu não
tenho culpa.
PATRÍCIO – Num tem culpa, num tem culpa...
Diabo! voltar pr’aquele mundo!... Você era pequena quando saímos de
lá. Fundão não é lugar de se morar, não. (Com a cabeça entre as
mãos) Eu não sei, parece que a vida desandou... Voltá pra
favela, depois de velho... Eu vou falar com a dona Isabel.
ISOLINA – Pai!, eu acabo de xingar a
mulher, mandei ela até pr’aquele lugar, e o senhor agora vai lá se
humilhar, pedir perdão!? Ela escurraçou a gente. Eu dou um jeito.
Até já falei com a dona Cecília. Ela aluga o barraco pra gente até
tudo melhorar. Acho que é coisa de um mês só. Deixa eu me afirmar no
emprego e tudo fica melhor.
PATRÍCIO – Põe juízo nessa cabeça. Voltar
pra favela de novo!?
ISOLINA – Tá legal, pai... Só que não dá!
Eu só não bati nela porque ela correu. Se o senhor visse o que ela
falou da gente! Xingou o senhor de pé-de-pinga, falou que não
agüentava mais polícia entrando na casa dela atrás de
marginal... Eu fui engolindo tudo – porque eu também sei que a gente
precisa da casa – mas chegou num ponto que não deu. Falou até que eu
andava trazendo homem pra dentro de casa! O senhor quer mais? Eu não
tenho sangue de barata, pô!
PATRÍCIO – Eu não sei, eu não sei... (Procura
alguma coisa num canto) Cadê a garrafa daqui?
ISOLINA – Joguei fora. Tudo é motivo pro
senhor tá encharcando.
PATRÍCIO – Eu não sei, essa sua
impaciência... Mudar! Ai, meu Deus do céu!
ISOLINA – Iiiii... deixa deus na dele. O
negócio é o seguinte: pode pôr fé em mim. É por pouco tempo, pai.
Tá?
PATRÍCIO – (Derrotado) Tá... Tanto
faz...
ISOLINA – Favela não foi feita pra
cachorro... (Pegando uns objetos) A gente arruma as coisas
hoje, pra adiantar... (Tentando conciliar) Depois vamos lá no
teatro, tá?
PATRÍCIO – (Rispidamente) Ah!...
Cena 8
(Alegoria, Patrício, Boneco Preto)
(Iluminação sugerindo uma atmosfera irreal.
O Boneco Preto acha-se com os braços inteiramente estendidos, em
cruz, acima de Patrício que se encontra sentado, de cabeça baixa,
levantando-a apenas para beber – ou tentar – da garrafa que sustenta
numa das mãos. A Alegoria em sua fala, ora se dirige ao público, ora
ao Boneco Preto, ora a Patrício, sempre dando a idéia de estar se
comunicando com apenas um interlocutor.)
ALEGORIA – (Para o Público)
Eu sou a tua anti-memória. Hás de viver a
felicidade dos que não têm história. A minha proteção é o que te
civiliza para seres um bom criado.
(Para Patrício)
Exijo, exijo de ti a destilação do suor
produtivo para matar a minha sede infinita.
(Para o Público)
Teu ventre tem que ser como as máquinas.
Preciso de policiais para te conter a faísca subversiva. Quero
marginais que me saciem o prazer de encarcerar, de fazer escorrer
sangue dos teus sonhos para lubrificar os meus aperfeiçoados
instrumentos de tortura. Tens que produzir, produzir, produzir, ser
a mão-de-obra prostituta para que o trabalho não valha um centavo de
consciência diante do meu lucro.
(Para o Boneco Preto)
Por isso eu digo: bebe! (Patrício bebe da
garrafa com certa dificuldade.) Por isso eu digo que hás de
encontrar o repouso aí, no lugar que te reservei para o bem de toda
humanidade. Este é o teu lugar e eu sou a tua única condição de ser.
O teu Deus Todo Poderoso, eu o criei segundo a minha própria imagem
e semelhança.
(Para o Público)
Tens que adorar, render graças à indústria que
te possibilita participar do grande milagre: a transformação do
sangue em óleo diesel. Da tua alegria eu fiz a eletricidade dos meus
desejos. Teus olhos ficam bem como lâmpadas em meus computadores. A
tua língua, ah ah ah...
(Patrício bebe de novo)
(Para o Boneco Preto)
A tua língua é a passarela de todos os meus
venenos enlatados.
(Para o Público)
Quando o chicote te lambeu o lombo em sinal da
cruz, foste então batizado no Oceano Atlântico e tuas feridas se
deliciaram com a refeição de sal grosso.
(Pausa. Para Patrício)
A pátria precisa enfeitar-se com as
serpentinas de tuas entranhas. O lança-perfumes vai conter até o fim
a essência de tuas lágrimas que me embriagam e expulsam o fedor das
tuas axilas. É carnaval!
(Para o Público)
Tenho garantida a tua inércia (Patrício
bebe mais uma vez) porque injetei no teu coração a saliva das
minhas palavras e ele não pulsa mais em ritmo de quilombo. Fiz da
tua dança uma mera válvula. Válvula de escape para que não escapes
nunca (Ergue a mão com punho fechado) por entre os meus
dedos.
(Para o Boneco Preto)
És a minha mais clara certeza de que sou
indestrutível em meu projeto de fazer de ti incontáveis misérias
ambulantes. És a esperança em estado de putrefação. O meu mais
completo prazer (Esbofeteia o Boneco Preto).
(Para o Público)
Por isso eu te digo: mata-te para me manter
vivo. E hás de permanecer eternamente no escuro, admirando a
brancura da minha superioridade. (Apagam-se as luzes
gradativamente até a escuridão total que permanecerá por um tempo
prolongado – três minutos no mínimo).
Cena 9
(Isolina, Patrício e Baleia)
(A Alegoria e o Boneco Preto estão
ausentes. Isolina lê. Entra Patrício alcoolizado. Isolina olha e
continua lendo. Patrício senta-se. Isolina depois de tentar
continuar a leitura, desiste, fechando o livro com violência. Apanha
umas louças de sobre a mesa e vai sair pela porta dos fundos, quando
entra o Baleia.)
BALEIA – Ninguém se mexe! (Olha por
todo lado. Tem uma arma de fogo na mão – um revólver ou semelhante.
Sai pela porta e volta.)
PATRÍCIO – Baleia!.. Então é ocê que tá aí?
BALEIA – Oh, velho! (Beija a mão de
Patrício e abraça-o) Mas como é que é? Ninguém avisou?
PATRÍCIO – É, avisaram.
BALEIA – (Para Isolina) Oi.
ISOLINA – (Voz molhada. Decepcionada.)
Oi, Baleia!
BALEIA – Não vai nem conversar? Deixa o
choro pra depois. As coisas estão melhorando.
ISOLINA – Melhorando o quê, Baleia? Eles
já vieram aqui de novo. Botaram tudo de perna pro ar. Estão no teu
pé outra vez.
BALEIA – Não esquenta! Agora eu tô
transando um advogado da pesada. O homem tem uma lábia incrível e
manja horrores do metiê. Logo o Baleia aqui vai estar em liberdade
condicional (Patrício ri satisfeito).
ISOLINA – (Para Patrício) Tá
achando graça, né pai? O dia que o senhor vê o seu filho morto, aí o
senhor vai chorar.
BALEIA – Que orto, o quê! Deixa de ser
cagona. Se eu morrer nessa jogada... (Pausa) Quer saber duma
coisa, eu não vou (Agressivo) morrer, entendeu!?
PATRÍCIO – Calma, Baleia, calma. Não vão
brigar de novo. Ocês já tão tudo grande.
BALEIA – Tá bom. Fala da vida, velho. E
a saúde?
PATRÍCIO – Agora, com esse negócio de tê que
mudar, nada vai muito bem.
BALEIA – Foi porque não pagou o aluguel?
Eu bem que mandei entregar um dinheiro. (Para Isolina) Vai
dizer que não recebeu!?
ISOLINA – (Colocando um pequeno
embrulho sobre a mesa) Dinheiro roubado... eu não quero.
BALEIA – Cala a boca!
ISOLINA – É isso mesmo. Não quero. Prefiro
morar a vida inteira no Fundão do que tá vivendo do teu roubo.
BALEIA – Tá me chamando de ladrão, sua
putinha?!... (Parte para cima de Isolina. Patrício aparta.)
PATRÍCIO – Calma! Desse jeito... Vocês são
irmãos!
ISOLINA – Ele é filho do senhor.
BALEIA – Não queria mesmo ser irmão de
“piranha”.
ISOLINA – Você não prova. Tá pensando
qu’eu sou tuas amiguinhas, é?
BALEIA – Nervosinha.
ISOLINA – Tô mesmo. E de mais a mais, se
eu quiser dinheiro eu trabalho. Não sou aleijada nem quero dar a
minha cara pra polícia bater.
BALEIA – Eu sei o que é. É orgulho. Você
não passa duma fossa de orgulho. Bostinha... O que que o meu
dinheiro é menos do que o dinheiro dos outros?
ISOLINA – Não é teu.
BALEIA – Moralzinha besta. Patrão suga a
gente até o último e ninguém diz nada. Fica agora você querendo dar
lição de moral, sua tonta! Nem sabe daonde eu tirei!
ISOLINA – A polícia deve saber.
BALEIA – (Para Patrício) Pega o
senhor, velho. (Patrício abaixa a cabeça e se mantém imóvel)
Até o senhor...
ISOLINA – Porque você não pára com essa
vida. Vão acabar te matando. Tá a fim de ser manchete de jornal:
“Nego Baleia baleado pela polícia”. Fica bonito?
BALEIA – Nego Baleia...
ISOLINA – É. É assim que eles vão pôr. Ou
então, monstro negro, vulgo Baleia. E daí, o que é que você vai
ganhar com isso? O que é que a gente vai ganhar com isso?
BALEIA – Eu já disse que não vou morrer!
(Atira contra Isolina o maço de notas) Pega o dinheiro,
porra! (Sai).
NA PLATÉIA/PALCO E NO PALCO/PLATÉIA
Cena 10
(Personagem 1, Personagem 2, Isolina,
Patrício, Baleia e Dois Homens)
(A ação se dará no público, em sua maior
parte. No palco Patrício e Isolina sentados de frente para o
público. Personagem 1 e Personagem 2 estarão vestidas com túnicas
coloridas, no público. As vozes são acompanhadas com diferentes
toques de percussão. A Alegoria não está presente. O Boneco Preto
encontra-se bem atrás de Patrício e Isolina, sentado numa cadeira,
distanciado, porém na mesma direção horizontal em que se encontra,
também sentado, o Baleia. Esta cena inicia-se com percussão
variada.)
PERSONAGEM 1 – Nós vamos quebrar
As correntes da mente
PERSONAGEM 2 – Superar a dor de escravo
E afirmar o negro gente
PERSONAGEM 1 – Gente que nunca foi bicho
PERSONAGEM 2 – Gente que nunca foi lixo
PERSONAGEM 1 – E pisado no preconceito
Resiste
Contra o esparadrapo
Grudado na voz da noite
Aprisionando a história
Que as estrelas sabem contar
PERSONAGEM 2 – (Em tom de conversa)
Então será que não acabou a escravidão?
PERSONAGEM 1 – Nada acaba de supetão!
PERSONAGEM 2 – Continuou?...
PERSONAGEM 1 – Com roupa nova que se chamou
exploração. (Irônico)
De classe!...
PERSONAGEM 2 – (No mesmo tom) Com
classe!...
PERSONAGEM 1 – Por isso minha gente
A nossa ação primeira
PERSONAGEM 2 – É erguer a nossa história
Levantar nossa bandeira
PERSONAGEM 1 – E o tempo que não tapeia
Deus a cada grão de areia
A memória do quilombo
PERSONAGEM 2 – Palmares vamos lembrar
Dignidade vamos contar
PERSONAGEM 1 – A liberdade conquistada
Com a luta e a coragem
E não dourada pena
Duma princesa encantada
(Com sotaque luso)
Filha da c’roa portuguesa
(Com sotaque inglês)
Em prol da burguesia inglesa
PERSONAGEM 2 – E para o antigo escravo
Um sofrimento sem par
Racismo, trabalho duro
Em nome da raça pura
Que nos impõe a atadura
PERSONAGEM 1 – Palmares hoje vive
Porque foi luta de ser livre
PERSONAGEM 2 – E as luas já retornam
Aquilombando clarões
PERSONAGEM 1 – Ressentir!... (Canção-lamento)
Estamos na Capitania de Pernambuco... No criminoso reinado da
escravidão... Perto e mil e quinhentos e lá vem fim...
PERSONAGEM 2 – Foge um... Fogem dois...
Fogem cem... Fogem mil... Foge muito mais de mil...
PERSONAGEM 1 – E a República de Palmares
cresce no chão do Brasil! (Batuque forte e alegre. Breque súbito.
Luz clara no palco. Dois homens agarram Baleia e imobilizam-no.
Patrício e Isolina voltam-se para trás. Ouve-se a Voz Feminina em
grito.)
VOZ FEMININA – Segura o sinhozinho aí,
Patrício!... (Apagam-se as luzes)
NA SALA
Cena 11
(Isolina, Boneco Preto e Alegoria)
(Sentados à mesa encontram-se o Boneco
Preto – debruçado – e a Alegoria – cabeça erguida. Há uma mala
próxima à mesa. Barulho de pancadas. Isolina entra pela porta dos
fundos perseguindo um rato com uma vassoura. A Alegoria agita-se
sentada. Isolina mata o “rato” e varre-o em direção ao público,
lançando também a vassoura. A Alegoria sai apressadamente e perde-se
no público).
ISOLINA – (Para o Boneco Preto)
Bem, pai... Vamos embora. Sabe, eu queria te dizer uma coisa. É
sobre o Baleia. Coitado do Baleia... Ele pensava que estava certo.
Mas tinha gente interessada nos assaltos dele. É como disse um amigo
meu: a fábrica da exploração não se enjoa de matéria-prima. Taí o
senhor que não deixa mentir, né, pai? Não sei quantos anos de
fábrica e acaba no fim, vá (gesto com o polegar em direção à boca)
sustentar fábrica! Às vezes fico pensando na mãe que já se foi, no
Baleia... É mesmo tudo resultado do passado. A fábrica não pára e
não se enjoa e matéria-prima. Vamos embora que o Fundão não foi
feito por cachorro. Devagar a gente ainda faz o Fundão virar mundo.
Vamos, pai. (Dirige-se ao Boneco Preto, toma-o nos braços. Vai
saindo. Volta-se, apanha um livro.) É preciso levar o que não
foi dito porque a história não acabou. (Sai. Apagam-se as luzes.
Ouve-se o grito longo da Voz Feminina:)
VOZ FEMININA – Segura o sinhozinho aí,
Patrício!...
– fim desta peça –
Voltar ...
Cuti. Dois
Nós na Noite e Outras Peças de Teatro Negro-Brasileiro. São
Paulo : Eboh, 1991. 152 pág.
(Ver Crítica desta peça por John Rex Amuzu
Gadzekpo)
(sinopses)
Dois nós na noite:
uma mulher, tendo a seus pés o marido desacordado, expõe seu ciúme
em face da recordação de suas rivais. Ver análise da peça em
Teatro/Crítica.
Transegun: um grupo
de movimento negro, dedicado a montar peças de teatro, enfrenta
crise quando um dos membros do grupo contrai o vírus HIV.
Madrugada, me
proteja!: um homem, após despedir-se de um amigo, depara-se com um
ladrão, com o qual passa a dialogar, revelando as várias facetas do
assalto que sofre.
Canção da saga:
monólogo histórico-poético a respeito da vida afro-brasileira diante
da realidade racial do Brasil.
Nódoas: um adultério
resulta em frustrada ação vingativa que mergulha no mundo surreal.
Estas peças
estão registradas na SBAT-Sociedade Brasileira de Autores Teatrais,
responsável pela autorização para leituras públicas e montagens.
Aqui são apresentadas duas peças: Dois Nós na Noite e
Madrugada, me proteja! (monólogos)
DOIS NÓS NA
NOITE, p.11-24
(monólogo em 1 ato)
Personagem
JUDITH
Mulher negra
aparentando idade entre 30 e 40 anos. Cabelos crespos.
Cenário
SALA
Residência de
classe média. Um sofá, poltronas, etc. O televisor deve estar, a
princípio, longe do sofá.
PRIMEIRO QUADRO
Judith, de pé, olha corpo de um
homem negro estendido sobre o sofá. Senta-se num poltrona.
JUDITH Por que, meu amor? Por quê? Que revolta
eu te causo, assim tão violenta? De repente me pego pensando ser a
razão de tudo, de tudo o que te magoa. Até o fato mesmo de não
ser...
Levanta-se, como diante de uma idéia
ousada que não tem muita segurança em expressar. Caminha sob um
foco.
JUDITH É... Bem... Sabe, eu sempre senti isso
em você, mas... Como é que eu ia dizer, sem me sentir diminuída, sem
que você me chamasse de complexada, de atrasada, de... De tudo!?
Mas.. Você se lembra das fotos? Você guarda fotografia de todas
elas! Todas...? Bem, não sei, talvez... E eu devo conviver com isto.
Ora, fotos, o que são fotos? Vivem na gaveta com teus papéis, na
gaveta de teus documentos... São documentos também. Talvez decretos,
projetos de lei, leis, medidas-provisórias ou talvez mesmo... É,
quem sabe, a tua própria constituição. Você as mantém desde quando
namorávamos. Você, tão trabalhador, tão honesto e, ao mesmo tempo
sedutoramente despojado, colorido, à vontade, cabelo black is
beautiful, uma conversa louca, um mundo verbal, fantásticos
universos saindo-te da boca como pássaros brilhantes espargindo luz
por todos os lados, deixando-me multicor nos meus afetos, na minha
redenção, tirando-me do cativeiro que a educação tinha me colocado
junto à solidão. Você, você, você maravilhoso, príncipe dos meus
sonhos... Meu hippie, meu iuppie, meu homem fervoroso de tantos
fogos inusitados, tesão sempre nova, a primeira cama onde se abriu a
minha rosa-choque, minha romã-desfolhada-em-flor...Lembra do
apelido?... Ah, sempre eu me sentia frutofolhaflor nos teus braços.
Nossa nudez única, sem abismo, sem sobressalto, denso rio de prazer
noturno...
Volta-se, procurando o interlocutor.
O safá e o homem se perderam na escuridão.
JUDITH (Orgulhosa) Viu como eu sou poeta? Viu como sei pintar minhas emoções,
com liberdade entre os lábios, com este vento interior que move a
capacidade de falar, de refletir, de analisar, de ver o mundo? Eu
posso me expressar livremente.
A luz sobre Judith vai se
extinguindo ao mesmo tempo em que ressurge sobre o sofá, onde se vê
um enorme peixe fisgado, na mesma posição anterior do homem. A linha
se perde no alto.
JUDITH (Do
escuro) Eu posso. Sim, eu posso!
O rosto de Judith reaparece num
espelho suspenso.
JUDITH (Profundo
decepção) Sim, eu posso... (Soletra)
Des-de-que-vo-cê-es-te-ja-dor-min-do... (Vai
pintando os lábios com um batom vermelho e brilhante)
E por que isso?
Inicia-se o som de carretel de vera
de pesca, bastante acelerado, mas o peixe vai sendo içada
lentamente, marcando assim um contraste de ação (som e movimento). A
imagem de Judith desaparece do espelho e a personagem ressurge.
JUDITH (Agressividade
crescente) Sabe por que, meu amor? Quando você dorme, quando
você chega com sua bebedeira encharcada, sua lama alcoólica de tanto
desespero sem razão aparente, e cai balbuciando palavras de tons
polidos, entremeadas de “meu amor, eu te amo” e me designa por uma
lista imensa de flores brasileiras, como se procurasse uma que me
definisse... Depois deste turbilhão de pouco fôlego, meteoro de
palavras no teu céu confuso, aí, no momento em que te sei incapaz de
me ouvir e ver, então tenho a certeza inquestionável de estar só,
inteiramente só com todos os teus documentos. Sim, os documentos que
você guarda na gaveta, aqueles rostos acariciados por tuas mãos...
Penso: teriam sentido um prazer real num beijo real, lábios com
lábios, língua com língua, saliva com saliva? Quando o conheci, você
bebia pouco. Talvez antes nem bebesse essa mistura explosiva que te
eleva às alturas ao mesmo tempo que te joga neste estado. Tenho a
certeza de que este sono é apenas a incapacidade progressiva de me
ver. O arrependimento tardio. Eu sou bonita, não sou? Mas, e as
fotos, e elas todas, os documentos mais importantes da tua vida?
Onde vai, meu amor? Que céu é esse que você procura com tanta
bebedeira inexplicável, esse tropeçar em angústias?...
Pausa. O som do carretel de vara de
pesca diminui de intensidade. O peixe está alto. Ganha brilho.
Balança, sem movimento ascendente.
JUDITH (Dirigindo-se
ao público) Eu sei. Eu tenho certeza. Você foge de mim. Foge sim,
nem adianta mentir. A ternura agora já não pode mais me seduzir.
Chega! Quem quiser te encontrar... Não, não precisa caminhar nos
teus sonhos, não necessita percorrer a tua biografia, passar pelos
teus sucessos profissionais e decepções, ou lembrar a infância
difícil, nem necessita percorrer as reuniões do Movimento Negro,
aonde nos conhecemos. Não é nessas paragens que podemos encontrá-lo.
Não é aí que se situa o céu no qual você mergulha, mergulha,
mergulha... (Em desespero)
Mergulha completamente bêbado! (Pausa) Não... Quem quiser topar com você é só abrir a tua gaveta,
é só abrir teus guardados...
O peixe mergulha no alto e
desaparece em meio a forte luminosidade, um espargir de luz.
SEGUNDO QUADRO
Judith ressurge cercada de sete
manequins brancos e femininos. Cada manequim traz uma peruca
diferente. Estão vestidos para vitrine, em posições diversas, porém
harmônicas no seu conjunto.
JUDITH (Ainda
para o público) É só olhar para o rosto de cada uma delas, é só fixar
o olhar 3 X 4 de cada uma delas para perceber onde se encontra o
final da viagem que você inicia no vício e passa por essa reiterada
tentativa de suicídio. Aqui, eu sei, é o descanso da tua enorme
mentira que eu sou, querido. (Dirige-se
a um dos manequins)
Não é mesmo, Kátia? Qual o descanso que você proporcionava a ele,
hein? (Retira a cabeça do manequim e passa a dialogar com ela)
Ah, certamente é este céu que ele procura em mim e não encontra. O
azul. Onde se escondem os anjos, a pureza, o dia que a todos
regozija... É isso, Kátia? Só pode ser. Você tem os dentes podres,
um nariz de tucano... Ah, ah, ah... O teu bafo de sardinha
estragada... Ah, ah, ah... Ele me contou... Você abria a boca e
ele... (Ao público) Não é, meu amor? (Voltando-se
para a cabeça do manequim)
E ele quase desmaiava. Teve uma vez que até sentiu ânsia de vômito e
saiu com uma desculpa de que havia comido sardinha deteriorada. A
sardinha era você, minha santa, era você!...
Judith atira a cabeça do manequim.]
JUDITH (Para
si) Só podia ser este azul. Ou, quem sabe...
Vai em direção à cabeça que fora
lançada e dela retira a peruca, colocando-a sobre a sua própria
cabeça.
JUDITH (Para
si) Talvez... Pode ser que eu fique bem assim, mesmo sem o
azul... (Dirige-se a outro
manequim)
Você não acha, Cristiani? Afinal, no meio dos olhos sempre haverá um
negro sem fim, o milagre preto da visão. O que está em volta é só
enfeite, seja castanho, verde, claro, escuro e até azul. É através
do preto que o mundo se forma no espírito, é através do preto...
Apanha o manequim e cola-o em
posição mais visível, distanciado dos outros.
JUDITH Através do preto que se bebe a imagem
do mundo. É o preto que nos amamenta de formas novas... É o preto
que nos amamenta.
Vai retirando a cabeça e os braços
do manequim. Por fim, separa o tronco da parte inferior e abraça-o.
JUDITH (Para
o torso do manequim)
Não é mesmo o preto que nos amamenta? Diga, Cristiani!
Pausa. Põe-se a fitar longamente as
mamas do manequim e começa a sugá-las sensualmente.
JUDITH (Enlevada,
para o público)
Está bem, querido, está bem... Assim... Eu sei que você queria era
isso mesmo. Não era? Tetas leitosas, sem contraste com o leite, não
é mesmo? Não foi isso, querido, não foi?...
Abandonando abruptamente a
sensualidade.
JUDITH (Para
o busto) Ele chegou a pronunciar o teu nome, entendeu? Eu me chamo
Judith! Não tenho seios volumosos como os teus... (Desafiadora) Mas, por outro lado, queridinha, ah... ah... ah... Eu tenho
bumbum, sabia? Sabe o que ele me falou de ti? Ah, não sabe? Ele me
disse que quando passava as mãos pelo teu traseiro, ele se
confundia. Só faltava os pelos para parecer com teu dianteiro. Em
você não se aproveitava nada além dos seios. Feia! Feia! Horrorosa,
achatada, vaca leiteira!...
Atira o torso do manequim. Passa em
revista os cincos outros manequins.
JUDITH Preciso furar os olhos de todas vocês.
Vocês olham, mas se negam a ser vistas. O olhar de vocês está sempre
algum degrau acima. Minha sensação é a de quem gravita em volta,
satélite dessa tal beleza, essa sedução, essa coisa que me violenta
e me impulsiona a ser o que não sou. Essa necessidade de ser igual,
igual, igual...
Pára, como se tivesse esquecido de
dizer algo para alguém que se distancia.
JUDITH (Apelativa) Cristiani, espere... Esqueci... Você pode me emprestar?
Bem, pode ser que seja útil para mim. Ahn? Ah, sim. Um dia eu te
devolvo.
Apanha a peruca do chão e coloca-a
sobre a que está usando. Arruma-as.
JUDITH Obrigada, querida. Ah, sim, ele vai
gostar. Tenho certeza. Adeus. Lembranças em casa. (Voltando-se
para o público)
Fiquei bem, querido?
TERCEIRO QUADRO
No palco surge apenas a luz de um
televisor fora de sintonia. Comerciais em off, vai sendo revelado o
sofá sobre o qual está situado o televisor, o mesmo lugar em que,
antes, estivera o homem e depois o peixe.
COMERCIAL 1 (Voz
sedutora)
Shampoo Nuage deixa seus
cabelos macios, sedosos, irresistíveis... Com Nuage ele se sentirá
muito mais próximo do céu e te entregará todas as estrelas de
carinho... Nuage, o seu shampoo... E o dele.
COMERCIAL 2 (Voz
agressiva)
Não deixe seu
cabelo assim!: duro, quebradiço, sem cor e sem brilho! Use o
alisante perfeito para qualquer tipo de cabelo. Alisabosa, o único
feito com babosa selecionada. Vá correndo à primeira farmácia e... (Aliciante)
Deixe o vento ventar...
COMERCIAL 3 (Voz
serena)
Em matéria de cabelo, eu
descobri. Prático, tanto na embalagem quanto no uso. Nada de ficar
ensaboando, lavando. Não. Você passa após o banho e... Quando ele
chegar, você perceberá o efeito naqueles olhos que serão só seus.
Hum... Faça o teste. Amaciante Look for Me, a lembrança dos cabelos
mais íntimos...
A tv é desligada.
QUARTO QUADRO
Judith sustenta a metade de um
manequim (da cintura para baixo). As pernas deste estão sobre os
ombros da personagem, que mantém o rosto voltado para o colo do
manequim. Os quatro outros encontram-se agora totalmente cobertos,
cada qual com um pano roxo, tipo saco, até os pés. Estes manequins
movem-se muito lentamente.
JUDITH Marina, você é minha maior inimiga. Era
aqui que ele mais feliz se morria. O que você possuía no meio dessas
pernas que o seduzia tanto? Me contaram que você era prostituta de
luxo... Não importa o luxo. Era prostituta! Ele, assim mesmo, vinha
fundear a vida entre seus loiros pêlos, esse “trigal macio”, como
dizia um poeta. (Pausa)
Você deve ser muito funda, de forma que ele não te alcance nunca,
por mais que penetre a tua carne. Assim, ele deve vir sempre tentar
de novo, tentar te machucar... Deve ser isso. Porque ele me
confessou que a única coisa que queria com todas vocês era atingir
um objetivo muito definido: fazê-las gemer! O quê? Prazer? Não, não
era de prazer. Era de dor. Ele me disse. (Pausa)
Me disse? Ora.. Ora... Era como se tivesse dito. Não é preciso o uso
da palavra para demonstrar o impulso que nos projeta adiante...
Exatamente como ele devia se projetar em você: “A mulher mais funda
que eu conheci”. É, ele me falou isso, meu bem? Ou quase isso?
Talvez nem tanto, ou não com essas palavras... (Para o colo do manequim) Ora! Não devo me preocupar com uma puta. Loira, mas puta.
Atira a parte do manequim. Pára.
Apanha-a. Analisa-lhe as “reentrâncias’. Mira a “vagina” do
manequim.
JUDITH (Chamando) Meu bem, volta! Sai daí, por favor. Esse lugar não tem
saída. O suicídio é o final deste túnel. Os gemidos são todos
falsos... Meu amor, volta! É de ti que eu preciso.
Lança de novo a parte do manequim.
Apanha, em seguida, uma peruca loira.
JUDITH Se você quiser eu me enfeito mais, dou
um trato no visual... Olha, vê se eu fico bem assim?
Neste momento os manequins cobertos
já estão distanciados uns dos outros. Judith coloca a terceira
peruca sobre as duas que já estão sobre sua cabeça.
JUDITH (Sedutora) Você gosta? Então, meu bem... Sai daí, sai... Essa gaveta
te sufoca. Essas fotos te mantêm aprisionado. Eu te quero livre no
meio do meu abraço. Não é ciúmes, não. Acredita. Sai, meu amor,
sai...
QUINTO QUADRO
Luz sobre o sofá, onde o corpo do
homem reaparece, na mesma posição do início. Um balão de gás, em
forma de coração, mantém-se um metro de altura do corpo, flutuando,
a ele ligado por uma “corrente”, na direção do peito. A corrente
deve flutuar também. Judith surge com um véu de grinaldas sobre as
perucas. Tem nas mãos um buquê de flores.
JUDITH (Contrita.
Para o público)
Heloísa, Marina, Julieta, Cristiani, Eugênia, Kátia, Marília... Sim,
padre! Sim, padre! Sim, padre! Marília, Kátia, Eugênia, Cristiani,
Julieta, Marina, Heloísa... Sim, padre! Sim, padre! Julieta, Marina,
Heloísa, Cristiani, Eugênia, Kátia, Marília... Sim, padre! Aceito
como meu legítimo esposo este homem negro, meu príncipe encantado,
até que a sorte nos separe ou nos apare as arestas, ou nos ampare na
ternura e no sexo e nos livre destes fantasmas. Sim, padre! Sim,
padre! Sim, padre!
Balançando a cabeça, Judith vai
tirando da cintura uma faca, e continua o movimento afirmativo, ora
ao vazio, ora à faca. Atrás da personagem, como os quatro cantos de
um ringue, surgem os manequins cobertos. Uma corrente branca,
grossa, liga-os. Bate o sinal para o início da luta. Judith entra no
ringue com a faca. Vai lutar contra os manequins cobertos. Um por
vez.
JUDITH Deles eu sempre tive repulsa. Não tive
e não quero ter a pimenta no sexo para temperar a voracidade deles.
Todos chegaram cheirando à podridão do passado, querendo mais uma
preta, mais um hímen para sua coleção. Ou então, ah, uma mulata na
passarela da sedução. Não. Não.
Judith levanta a faca, sustentando-a
na direção do manequim. Com a outra mão, toca-o com cuidado.
JUDITH Ele é meu. Meu. Resto de vocês, mas é
meu.
Rasga o pano que cobre o manequim.
Revela-se a cabeça careca de um manequim feminino e preto. Judith,
assustada, recua. Recua até tocar com as costas em outro manequim.
Volta-se e trava com ele outra luta de palavras e gestos.
JUDITH Trégua? Não. De onde me vem este querer
um homem negro por pior que seja meu precipício? Mas vocês, a
brancura de vocês... (À parte) Não é,
meu bem?
O balão-coração desliga-se do corpo
e sobe. Um foco de luz persegue-o. O corpo jaz na máxima penumbra.
JUDITH Essa brancura sem bunda, com mau
hálito, dentes podres, putana, caolha, aleijada, ladra, magricela,
tudo o que quiser... Seduzindo a sede, seduzindo.. Cedo, muito cedo,
ele ainda menino (tenho certeza!), o olho aceso nessa beleza...
Judith rasga o pano de outro
manequim, que revela-se igual ao anterior, novamente apavorando a
personagem, fazendo-a recuar.
JUDITH De nada adiante se esconder de mim. Eu
aceito sim, padre! Eu aceito, sim. Não adianta fugir. (Para
outro manequim ainda coberto).
Sei que você se encobre. Eu sou eu e não você. Seu rosto não é o meu
rosto. De todos aqueles estupros na senzala, o que posso sentir é
nojo, imenso nojo da miséria violando nosso útero, a humilhação
castrando nosso desejo de viver. Nojo, imenso nojo. E esta sensação
amarga nas entranhas da alma: ver meu homem querendo o amor na
desforra para provar a sua virilidade, essa maneira estúpida de
conquistar o prazer de viver... (Pausa
tensa)
Mostra a tua cara, beleza do chicote, do tronco e dos inúmeros
suplícios e vícios...
Judith rasga o pano roxo do terceiro
manequim coberto. É também um manequim preto. Ato contínuo, volta-se
para o último, cravando-lhe a faca no peito. Soa o sinal de término
de assalto. Judith arranca as perucas e sai do ringue.
SEXTO QUADRO
JUDITH (Escuro.
Em off, gravação de telefonema)
Sim, mamãe. De novo... Só que reclamava de dores. Sempre reclama.
Disse que foi atropelado. Mancava. Repetiu as mesmas coisas de
sempre, que me amava, falou o nome das flores, perguntou pelas
crianças e adormeceu gemendo. Está com a roupa um pouco suja... Sim,
também falou aquelas bobagens, pronunciou aqueles nomes... Sim,
parecia estar mais embriagado do que nunca. Mamãe, o que faço? Estou
sem coragem para nada. Ele está frio, gelado, não está gemendo
mais... Eu não sei, não sei, não sei...
Luz sobre o sofá, onde se encontra
apenas uma gaiola branca com um pássaro preto dentro. De pé, um
manequim preto, nu, de grinaldas (é um manequim feminino), com uma
faca espetada nas costas, sustenta um buquê de flores,
direcionando-o para a gaiola. Ouvem-se vários cantos de pássaros num
crescendo.
- fim desta peça -
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(Bilingüe: Português /
Inglês)
Personagem
CELSO: Rapaz negro. Idade entre 30 e 40 anos. Usa
terno e gravata.
Cenário
Uma rua de bairro grã-fino. Um muro alto
guarnecido com grades.
QUADRO ÚNICO
É madrugada.
CELSO
(Em off)
Não se preocupa não, rapaz! . . . Eu tomo um
táxi. Vai dormir . . . Não, não estou de porre, poxa! Tchau! Até
segunda. Vai descansar que você bebeu demais . . . Isso! . . . Tá
bem . . . Não se preocupa com isso . . . Não, não precisa chamar . .
. Vou indo. Toma um café amargo que passa . . . Bom descanso! Tchau,
tchau, tchau . . .
Pausa. Celso surge, o paletó sobre o ombro, tentando--com
dificuldade--afrouxar a gravata. Ouve-se o barulho de um automóvel
que se aproxima.
CELSO
--(Dando sinal) Táxi! . . . Táxi! . . .
Táxi! . . .
O som do veículo se afasta.
CELSO
--Merda! Vaziozinho . . . Esse aí tem a mãe na
zona. Corno do cacete! Só pode ser um chifrudo um cara desse. Porra!
Vê uma pessoa na rua a uma hora dessa . . . (Olha no relógio)
Três e meia! É um canalha. Eu não estou mal arrumado nem nada?! Pô,
quando o cara tá todo esculachado, aí vá lá .
. . Dá pra pensar que é marginal, de noite, rua deserta . . . Mas,
um crioulo na maior estica . . . ? Terno em cima, cabelo cortado,
barba feita, desodorante do mais caro, grana no bolso . . . Vem um
safado com um "poisé» caindo os pedaços-que o meu vale 100 daquela
porcaria-vem, precisando ganhar o leite das crianças, eu dou sinal,
a figura não pára!? (Indignado) E deve ser um fodido . . .
Porque um cara pra pegar um carro e ficar à noite toda atrás de
freguesia só pode estar na pior. Ou então é ganancioso. Trabalha num
emprego de dia, dá uma cochilada à noitinha e sai à luta de novo pra
ver se enriquece. Enriquece porra nenhuma! Tá mais fácil dormir no
volante, dar uma porrada com o carro e pronto . . . Era uma vez! (Pausa)
Esses caras . . . Vai ver que aquele viado não gosta de preto. Será
que não me viu? Viu! . . . Olhou pra minha cara e virou o rosto,
como quem diz: "Te vira, negrão!" É . . . Viu sim. Acho que . . . É,
ele passou debaixo da luz do poste. Sou capaz de adivinhar: tem
trauma de infância. Vai ver que algum crioulinho enrabou ele quando
era pequeno. (Pausa. Resignado, mas com certa mágoa) Não tem
nada . . . (Descontraído) Mas que vai furar o pneu na próxima
esquina, vai! . . .
Barulho de outro automóvel se aproximando.
CELSO
(Dando o sinal)
Táxi! Táxi! . . .
O barulho se afasta.
CELSO
Ocupado! . . . Por que não apaga a luz, pô! Deixa
rolar . . . Fazer o quê? (Dá uns tapinhas sobre a própria cabeça)
Você também, viu, Celso! . . . Ir na onda do Osmar dá nisso. (Imitando)
"Deixa teu carro, Celsão. Te levo em casa depois . . . " O cara toma
todas, dá vexame na festa, você ainda traz ele em casa . . . Babá de
bêbado. O cara não pode ver garrafa de uísque, pô! Parece criança em
mamadeira. Bebe até babar. Hum . . . Ficou bebinho da Silva. Silva
nada! Bebinho pra Matarazzo! Tem grana. Só não sabe aproveitar.
Trabalha na fábrica porque quer. O pai mesmo, nem obriga. Fica lá
inventando moda, querendo dar uma de gerente . . . Nem sei porque
saio com um cara desses . . . (Pausa. Tenta avistar um táxi)
Ah, o Osmar que se foda! Lei de Murici, cada um cuida de si.
Som de passos apressados. Celso assusta-se. Barulho de arma
sendo engatilhada. Celso encosta-se no muro com as mãos pra cima.
CELSO
(Com muito medo)
Certo . . . Certo . . . Eu já entendi . . . Não
precisa atirar . . . Tá certo . . . Grana? . . . Tem, tem grana sim.
Fica frio, meu irmão! . . . Eu . . . Eu vou te dar a carteira sim .
. . Mas, pode baixar a arma, meu irmão. Eu tô
descoberto e não sou de briga . . . (Mais nervoso) Certo, certo . .
. Eu vou pegar . . . Eu vou pegar . . . Fica frio . . .
Celso, com dificuldade, retira do bolso de trás das
calças a carteira e estende-a.
CELSO
Toma aí . . . Pode pegar . . . Eu sou de boa paz,
meu chapa. Ahn? . . . Certo, certo . . . Vou jogar, mas não precisa
atirar, hein! . . .
Com muito jeito lança a carteira.
CELSO
Certo? Tá até meia forrada; legal? Pode . . .
pegar, sem susto . . . Não sou de briga não? (Pausa) Não . . . Quê
isso . . . ! Eu sou crioulo, mas não sou manhoso não . . . Já
pensou? . . . Eu, aqui de mão vazia, vou dar uma de valente, você
com um trabuco desse? Ahn? Certo, certo, eu encosto.
Celso encosta-se no muro com as mãos para cima.
CELSO
(Tentando relaxar um pouco, descendo os braços)
Já valeu a noite, certo companheiro? É . . . Meu
pagamento. Hein? . . . Pô, meu?! Mais grana? Se eu tiver mais algum
são uns pichulé no bolso. Dinheiro de cigarro . . . Nem vale a pena!
Assustado, recuando como se fosse subir de costas no muro.
CELSO
Certo, certo! (Levanta as mãos de novo)
Não leva a mal. Tô só trocando uma idéia com você . . . Vou pegar.
Mas . . . (Apelativo) . . . Dá pra abaixar a arma, meu irmão?
Eu sou de paz.
Celso coloca a mão no bolso direito-mantendo o braço
esquerdo levantado-retira umas notas amassadas e joga.
Depois-levantado o braço direito-retira uns papéis do bolso
esquerdo e joga também em direção ao "ladrão" (o público). Em
seguida retira do bolso traseiro um lenço e lança-o na mesma
direção.
CELSO
E . . . Eu te falei . . . Agora não tenho mais
nada . . . Joguei o lenço porque tá limpinho . . . Se quiser
aproveitar . . . Ahn? . . . Não, não tenho. Pode ver, ó! . . .
Celso tira a gravata e exibe o peito e o pescoço.
CELSO
Não uso . . . Aliás nunca gostei de correntinha .
. . (Tenta ganhar confiança do "ladrão") Minha mulher me deu
uma, mas . . . Nem usei, acho até que perdi.
Intimidado, mas sem pavor, volta a levantar os braços.
CELSO
Que isso!? Você acha que eu vou rebentar
correntinha diante dum trinta e oito desse . . . Tá certo, tá certo!
. . .
Até este momento, Celso está se ajeitando com o paletó nas
mãos. Vai tirar a camisa social pra fora da calça, o paletó cai.
Ele termina de tirar a camisa fora da calça e sacode-a bem.
CELSO
Olha aí, não te falei? Não tõ escondendo jogo não
. . . Ahn? Ah, sim, o paletó, você quer o paletó . . . Tá, tá certo
. . . Posso chutar?
Celso chuta o paletó. Não consegue deslocá-lo muito.
CELSO
(Assustado)
Tá, tá . . . Calma, calma, calma . . . Eu vou
jogar legal, fica tranqüilo . . . Não tô armando treta não . . .
Celso vai, com muito receio em direção ao paletó. Agacha-se,
sempre olhando em direção à suposta arma, dobra o paletó, bem
dobrado e atira-o, com cuidado, mas com força, em direção ao
"ladrão".
CELSO
(Relaxando um pouco)
E, o que tem aí é só documento . . . Tá certo,
mas se você tivesse falado em cheque eu tinha entregado o talão . .
. Você tá no seu direito . . . Não é papo furado, não. Mas eu
entendo . . . Eu também já tive dificuldade na vida e eu sei como é
que é . . . Essa recessão . . . (Procurando relaxar) Na falta
de emprego, cada um tem que se virar como pode, certo? (Intimidado)
Ah, claro, claro . . . Se você não gosta . . . Bem, aí tem mais é
que não trabalhar mesmo . . . (Pausa) É, eu ponho algum
documento na carteira. (Queixoso) É dificil, né rapaz, tirar
documento, não é? . . . Hein? Ah, essa daí . . . Bem, é . . . é a
minha noiva . . . Ah, sim, quer dizer, é a minha mulher. . (Encabulado)
É . . . Não, que isso? . . . É que deu certo. Sabe como é que é,
gostou do crioulo, a família não pôs areia, a gente chegou junto . .
. Não, não, também não é assim . . . Eu acho que não tem nada a ver.
Ela é uma branca decente . . . Mas você também é loiro e eu não
posso dizer . . . (Assustado) Não, não, não quis te ofender .
. . Só falei que não tem nada a ver. Pra mim
todo mundo é igual. Preto, branco, amarelo . . . Como? Eu? Não, não
acho não . . . Eu não sou melhor que você. É que . . . Bem, eu dei
mais sorte no emprego . . . Isso não tem nada a ver. Cor não tem
nada a ver. (Riso tentando descarregar tensão) Ah, isso aí eu
não sei . . . É, é isso mesmo: Celso Branco de Souza. Meu nome é
esse mesmo. Sei lá o que meu pai arrumou . . . Bem, tem cara por aí
que tem sobrenome "Negrão," vai ver tem olho azul, é branco . . .
Esse negócio de nome é um rolo . . . (Ri amarelo) Tem Coelho,
Leitão . . . É . . . (Pausa) Como? Não. Eu, racista? Não, que
isso!? Meu melhor amigo é um branco. Só que não tem o cabelo loiro
igual o teu. O cabelo dele é preto, liso . . . Acabei de deixar ele
em casa . . . Pra mim não tem diferença. (Acuado) Ahn? . . .
Ah, sim . . . O "bobo" . . . Ah, certo. Tudo bem, tudo bem . . .
Retira o relógio com certo tremor nas mãos.
CELSO
Posso jogar? Não vai quebrar não? Ah, pô, assim .
. . ! Se você não segurar você me dá um tiro, pô!? . . . A toa . . .
Eu não tô nem aí com relógio. É teu, meu chapa! (Pausa) Tá
legal! . . . Tá legal . . . Mas, pô, segura . . . Não vai deixar
cair . . . Você vê, eu entrego tudo, na manha, sem reagir . . . Aí,
segura, hein! . . .
Celso lança o relógio com muita cautela. Não há barulho de
queda. Celso respira aliviado. Descontrai-se.
CELSO
É, é bom sim. Comprei de contrabando . . . Não,
não sou entendido do assunto, mas a gente . . . Podendo, a gente faz
um negócio bom, é ou não é? . . . Um amigo lá do serviço que faz uns
trambiques. Chega lá na Baixada Santista e "descola" uma muambazinha
. . . Não, eu não sou chegado . . . Só comprei dele esse "bobo" e
uma caneta que eu dei de presente pro meu filho . . . Você viu a
foto dele aí na carteira . . . É taí . . . Um garotão! . . . Oito
anos . . . (Pausa) Mas . . . E aí, tô liberado?
Sem jeito. Desapontado. Indignação profunda.
CELSO
Pô, meu irmão, aqui na rua? (Tenta ganhar
tempo) Sabe como é que é . . . Iiii, rapaz, vem vindo um carro
ai . . . Certo, certo . . .
Som de automóvel num crescendo. Celso deita e se encolhe. O
ruído de motor se distancia. Ainda. no chão, expressa seu temor.
CELSO
Certo . . . Certo . . . Certo . . . Mas não atira
. . . Não atira . . .
Levanta-se. Prensado contra o muro, como se quisesse
escalá-lo de costas mais uma vez, vai despindo-se. Atrapalha-se
para tirar a gravata, camisa e os sapatos. Toda esta operação vai
sendo realizada de pé.
CELSO
Tudo bem! Eu vou tirar . . . Dá só um tempo . . .
Tá, tá, tá . . . Tô terminando . . .
Enrola, por fim, toda a roupa e joga para o "assaltante".
Está preocupado em não ser visto seminu, apenas de cueca. Olha
para os lados Treme.
CELSO
(Humilhado)
Pô, mano, vai me deixar na pior, pô! . . . Vou
ficar pelado, aqui? . . . O que que tu vai fazer com uma cueca, pô?
. . . (Intimidado) Tá certo, tá certo . . . Mas, pô, não vai
atirar, né? . . . Eu tô fazendo tudo direitinho . . . Pô! . . .
Assustado, vai tirando a cueca, olhando para os lados e pro
"ladrão."
CELSO
Tudo bem . . . Tudo bem . . .
Amassa a cueca e lança-a. Cobre a genitália com as mãos.
CELSO
Tá tudo O.K. . . . Não vai atirar, hein, pô . . .
(Implora) Abaixa a arma aí, vai . . . Eu não tenho mais nada,
poxa! . . . Não vou caguetar pra ninguém . . .
Encosta-se no muro.
CELSO
Certo, certo . . .
Vai agachando-se, encolhendo-se. Relaxa um pouco. Passos se
afastando. Celso vai se levantando.
CELSO
(Entre os dentes)
Filho da puta . . .
Ouve-se um estampido e os passos de alguém correndo. Celso
cai e fica imóvel. Pausa. Som de sirene de rádio-patrulha. Celso
levanta-se em pânico. Tenta se cobrir com as mãos, mas termina
optando pela fuga. Corre pelo palco. Um foco de luz agita-se na
perseguição. Ouvem-se mais tiros. Quando o som da sirene
aproxima-se ao máximo, Celso já está acuado, sob o foco de luz.
VOZ
(Off)
Documento! . . .
Celso, derrotado, cobre a genitália. Expressa profunda
indignação. Por fim, começa a rir, num crescendo. Traduz
indignação e graça. Chega à gargalhada de pura gozação, mantendo
sempre as mãos sobre a genitália. Súbito, petrifica-se. Vira
estátua. A luz vai amortecendo. Simultaneamente, ouve-se um hino
cívico assobiado.
MORNING, PROTECT ME
A Monologue in One Act
Character
CELSO, Black man, between 30 and 40 years old,
dressed in a suit and tie.
Scene
A street in a well-to-do neighborhood. A tall
wall with bars.
It is early morning.
CELSO
(offstage)
Don't worry, man. . . . I'll catch a cab. . . .
Go to sleep. . . . No, I'm not drunk, shit . . . So long. . . . See
you Monday. . . . Take it easy, you're the one who drank too much. .
. . That's it. . . . Okay. . . . Don't worry about this. . . . No,
you don't have to call. . . . I'm going. . . . Drink some bitter
coffee, you'll feel better. . . . Sleep well! . . . Bye, bye, bye .
. .
There is a pause. Celso emerges with his jacket slung over
his shoulder, trying--with difficulty--to loosen his tie.
CELSO
(Signaling)
Taxi! . . . Taxi! . . . Taxi! . . .
The sound of a car moving away.
CELSO
Shit! Bastard . . . Son of a bitch. His wife must
sleep around. She has to, looking at him. Fuck! He sees someone in
the street at this hour . . . (He looks at his watch)
Three-thirty! He's an asshole. I'm not badly dressed or anything?!
When a guy's all messed up, that's different . . . Then you can
think he's a bum, at night, a deserted street . . . But, a
well-dressed black man? Suit, haircut, shaved, the most expensive
deodorant, money in his pocket . . . Along
comes this jerk, with a junker that's falling apart--mine is worth a
hundred times that piece of shit--along he comes, looking to earn
enough to get milk for his kids, I signal him, the guy doesn't stop?
. . . (Indignant) And he has to be really fucked . . .
Because a guy who drives around all night looking for fares has to
have hit bottom. If not, he's greedy. He works all day, takes a
short snooze, then he's out there doing battle again to try and get
rich. He'll never get fucking rich. It's easier to fall asleep at
the wheel, crash the car and that's it . . . Once there was a time!
(He pauses) Those guys . . . Maybe that fag doesn't like
blacks. Could he have not seen me? He saw. He looked me right in the
eyes and then turned his face away like he was saying "Take care of
yourself, nigger!" That's it. He saw me. I think so . . . Yeah, he
was driving right under the street light. Let me guess: he had a bad
childhood experience. Some black kid worked him over when he was
little. (He pauses. Resigned, but with certain hurt). It's
nothing. (More relaxed) I hope his tire blows at the next
corner. . . .
The noise of another car approaching.
CELSO
(Signaling)
Taxi! Taxi! . . .
The noise fades.
CELSO
Occupied! . . . Why doesn't he turn off the light,
shit! Let it go . . . What do I do now? (He taps himself on the
head a few times) You see, Celso . . . Look what happens when
you do what Omar does. (Imitating) "Leave your car, Celso.
I'll take you home afterwards . . ." The guy drinks everything in
sight, ruins the party, and you even have to take him home . . .
Babysitting a drunk. The guy can't even see a bottle of whiskey,
shit! He's like a baby with a bottle. Even dribbles like a baby. Hmm
. . . He's become Silva's baby. No, not Silva. A little baby for
Matarazzo! He has money. But he doesn't know how to take advantage
of it. He works in the factory because he wants to. Not even his
father forces him. He's there inventing fashion, trying to act like
a manager. I don't even know why I go out with a guy like that . . .
(He pauses and tries to spot a taxi) That Omar can go fuck
himself. Murici's law, each one takes care of himself.
The sound of hurried footsteps. Celso becomes frightened.
The sound of a gun being cocked. Celso leans up against the wall
with his hands raised.
CELSO
(Very frightened)
Okay . . . Okay . . . I understand. You don't
have to shoot . . . Okay . . . Cash? Yes, I've got cash. Stay cool,
my friend! . . . I . . . I'll give you the whole wallet . . . But
you can lower the gun, my friend. I'm not
armed, and I won't put up a fight. (More nervous) Okay, okay
. . . I'll get it . . . I'll get it . . . Stay cool . . .
Celso, with difficulty, gets the wallet out of his back
pocket and extends it.
CELSO
There it is . . . You can take it . . . I'm a
peaceful sort, man. What? . . . Okay, okay . . . I'll toss it over,
you don't have to shoot . . .
He skillfully throws the wallet.
CELSO
Okay? It's half ruined anyway, see? . . . You can
take it, don't be scared. I'm not a fighter. (He pauses) No .
. . What's that? . . . I'm black but I'm not underhanded. Who would
have thought? . . . Here I am empty-handed, and I'm going to act
brave when you've got a gun like that. What? Okay, I'll lean against
the wall.
Celso leans against the wall with his hands raised.
CELSO
(Trying to relax a little and lower his arms)
The night was already worthwhile, don't you think
so? . . . My payment. What? . . . Shit?! More money? If I have any
more it's some change in my pocket. Cigarette money. It's not even
worthwhile.
Frightened, recoiling as if he were going to climb the wall
backwards.
CELSO
Okay, okay! . . . (He puts up his hands again)
Don't be so offended. I'm only exchanging ideas with you . . . I'll
get it. But . . . (Appealing) . . . Can't you lower the gun,
my friend? I'm a peaceful sort.
Celso puts his hand in his right pocket--keeping the left
arm raised--and takes out some wadded up bills and tosses them.
Then--raising his right arm--he pulls some papers from his left
pocket and throws them also in the direction of the "thief" (the
audience). Then he takes a handkerchief out of his back pocket and
throws this in the same direction.
CELSO
That's it. I told you . . . Now I don't have
anything else. I tossed over the handkerchief because it's clean. If
you want to use it . . . What? No, I don't have any. Take a look. .
.
Celso takes off his tie and exposes his chest and neck.
CELSO
I don't use them . . . I never liked chains . . .
(Tries to win the confidence of the "thief") My wife gave me
one once but . . . I didn't use it, I think I even lost it.
Intimidated, but without fear, he raises his arms again.
CELSO
What's this? You think that I would hold back on
a gold chain with a .38 in my face . . . Okay, okay . . .
Until this moment, Celso has been arranging everything with
the jacket in his hands. When he pulls his shirt out of his pants,
the jacket falls. He finishes taking the shirt out of his pants
and shakes it well.
CELSO
You see, didn't I tell you? I've got nothing up
my sleeves. What? Oh, yes, the jacket, you want the jacket. Okay,
it's okay . . . Can I kick it over?
He kicks the jacket, but not very far.
CELSO
(Frightened)
Okay, Okay . . . Take it easy, take it easy . . .
I'll kick it better, stay calm. I'm not setting any trap . . .
Celso moves fearfully towards the jacket. He bends down,
always looking in the direction of the supposed arm, folds the
jacket well and carefully, but forcefully tosses it towards the "thief."
CELSO
(Relaxing a little)
Yes, what I've got there are my identification
papers . . . Okay, but if you had talked about checks I would have
turned over the check book . . . You're within your rights. It's not
just talk. But I understand . . . I've been through tough times too,
I know how it is . . . This recession . . . (Trying to relax)
With no jobs we each have to do what we can, okay? (Intimidated)
Oh, okay, okay . . . Yes, I have some identity papers in the wallet.
(Complaining) It's difficult, isn't it, man, to get papers?
What? Yes, that one there . . . well, . . . it is my new one . . .
Oh yes, it's my wife. (Embarrassed) No, what's this? . . . It
worked out. You know how it is, she fell in love with a black man,
her family didn't much like it . . . we arrived together . . . No,
no, it's not like that . . . I don't think it had anything to do
with that. She's a well-off white . . . but you're also light and I
can't say anything . . . (Frightened) No, no, I didn't mean
to offend you . . . I only said that it had
nothing to do with that. I think everyone is equal. Black, white,
yellow . . . What? Me? No, I don't think so . . . I'm not better
than you. It's that . . . well, I was luckier with my job . . . It
has nothing to do with that. Color has nothing to do with that. (Laughing,
trying to break the tension) Oh, that I don't know. Yes, that's
right: Celso Branco de Souza. That's my name. Who knows what my
father put together. There's guys out there whose last name is "Black"
and they're white with blue eyes . . . This name business is a crock
. . . (Forced laugh) There's Coelho, Leitão . . . (He
pauses) What? Me, a racist? No, what's this? My best friend is
white. Only he's not blonde like you. His hair is black and straight.
I just left him at his house. It makes no difference to me. (Cornered)
What? Oh yes . . . the watch . . . Okay, it's okay . . .
He takes off the watch with trembling hands.
CELSO
Can I toss it over? Won't it break? If you don't
catch it, you'll shoot me, shit! . . . For no reason. I'm not here
with any watch. It's yours man. (He pauses) Okay! . . . Okay
. . . But, shit, hold on to it, don't drop it. You see, I'm giving
you everything, not resisting . . . Catch it, okay?
Celso throws him the watch very carefully. There is no sound
of it falling. Celso breaths out, relieved. He relaxes.
CELSO
That's good. It's contraband. No, I don't know
too much about it, but we, . . . we made a good deal, didn't we? . .
. A friend at work does some dealing. He goes down to the Baixada
Santista and gets his hands on some contraband. No, I'm not in the
know . . . I only bought this watch and a pen that I gave to my son
for a present . . . You saw his photo . . . Yes, that one . . . A
real big boy! . . . Eight years old . . . (He pauses) So, can
I go?
Embarrassed. Disappointed. Profound indignation.
CELSO
Shit, man, here in the street? . . . (He tries
to stall) You know how it is . . . Man, here comes a car . . .
Okay, okay . . .
Sound of a car getting louder. Celso lies down and huddles.
The noise of the motor gets farther away. Still on the ground,
Celso expresses his fear.
CELSO
Okay . . . Okay . . . Okay . . . But don't shoot
. . . Don't shoot.
He gets up. Squeezed against the wall, as if he wanted to
scale it backwards again, he begins to undress. Confusedly, he
takes off his tie, shirt and shoes. All of this is done standing.
CELSO
All right. I'll take it off. Just a minute. Okay
. . . okay . . . okay. . . Getting there . . .
At last Celso rolls up all of his clothes and tosses them to
the "assailant." He is worried about being seen almost naked, in
just his shorts. He looks all around, trembling.
CELSO
(Humiliated)
Shit, man, you're going to leave me like this,
shit! . . . All naked here? . . . What do you want with my shorts
anyway, shit? . . . (Intimidated) Okay . . . okay . . . But,
shit, don't shoot, okay? I'm doing everything you say . . . shit . .
.
Frightened, Celso takes off his shorts, looking all around
and towards the "thief."
CELSO
All right . . . All right . . .
He crumples up the shorts and throws them. He covers his
genitals with his hands.
CELSO
Everything's okay . . . Don't shoot, shit . . . (Imploring)
Lower the gun, go on . . . I don't have anything else, . . . I won't
tell anyone . . .
Celso leans against the wall.
CELSO
Okay, okay . . .
He kneels down, huddling. He relaxes a little. Footsteps
moving away. Celso gets up.
CELSO
(Between his teeth)
Son of a bitch . . .
There is a bang and the footsteps of someone running. Celso
falls down and doesn't move. Pause. The sound of a siren and
patrol car. Celso gets up in panic. He tries to cover himself with
his hands, but ends up deciding to flee. He runs around the stage.
A spotlight moves around following him. Three more shots are heard.
The sound of the approaching siren gets loudest, Celso is cornered,
under the spotlight.
VOICE
(Offstage)
Identity papers! . . .
Celso, defeated, covers his genitals. He expresses profound
indignation. Finally, he begins to laugh in a crescendo. The
laughter carries indignation and appreciation of the joke. This
becomes bursts of laughter from pure enjoyment. Celso keeps his
hands over his genitals. Suddenly, he turns to stone. He becomes a
statue. The light begins to die out. Simultaneously, the whistling
of the national anthem is heard.
Translated by Phyllis Peres
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