CUTI. Poemas da carapinha. São Paulo : Ed. do Autor, 1978. 135p.
 

POEMAS DA CARAPINHA


CRAVOS VITAIS

escrevo a palavra
escravo
e cravo sem medo
o termo escravizado
em parte do meu passado

criei com meu sangue meus quilombos
crivei de liberdade o bucho da morte
e cravei para sempre em meu presente
a crença na vida.



TIÇÃO

teus olhos esbugalhados
ao brilho mais libertado
do sangue coagulado
no copo da escravidão
anseiam libertação
no passo da nova vida
na ida à competição
tição que acende o grito
no rito do novo negro
de alma e de coração
couraça de sofrimento
em busca do pensamento
de ser na integração
fogo vivo no terreiro
a noite sem cativeiro
nas cheias da hesitação
– do olhar amarelo branco –
com cerne esbugalhado
guloso de liberdade.



O SACI

O Saci tinha duas pernas
Uma dava passo africano
Com os anos
A cultura
Fez a ruptura.


EU NEGRO

Areia movediça na anatomia da miséria
Pano-pra-manga na confecção apressada de humanidade
Chaga escancarada contra o riso atômico dos ladrões
Espinho nos olhos do esquecimento feliz de ontem
Eu
Eu feito de sangue e nada
De Amor e Raça
De alegrias explosivas no corpo do sofrimento e mágoa.
Ponto de encontro das reflexões vacilantes da História
Esperança fomentada em fome e sede
Eu
A sombra decisiva dos iluminismos cegos
O câncer dos humanismos desumanos
Eu
Eu feito
De Amor e Raça
De alegrias incontroláveis que arrebentam as rédeas dos sentimentos egoístas
Eu
Que dou vida às raízes secas das vegetações brancas
Eu
Ébano que não morreu no temporal das agressões doentias
Força que floresceu no tempo das fraquezas alheias
Feito de Amor e Raça
E alegrias explosivas.


O FUTURO

O futuro está no saco
O futuro está nas trompas
O futuro no entanto já está nas ruas
O futuro das ruas é imediato
Sente fome e sede
frio e falta de afeto e vive no asfalto
O futuro das ruas vende amendoim pede esmolas
toma conta de automóveis mas não toma leite
O futuro das ruas anda descalço e vira malandro
O futuro das ruas apanha dos policiais se revolta é preso é morto
O futuro das ruas se deteriora aos nossos olhos passivos
E cegos no futuro do saco no futuro das trompas.


POÇÍVEL

Estranho parece de vez em quando o tamanho do mundo
Os problemas indissolúveis
E o resto sonhos.

Entranho no meio dos sonhos e foices
E coices
E gritos gemidos açoites
Silêncio multiplicado...

Gadanho
Suor-estanho
Estranho lutar dia a dia
Quem sabe? Quem sabia
Que a descida de quem fugia abria uma cela de torturados?

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CUTI. Batuque de tocaia. São Paulo : Ed. do Autor, 1982 (poemas). 82p.

 

 

BATUQUE DE TOCAIA

 

OFERENDA

 

Leva

a lava leve de meu vulcão

pra casa

e coloca na boca do teu

se dentro do peito

afogado estiver de mágoa

 

O fogo de outrora

do centro da terra

virá sem demora

 

Porque não há

por completo

vulcão extinto no peito

 

 

 

IMPRESSÃO

 

Parece que o brilho dos automóveis foi arrancado dos meus olhos

vazados num passado

Parece que nos rios poluídos corre o sangue de minhas veias

trituradas nas indústrias

Parece que as pilastras dos viadutos são meus ossos

descarnados a mil gemidos no pelourinho da História

Parece que o verde todo verde tem raízes negras que reclamam frutos

Parece que a bomba atômica foi enfiada nos meus pulmões

E que as chuvas das enchentes são as lágrimas

fugidas dos olhos revoltados

Parece que estenderam a minha pele em tiras

e fizeram as estradas e se cobriram as ruas

Parece que meus dentes é que encerram o verdadeiro sentido da paz.

E que meus nervos esticados e enterrados sob a terra

carregam a eletricidade das bobinas do meu coração...

Parece que às seis da tarde os sinos e as sirenes

           têm um pouco do meu grito

E que a noite traz uma rede de sonhos

Para pescar esperanças que me façam cafuné.

 

 

SOPRO NATURAL

 

eu sou a pupila preta das lagoas

o sono agitado dos rios

a gargalhada branca das cataratas

o fogo fátuo dos pântanos

o suor que desce em bica das montanhas

o vento nas gargantas

o silêncio trêmulo na boca dos vulcões

marcas de passadas antigas na areia da praia

o rosto abissal dos oceanos

o olho arregalado da noite

seguindo a ginga manca do mundo

sou a cara de dentro

o grito da fala que gemeu no fundo do quintal

a fogueira que se planta guerreira

no jardim da opressão

a mata que um dia mata o concreto

estrelas que estilingam interrogações ao longe

contra o império da razão...

 

sou um gigante bocejo dum grão rebelde de terra!

 

 

 

A PALAVRA NEGRO

 

A palavra negro

tem sua história e segredo

veias do São Francisco

prantos do Amazonas

e um mistério Atlântico

 

A palavra negro

tem grito de estrelas ao longe

sons sob as retinas

de tambores que embalam as meninas

dos olhos

 

A palavra negro

tem chaga tem chega!

tem ondas fortesuaves nas praias do apego

nas praias do aconchego

 

A palavra negro

que muitos não gostam

tem gosto de sol que nasce

 

A palavra negro

tem sua história e segredo

sagrado desejo dos doces vôos da vida

o trágico entrelaçado

e a mágica d'alegria

 

 

 

A palavra negro

tem sua história e segredo

e a cura do medo

do nosso país

 

A palavra negro

tem o sumo

tem o solo

a raiz.

 

 

 

AVE

 

Não sou urubuwww.fora

pra comer a carniça do Ocidente

e a podre culpa de brancos

 

Nem sou a pomba da paz

pra churrasquinho dos ditadores

 

Sou a ave da noite

Sou ávida noite

que bate asas de vento

e traz um canto agourento

ao sonho dos opressores

e traz um canto suave

a despertar outras aves

pro revoar da justiça.

 

 

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CUTI. Flash crioulo sobre o sangue e o sonho. Belo Horizonte : Mazza Edições, 1987 (poemas). 60p.

FLASH CRIOULO

sobre o Sangue e o Sonho

 

 

AVENIDA

 

há uma gosma espessa

baba de louco

nódoa de medo

pus de ferida

uma avenida

no meio do nosso abraço

 

tua solidariedade minha

não passa

pede passagem

e se atola onde a pisoteiam

e chafurdam

os porcos do passado

que não é o nosso

 

há uma gosma espessa

baba burguesa

nódoa de medo

mágoa nutrida

imensa avenida

no meio do nosso abraço.

 

 

VEM CANTANDO

 

noite e chuva

apresso-me nos passos

um medo branco prepara o bote

na minha sombra

pés encharcados

atolo-me na lembrança dos alagados

 

as sandálias soltam gemidos que

recordam      

choro de crianças nos casebres

que se despencam

de morros

noite e chuva

meu guarda-chuva ameaça guardar-me da vida

dos outros

um impulso no sangue me joga tonto na lama e dou

de cara com bêbados e

prostitutas

umedeço-me e esfrio no pavor

vivido por meu avô

e continuo

 

caminho escutando sussurros e roncos gadanhando

a noite

enquanto nuvens choram e suam sobre a cidade

noite e chuva

o vento passa com suas mágoas

em busca de esperança no ventre da humanidade

 

minha história vem molhada pela rua

cambaleia de sono

tirita de frio

e me tateia na teia chuvosa do escuro

 

vem cantando cantigas em nagô

entrecortadas de espirros em quimbundo

tem colares de contas que encerram necessidade

e anseio

chacoalhando num ritmo o futuro

caminhadas do meu povo em suas tranças no cabelo

e uma estrela de alegria insistindo no sorriso

doce riso de gerúndio

minha história vem molhada e me procura...

com as dores tão antigas

titubeia

me incedeia num abraço

o tempo descontraído

escancarado o espaço

 

 

DA AGONIA

 

quilombos queimados...

hoje se dança uma alegria tonta

sobre a areia movediça da agonia

 

cachaça e mentira

enlameiam o terreiro

para o lucro alheio

e o samba bamboleia

meio bêbado

mulatas no picadeiro

showrando

um eterno fevereiro

 

pura necessidade: nossos ancestrais

vão acendendo seus olhos

nos porões de nossos poros.

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SANGA

Os poemas de Sanga, porque transitam entre vários espaços significantes, expõem a dificuldade de se pensar o texto literário fora da complexidade de seu próprio discurso. Fortalecem a proposta de que a literatura pode ser uma forma de resistência possível aos horrores impostos ao mundo. Optam por envolver o poeta com o mundo e suas grades e o leitor com “os luares tristes dos lupanares” e com “os olhares ensimesmados de crack”, com cenas da rua que se transformam em motivos de poesia. Por não conseguir desviar os olhos dessas cenas, o poeta fixa-as em seus versos, ainda que não desestimule a esperança e aposte em transformações (...)

O papel contraditório da escrita literária torna-se, ao mesmo tempo, referência a um trabalho que se faz em solidão, distante, pois, dos tormentos da rua, e o compromisso do poeta com as guerras nossas de cada dia.

 

 

Maria Nazareth Fonseca

 

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NEGROESIA

Lançamento do livro Negroesia, de Cuti
Editora Mazza Edições
136 p.; 14 x 21 cm

Local: Casa das Rosas
Avenida Paulista, 37
Data: 30/3/2007
Horário: Início as 19:30
Programação: Recital Negroesia (poemas e contos do autor)
Direção: Beta Nunes
Assist. dir.: Sheila Martins         
Produtor Executivo: Sulaiman Damazio

Declamadores: Akins Kinte e Cuti
Estacionamentos pagos:
Rua Leôncio de Carvalho, n°s 98, 108 e 207 (acesso pela Av. Paulista, sentido Paraíso. Referência: Itaú Cultural – esquina)

 

RELEASE                        


Negroesia é uma seleção de poemas, feita pelo autor, constando textos publicados em seus livros e, também, na série Cadernos Negros. A eles foram acrescentados onze poemas inéditos. As seções (Cochicho, Aluvião, Chamego e Axé) não são títulos de obras. Marcam uma aproximação temática dos poemas, correspondendo, respectivamente, a metalinguagem, consciência racial, sensualidade e religião).
A professora Moema Augel, Universidade de Bielefeld, Alemanha, assim escreve em Cuti, autor e ator político e social (orelha do livro): “A antologia NEGROESIA apresenta ao público um corpus de 84 poemas, selecionados pelo próprio autor que, dentre as centenas de títulos que constituem sua produção poética, escolheu os de sua preferência, acrescentando ainda uma dezena de inéditos. Os títulos das quatro partes em que se divide a coletânea deixam entrever a temática enfeixada em cada uma: Cochicho, Aluvião, Chamego, Axé.
Cuti é um escritor de muitas faces, com nove livros individuais, além de participação em várias obras conjuntas. Navega à vontade tanto nas águas da poesia como da ficção, do teatro, do ensaio, da literatura juvenil, sendo uma voz expressiva da moderna literatura brasileira e um dos principais representantes do discurso literário afro-brasileiro contemporâneo. Cuti, em sua obra, repensa a condição do afro-brasileiro, imprimindo a essa reflexão um conteúdo de contestação, questionando o lugar do negro na sociedade brasileira, recolocando-o numa perspectiva a partir da tomada de consciência de si e da sua biografia coletiva. A poesia de Cuti é um importante instrumento no processo de conscientização e de resgate não só cultural, mas, sobretudo, moral dos afro-descendentes.
Em NEGROESIA vamos encontrar uma polifonia de sons transmitindo diferentes ‘formas de dizer não’ (para utilizar uma expressão de Abdias do Nascimento nos Cadernos Negros n° 22), mas também muitas formas de ‘dizer sim’, sempre atento ao seu ‘tesouro intacto’: sim ao compromisso com sua ancestralidade, com seu tempo e com o futuro, sim ao sagrado, sim à certeza altiva de seus valores, sim ao humor e ao amor. Nessa sinfonia de muitos instrumentos e de muitos recursos, estamos diante de versos ora evocativos do passado traumatizante, lembrando que ‘a palavra negro tem chaga tem chega!’, ora provocativos ou cáusticos, conspirando ‘com a palavra proibida’, ora sensuais ou eróticos, plenos de ‘paixão e volúpia’. Versos líricos, lúdicos, lúcidos; versos-cochichos de ternura e sensualidade, também versos-aluviões de denúncia e revolta, cobrando ‘o leite derramado’, encarando a realidade pós-colonial em que o racismo jamais ‘será ético’. Em alguns momentos, ouve-se o rumor de um punho fechado, em outros, o arfar do desejo, ou murmúrios que traduzem o sagrado ou ainda a cascata de uma risada bem humorada ou o sorriso fino, pleno de ironia ou sarcasmo. E, no decorrer desses 84 poemas, Cuti, mantendo sempre vibrante a lira da subjetividade sincera e participante, sempre presente a veia criativa, original e irreverente, surpreende com inesperados neologismos, como o próprio título da coletânea anuncia.”

Cuti (pseudônimo de Luiz Silva) formado em Letras pela USP,  Mestre em Teoria Literária e Doutor em Literatura Brasileira, pela Unicamp, publicou: Poemas da carapinha. (1978); Batuque de tocaia. (poemas, 1982); Suspensão.(teatro,1983); Flash crioulo sobre o sangue e o sonho.(poemas, 1987); Quizila. (contos, 1987); A pelada peluda no Largo da Bola. São Paulo. (novela juvenil, 1988); Dois nós na noite e outras peças de teatro negro-brasileiro.(1991); Negros em contos.(1996); Sanga.. (poemas, 2002). E em co-autoria: Terramara. (com Arnaldo Xavier e Miriam Alves) - teatro, 1988; ...E disse o velho militante José Correia Leite. (memórias, 1992); Quilombo de palavras. (CD – poemas, 1997).

 

Sulaiman Damazio


Formado pela Faculdade de Arquitetura do Mackenzie, produtor executivo do Projeto São Paulo - Traços Urbanos, desenvolvendo atividades de Arte-educação através de exposição itinerante que visitou 22 unidades do CEU durante 18 meses em 2004.   Coordenou a produção dos Livros "São Paulo - Traços Urbanos, Teresa Saraiva", "Dicionário Gonzagueano, Assis Ângelo", entre outros. Em 2006 ingressou a UNIPAZ - São Paulo como Conselheiro Admistrativo; em 2007 Sócio-fundador da Unika Produções; e atua como consultor permanente de Comunicação e Marketing da TRENDS Engenharia e Tecnologia.

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Beta Nunes

Trabalhou como atriz com Antunes Filho no espetáculo Xica da Silva, que representou o Brasil no Festival Internacional de Toga/Japão, e com Gabriel Vilela no espetáculo O Concílio do Amor. Mestre em Teatro Educação pela ECA/USP com o tema “Teatro em espaços improváveis - O teatro e a adolescência vulnerável e em conflito com a lei”. Apresentou no Centro Cultural Vergueiro o espetáculo O Prometeu Acorrentado - Um Breve Exercício do Trágico, com adolescentes, em liberdade assistida, de São Bernardo do Campo. Durante 15 anos atuou como arte-educadora, trabalhando na Secretaria do Menor, Febem, Projeto Travessia, Presídio Feminino do Butantã e Tatuapé.
De 2000 à 2003 trabalhou na Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo na supervisão de oficinas culturais da Febem - São Paulo.
Durante o ano de 2005 atuou como assistente de direção da Febem - São Paulo.
É autora e diretora da peça A Mulher do Chapéu.

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Akins Kinte

Meu nome de nascimento é Fabio Monteiro Pereira, batizado pelas ruas de Akins Kinte.
escrevo poesias no site recanto das letras. a pagina é: www.recantodasletras.com.br/autores/zweli  
recito poesias na cooperifa, zona sul de São Paulo. faço parte da diretoria do time de futebol de várzea Aliados Futebol Clube da zona norte de São Paulo. sou mais um jovem que anda pelos mocambos da vida indignado com a situação do povo negro e uso a literatura de armamentos.
axé

 

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Sheila Martins Menezes

Formadora e capacitadora de grupos para desenvolvimentos de projetos em educação ambiental da Fundação SOS Mata Atlântica. Fez parte da equipe de elaboração e confecção de manuais e oficinas de Captação de Recursos, Planejamento Estratégico e Avaliação de Treinamento de Capacitadores do Projeto GETS - United Way of Canada - Centraide Canada. Assistente financeiro e de coordenação das Medidas Socioeducativas em Meio Aberto da Fundação Estadual do Bem Estar do Menor. Em 2006 trabalhou na produção e confecção do cenário para o evento de comemoração do dia Internacional da Mata Atlântica. Atualmente é responsável pela divulgação e vendas do curso de Capacitação em Negociações Internacionais CAENI/USP. É produtora e assistente de direção da peça A Mulher do Chapéu.

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Ensaio do Recital

    

    

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