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Cuti. A Pelada Peluda no Largo da Bola. São Paulo :
Editora do Brasil, 1988. 40p. 23 capítulos (novela juvenil)
(aqui são apresentados apenas 4 capítulos do livro)
I
– Então? Vamos jogar hoje?
– Vou levar o leite pra minha avó. Nem tomei café ainda...
– Vamos tirar um jogo preto contra branco?
– Ah, eu não quero jogar essa partida não. Da outra vez você viu o
Pedro? O Lucinho deu aquela pernada nele...
– Iiiii... o Lucinho até já mudou do bairro.
– Mas, e o Baiano? Ele mete o pé. Por mim...? Ele joga no meu time.
Você é que pode se estrepar. Tá certo, vocês têm o Vadão...
– Só que a gente avisa todo mundo antes que não vale quebrar. A
gente arruma um juiz.
– Preto ou branco? Se for eu, quem vai ganhar? Adivinha? – Henrique
sorri e interroga também com seus grandes olhos.
– Mas juiz não pode roubar – afirma Reinaldo.
– Todo juiz rouba.
– Vamos chamar quem, então?
– Ah, põe o Zé Carlos. Ele é japonês.
– É, mas japonês é branco.
– Branco nada! Você não aprendeu que japonês é amarelo?
– Vai dizer que ele é da cor da gema de ovo?
– Não sei...
– Então? Eu acho que você tá é com medo. Se não fosse o Lucinho
quebrar o Joca, vocês não tinham ganhado aquela pelada...
– Ah, até parece. Branco não corre nada. Branco é fraco.
– Nego é que não é de nada. Nego, quando não faz na entrada... – mas
não terminou a frase. O colega deu-lhe um soco em cima da boca e
saiu correndo, sacudindo o pacote de leite.
Depois de se levantar tonto do chão, Reinaldo limpou a poeira da
roupa. A boca doía demais. Sentiu o gosto salgado de si mesmo.
Passou as costas da mão, viu o vermelho. Andou rápido em direção a
sua casa.
II
Algumas senhoras tinham ficado intrigadas com a estória de a viúva
ter chamado os meninos. Diziam, aos cochichos, ser ela uma
irresponsável, que devia ter más intenções e outros que tais.
A história surgiu quando dona Sebastiana, mãe de um dos meninos,
voltando do trabalho com dois pacotes, passou em frente à casa da
tal viúva e ouviu a voz do filho vinda lá de dentro:
– Você já comeu. Agora é a minha vez.
Dizem que coração de mãe não se engana. Mas, se um dia pára, não
seria demais exigir que ele não derrapasse nunca?
Com o calor que fazia, dona Sebastiana ficou à sombra de uma árvore
que o finado marido da outra plantara. Encostou-se ao muro, que lhe
batia na altura dos ombros, e aguçou os ouvidos, porém não conseguiu
ouvir mais nenhum rumor dentro daquela casa.
Era um bangalô pintado de azul. Um pequeno jardim à frente, no
centro do qual erguia-se a doadora de sombra. Uma pequena escada de
lajota subia para a área, onde ficava a porta da sala, jamais
aberta, mesmo no tempo do seu Alaor solteiro. Todos que adentravam
aquela casa (eram bem poucos!) o faziam por um corredor lateral,
entre um muro alto, cheio de cacos de vidro em cima, e o paredão da
casa. Na pequena área um amplo vitrô de correr por dentro e bem
gradeado por fora.
Dona Sebastiana ergueu-se para tentar observar alguém, mas a cortina
estampada, além de grossa, não oferecia nenhuma brecha.
XXII
– Vai começar, meu? Se é pra dar cacetada...
Vadão levanta com os olhos injetados. Não diz palavra. Está perdendo
e também quer ganhar o jogo. A falta é cobrada. Bola fora.
O juiz está cansado. Pensa em desistir. Acha que sua posição é
demais incômoda. Os xingos passam a ser contra ele. Pergunta lá com
sua intimidade: “Quem inventou a pelada peluda?” Lamenta a ausência
de nisseis na rua. “Podia fazer também um time. Seria o melhor dos
três. Seria? Ou todos seriam juízes?” A ameaça de um novo gol
tira-lhe o instante de reflexão. Joaquim vai na bola, Oswaldo
empurra-o e tenta marcar, mas é derrubado por João Pena. Zé Carlos
apita, e Vadão grita:
– Pênalti! Pênalti? Pênalti!
– Não existe pênalti com gol caixote! – retruca o Baiano.
– Existe sim – interfere Reinaldo, apossando-se da bola – são dez
passos do gol e sem goleiro nem barreira.
– Ninguém combinou isso, ladrão – reage Henrique.
– Tem pênalti ou não tem? – questiona Julinho, dirigindo-se a Zé
Carlos para assegurar confirmação.
– Ninguém combinou...
– Mas precisa combinar, japonês? – Vadão irrita-se e empurra Zé
Carlos.
– Não empurra ele, não, Vadão – Baiano defende o juiz.
Beija Flor, sentado no meio-fio, está achando o jogo muito sem
graça. Sente que seu cabelo black está totalmente desarrumado. Tem
vontade de ir embora, ler um livro de ciência, se preparar... Pelé
não era bom ser, talvez ator igual o Milton Gonçalves fosse menos
pior, mas o bom mesmo era ser igual ao cientista do filme de
televisão... E recorda o doutor em física de um seriado
norte-americano.
Insistindo em seu ponto de vista, à revelia do juiz, Reinaldo conta
dez passos. Enquanto os demais tentam apartar Vadão e Baiano, que se
ameaçam, ele chuta. A bola passa entre os dois tijolos, no exato
momento em que Beija-Flor grita:
– Olha a dona Sinhá!
– Gol! – acrescenta Reinaldo e sai correndo com os outros em direção
à velha senhora, que, lentamente, caminha depois de ter deixado a
cesta atrás de si para que os meninos carreguem.
Joaquim vai à casa de Conceição e aperta a campainha, sem percebê-la
observando da janela.
XXIII
Dona Sinhá de longe repara nos dois que ficaram se empurrando. Chega
no meio do campo e espera a cesta. Os dois param a contenda. Ela os
olha. Eles disfarçam.
– O que é que assucedeu, hem, seus galinhos?
– Nada não, dona Sinhá – Vadão resmunga, sem encará-la.
– Hum! Tá bom de adoçá ‘ocês não é com cocada, não, mas sabe com
quê? com uma boa tunda!... Não sabem viver ainda? Hum!...
Os dois, olhos no chão. Chegam os colegas com a cesta. No fundo, sob
uma toalha muito alva, as cocadas de açúcar queimado e da branca.
Dona Sinhá, rodeada, distribui, deixando os dois maiores por último.
Como quem desiste, Baiano começa a caminhar em direção à rua Coronel
Branco, sentido da sua casa. Vadão permanece um pouco triste,
sentado no meio fio.
– Baiano! – grita-lhe Henrique – A dona Sinhá tá te chamando.
Ele volta. O outro também é chamado.
– Toma. Uma de cada um – dona Sinhá estende para o Baiano uma cocada
branca e para Vadão uma de açúcar queimado.
– Agora quebra no meio – continua a velha. Os garotos obedecem –
Isso. Agora, cada um dá um pedaço pro outro. Vamos. Sem vergonha,
que vergonha é roubá e não poder carregá.
Os outros meninos riem, em silêncio, do vexame dos dois, que, sem se
encarar, fazem a troca e saem comendo de cabeça baixa. Todos
saboreiam, esquecidos do placar. Todos?
– Não ganhei, dona Sinhá! – reclama Zé Carlos que fora atender a um
chamado da mãe.
– Iiii, filho, a velha fez a conta errada. Mas vamo lá em casa que
tem mais, viu. Pode vir – responde dona Sinhá, afagando-lhe a
cabeça.
– Dona Sinhá, posso comprar uma cocada? – a voz da viúva, no meio da
molecada, espanta. Todos olham-na. Só a velha mantém naturalidade e
responde, olhando a moça nos olhos:
– Vamo lá em casa também, filha – e vai saindo, seguida de Conceição
e Zé Carlos, um pouco ressabiado.
No caminho, próximos do cego parado à porta da padaria, a viúva
tenta conversar:
– Dona Sinhá, eu precisava conversar tanto com a senhora!
– Não conversa agora não, filha. Tem gente que não vê, mas tem a
língua grande.
Passam os três pelo cego, que faz um muxoxo. Por fim entram na
casinha de dona Sinhá. Alguns minutos, sai Zé Carlos com duas
cocadas na mão.
– Nem se despede da velha, guloso? – ela brinca da porta, sorrindo.
O menino volta-se e, sem atinar com as palavras, responde:
– Sayonará! – e sai para a rua sob um sol a pino.
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CUTI. Negros em Contos. Belo
Horizonte : Mazza Edições, 1996. 144p.
Negros em
Contos
BONECA
Nenhuma! Cansou de tanto andar. Perguntara muito. Ouvira respostas
de todo tipo. Algumas vezes reagira à escassa delicadeza de certos
balconistas e mesmo às ironias finas. Em outros momentos fora levado
à autocomiseração, depois de ouvir, por exemplo:
Sinto muito!...
Ou:
Queira nos desculpar... A fábrica não fornece, sabe...
Desanimar? Não. Não havia porquê desistir de encontrar o presente de
Natal para a filha. Ele estava em plena forma física de seus 33
anos. Além disso, era como se a pequena o conduzisse pelas ruas do
centro comercial. Continuar a procura, mesmo pisoteando o cansaço,
era uma missão.
Com entusiasmo, entrou na loja seguinte. Cheia! Aguardou
pacientemente. Uma mocinha branca, de ar meigo e aspecto subnutrido,
indagou:
O senhor já foi atendido?
Não. Por gentileza, eu estou procurando uma boneca...
Temos várias. Olha aqui a Barby, a Xuxinha...
E a loirinha foi apanhando diversas bonecas. Colocava-as sobre o
balcão, como se escolhesse para si. Olha que gracinha esta aqui
de olhos azuis! É novidade. Chegou ontem e já vendeu quase tudo.
Chora, tem chupeta, faz pipi... E essa outra aqui? Não é uma graça?
E levou ao colo a ruivinha de tom amarelado, bem clarinha. Mexeu-lhe
os bracinhos e as perninhas e indagou: Não gostou de nenhuma?
É que estou procurando uma boneca negra...
Meia hora de espera.
Tem sim! o dono da loja
dirigiu-se à empregada. Procura melhor, na prateleira de baixo,
lá em cima mesmo, perto da pia.
A moça subiu de novo a escada, depois de sorrir um submisso
constrangimento.
Desceu mais uma vez, recebeu novas instruções e tornou a sorrir. Em
seguida, do alto do mezanino, mostrou o rostinho gorducho,
marrom escuro, de uma boneca. Radiante, a balconista empunhava-a
como um troféu. Assim desceu a escada. Mas, descuidando-se nos
degraus, despencou-se. Todos se apavoraram. As colegas de trabalho
foram em socorro.
Nenhuma fratura. Apenas um susto. O patrão exasperou-se, mas logo
conseguiu controlar-se, vermelho como pimenta malagueta. A loja
estava cheia. Foi atender o cliente:
O senhor desculpe a demora e o transtorno. Mas, não foi nada. O
importante é que encontramos o produto. Está em falta, sabe... Eles
não entregam. Eu mesmo encomendei a semana passada. Mas o
representante disse que a firma está exportando para a África. Está
certo, mas aqui também tem freguês que procura, não é? O senhor é
brasileiro?
Sim.
Então... O homem engoliu
a frase e preparou a nota.
Já na rua, o pai, entre tantos pensamentos, alguns desagradáveis,
lembrou da descontração a que fazia jus, depois de suar expectativas
naquela manhã de dezembro. Respirou fundo. Contemplou o lindo
embrulho de motivações natalinas, em que se destacavam o Papai Noel,
crianças louras e muita neve. Seguiu, os passos lentos, em direção a
uma lanchonete.
Vai uma loura gelada aí, chefe?
pronunciou o balconista ao vê-lo sentar-se junto ao balcão.
Sorriu, confirmando com um gesto de polegar.
Ao primeiro gole de cerveja, sentiu-se profundamente aliviado e
feliz.
O DITO
PELO DITO BENEDITO
rajada de medo e este arsenal de incertezas. eu por todos e nenhum
por mim. arriado em desânimo insociável, insalubre. cadê a brisa?
dei por mim no deserto. arte é deserto. oásis amargo na própria
boca. grito de misericórdia. tiro de misericórdia. eu devia fazer
com que todos entendessem isso: mexer no cocô da memória e tapar o
nariz. o que fiz, deixando tanto sonho se afogar no mar daquela
travessia? vaguei. agora fico fincado num chão de dias iguais. raiz
no asfalto. de repente, areia movediça de desejos absurdos-mudos. um
esforço tamanho sem possibilidades. até mesmo o jogo de
cintura se foi. adoeço. contemplo o tempo escoado e vejo a foice se
apoderar do sol. entranhas na cova. ossos já frios. tenho um certo
espanto de estar a cavar em mim mesmo uma sepultura. enterro todos
aqui. meto a pá da desilusão por cima. vou sangrar no copo para
servir aos amigos que restarem nas ruas do encanto. tenho dó da
saudade. ela fica à porta de casa, mendigando. endureço o cenho e
não dou nada. pode morrer à míngua! só sei procurar a distância. não
agüento mais os pormenores dessa coisa pegajosa sempre dizendo não,
talvez, quem sabe. a obrigação de polir a pele, saco! sorrir é um
lapso-laço. muitos nele se enforcam várias vezes por dia. há os que
fizeram cordão umbilical de minhas palavras. abandonei a placenta.
desejam agora que eu me dane. sei. adoeço, infelizmente. tenho culpa
no cartório. eles podem me crucificar, mas não os salvarei, nem lhes
dedicarei o meu epitáfio. não vim aqui para imitar cristo. ele se
candidatou à pureza. eu também. jesus foi eleito e eu não obtive nem
meu próprio voto. agora ganho outra estrada. sei onde vou parar. a
meta é o impenetrável desconhecido, esse aporrinhador da nossa ânsia
de viver. preciso seguir esta trilha. ir num caminho só. perdi muito
tempo estabanando-me, ajudando o próximo. mifo! o próximo sou eu.
"tu" é uma hipótese nem sempre agradável. furtarei toda paz que
encontrar pelo caminho. vou seguir. não tenho mais pena dessa gente
que vive mostrando ferida putrefata. narcisos das mazelas. cuidarei
das minhas dores. meu egoísmo anda sangrando. tem osso já exposto.
demoro para abrir depois que fecho as mãos. tenho calos de tanto eu
bater martelo em ponta de faca. entortei algumas. outras me cortaram
os punhos. martelo às vezes escapa. um ser-sucata sou. meu alimento
é a recordação das trombadas. masco chiclete em brasa...
e por aí afora. eu nesse estado, eles vieram me estudar. eu era um
que escrevia e publicava depois de inúmeros cheques pré-datados.
ora, ora, já se viu...? vamos estudá-lo. é de outro planeta. preto
que escreve. já não foi provado que são incapazes de operações
intelectuais? quando muito, conseguem fazer como o outro que se
flagelava com a poesia. asinha de anjo começou a crescer, mas ele
desconfiou da virgindade racial da democracia e teve ereções
críticas. pronto: asinha foi encolhendo até sumir. não pôde ir pro
céu. esse de agora ainda é agressivo. vou lá ver.
eu também.
e vieram, com seus olhos azuis de vontade de serem azuis. dei alguns
poemas. analisaram e riram. não havia erro de concordância.
discordância de princípios não agradaram nem um pouco. não enverguei
a espinha como eles tinham solicitado. ofenderam-se. foram embora,
levando um pouco de mágoa e muita decepção. juravam vingança... até
que veio outro. rei na barriga. olhava-me de cima da montanha de
livros que havia lido. ou apenas anotado autor e título. veio para
me ensinar como se faz literatura. eu disse apenas:
liberdade!
ah, achou que eu era louco. espetou-me os sonhos em uma lança de
marfim e foi sacudi-los em angola, dizendo:
vocês conhecem? o dono está doente. precisa de um tratamento
revolucionário. não pára de nos acusar de racistas.
depois voltou. deu-me conselhos, bibliografia, alguns panfletos, o
boletim do militante, textos de agostinho neto e costa andrade.
tudo é uma questão de classe, escreveu como dedicatória.
li como quem vai redigir tese. almocei, jantei, quando fui arrotar:
raça!
retornou um dia o tal. espetou-me de novo os sonhos e foi sacudi-los
em nova iorque.
olha, aqui está uma visão defasada. o articulador só pensa em dor.
precisa receber uma dose de progresso black. ainda faz macumba. não
gosta de música ao piano. não curte o duke ellington. e tem mais,
andou chamando o shakespeare de racista. ainda sente rancor. não
quer alisar os cabelos nem fazer trancinhas rastafari para poder
balançá-los ao vento!
e devolveu-me os sonhos cansados de viajar. nem bem descansei de
suas investidas, carregou de novo espetadas as minhas visões
oníricas. colocou-as aos pés do ex-presidente do senegal. disse lá
que eu estava tentando imitar a negritude e era um preto prato
cheio. podia ser multado por plágio. bateu de novo à minha porta.
entrou e foi direto à estante. queria saber das minhas leituras.
ficou mexendo, indisfarçadamente com o bumbum arrebitado. eu havia
amaciado pandeiro quando era moleque. depois, não mais. será que
assim se manda? pensei e disse:
arria!
ele arriou, oferecendo-me o enorme queijo de minas. comi fatias boas
no momento. depois mandei que ele fosse peidar n'água. foi. deve ter
se afogado por lá. deus o tenha. tive uma forte indigestão. corri
pro boldo bem verdinho. que delícia!... depois me pus à frente da
máquina. meu cão aconchegou-se-me aos pés. aqueceu-me. queria uma
história, daquelas que me faziam ficar horas a fio equilibrando-me
no trapézio da criação. assim que dei início...
julião entrou sem bater. acendeu seu intelectual cachimbo e
perguntou-me se eu sabia da loucura do evandro. disse a ele que não.
então me garantiu:
ele ficou louco porque se engajou no movimento negro.
eu retruquei:
o contrário pode ser. só fica louco o negro que nunca se engajou.
vive a se esconder da consciência até perdê-la de vista.
veio a reação. nela dizia ser eu também um candidato ao manicômio,
que não adiantava lutar, os brancos tinham tudo, ascender
curvadamente era a única saída, e um monte de outras coisas juntas
aos tufos de algodão que lhe iam saindo pelas narinas. quando
exausto, caiu na poltrona. ventilei-o com o espanador de pó. ofereci
boldo. insistiu preferir uma fatia de queijo. respondi que o cara
tinha ido embora.
mas apareceu uma louquinha para experimentar você, não foi?
perguntou.
queria o queijo ou a rosa-dela. respondi:
era uma tábua, meio quadrada. não dava pra mastigar. não valia a
pena. e também se mandou, depois de analisar minhas qualidades
literárias e comparar às dos africanos. ela sonhava grandezas. acho
que se decepcionou, deu pane em seu sistema de medida.
julião acalmou sua intransigência. aceitou o boldo, mas com limão.
passou a falar em tom mais brando, lamentando o internamento do
nosso amigo. à porta de saída eu lhe disse:
pode contar com a minha visita pro evandro. posso levar alguma
coisa?
ele franziu a testa e descarregou quase gritando:
leva juízo! fala com exu. e, conforme for, leva juízo bem
ensangüentado, tá bom?
e saiu, fazendo faíscas com seus saltos carrapeta.
fui pra cozinha. joguei o café na xícara. pensei na mania de falar
gritado do julião. dizia ele ser um traço cultural afro... quando
fui adoçar tive um estalo. corri à sala. justo: julião tinha levado
o livro "o negro revoltado", do abdias. era a primeira edição,
comprada em livraria sebo. droga! então era aquilo: fez cena, falou
alto, gesticulou, tudo para roubar um livro.
meti o paletó. alguém bateu. meu cão cheirou a porta. empinou o rabo
ao máximo. gemeu de alegria. abri. era vovó.
evém eu de novo, meu "fio".
acendeu seu pito, depois de descansar a bengala. ficou fumando
histórias horas seguidas. depois pediu-me os únicos trocados e se
foi. meu cachorro acompanhou-nos até a porta e depois retornou para
fazer sua rodilha. esperei que ela sumisse na esquina. fui
atrás do meu livro.
não está. falou que ia até sua casa! e me bateu seu mau humor na
cara.
parecia estar um pouco nervosa a mulher do julião. encostei-me no
muro para esperá-lo. passou uma tartaruga carregando um
bicho-preguiça... a mulher de meu amigo abriu de novo.
desculpe. quer entrar? perguntou sorrindo.
um tanto sem jeito, lá fui eu suportar a tentação. a mulher era o
que havia de exuberância. umas pernas de dar tontura. pedi água com
açúcar depois de meia hora. os filhos fora. ela insistia conversar
sobre o marido, com as pernas bem cruzadas. eu via. tinha feito a
primeira comunhão olhando meio de lado. até que ela pediu para ler
um poema.
tomei a liberdade de me colocar no ponto de vista masculino. o
julião não gostou. mas quem sabe você...
abri a audição, que os olhos eu não conseguia mais. da voz
docelicada ouvi:
adentro esta manhã
pelo sol
aberto no horizonte
de tuas pernas
verão umedecido pelo orvalho
entro e saio
nossas mãos são pássaros
no dia despertado
súbito subimos ao máximo
penas no espaço
despencamos
no colo
da tarde
a noite vem saindo leve
lenta
pelos nossos poros
e na voz
uma canção do cosmos.
não agüentei: viva a mulher do próximo! resultado: vexame. levei uma
descompostura de sair fumaça pelos olhos e...
rua!
lá fui, com a vergonha, a moral e os bons costumes a me sovar com
cascudos de arrependimento.
acalmei a fervura do rosto no primeiro bar, sem ver quem estava a
meu redor. preciso esperar o julião antes que ele entre. senão
vai ser aquele forrobodó. da esquina dá pra ver, pensei e segui.
nem bem chego, passa a viatura. dá marcha-à-ré. descem os guardas.
pedem-me documentos, depois de colocarem duas metralhadoras
apontando-me o rosto e um cano de revólver entre as costelas.
expliquei-me, carteira de trabalho aberta. aguardava um amigo. o
mais graduado deles zombou:
não está esperando psicóloga, não é? pelezão foi um só, viu, meu
chapa! se aparecer outro, eu capo!
a língua do sujeito parecia até uma navalha de satisfação ao
pronunciar a ameaça. senti medo, depois asco de lembrar daquele
mendigo estuprado por uma mulher de classe média. o medo foi maior.
acheguei-me um pouco mais meus testículos. o policial saiu rindo com
seus parceiros, dentre os quais um afro-brasileiro mais escuro que
eu. meus dentes caninos cresceram. eu era o primeiro vampiro negro
da história. queria uma vítima que fosse rica e racista para espetar
minhas presas no pescoço. depois ela cumpriria a sina de me trazer
mais súditos. nisso, veio vindo um bêbado. pensei: é chupar o
sangue desse aí e fico de porre e não vejo julião passar.
encolhi os dentes.
me dá um cigarro, patrício!
dei.
tem fogo?
cliquei o isqueiro. acendeu calmamente e foi soltando uma fumaça
vermelha.
que isso? perguntei assustado.
é sangue gasoso, respondeu rindo. da nossa gente. apenas
estou fumando o passado, o presente e, quem sabe, o futuro. tem
muito sangue largado por aí tudo. agora o governo tá mandando pra
dentro. tem uns caras da raça que chegam: quanto é?
você diz. se valer, a pena eles te metem a agulha. só que tem de
sair com dignidade junto. senão os caras não querem.
deu outras baforadas e prosseguiu:
dignidade pra fazer cavaco, politiquice. branco dá migalha e põe
cangalha. e os patrícios é que andam vendendo a gente. já não bastou
a escravidão?
eu ia tentar discutir, mas ele não me deu tempo. afastou-se num balé
curvelíneo. algumas baratas no meio-fio puseram-se a cantar:
cai, cai, pingão
cai, cai, pingão
aqui sobre este chão.
vem roncar
vem roncar
vem roncar
nunca pense em acordar.
ele esmagou algumas e desapareceu na esquina, com uma nuvem rosa
sobre a cabeça, uma das suas baforadas.
voltei a pensar em julião. se ele já tivesse passado, na certa eu
não mais veria a primeira edição do meu "negro revoltado". voltei ao
portão da casa. tudo escuro. não, ele sempre ia dormir depois da
meia-noite. trabalhava até as tantas. contava dezesseis filhos para
sustentar e sonhava com sua entrada na academia mulata de letras. ao
me virem à tona as investidas literárias de julião, pensei: pode
ser que tenha esquecido de dizer, levou o livro emprestado. mas não
é possível. ele deve possuir esse livro. não lê quase nada mas
coleciona tudo...
e assim estava tentando superar meu egoísmo, quando senti uma ponta
nas costas.
passa tudo, meu! nem um pio. vacilar, morre. rasgo sem dó.
ainda bem que antes de
sair de casa eu tinha feito uso do vaso sanitário. mas, minhas
pernas... eletrocutadas. eu sem um puto centavo no bolso. até que
lembrei de um pobre relógio parado há meses no pulso. ia oferecer,
mas não consegui abrir a boca. um bolo na garganta. palavras,
queridas minhas, como vocês são covardes na hora do choque!
lamentei em pensamento. a ponta nas costas espetou-me um pouco mais.
o cara dizia grosso a ameaça. de vez em quando desafinava. isso me
demonstrou o teatro. não era tão bandido assim. baixo-profundo de
araque. no auge do perigo estava eu a fazer troça em pensamento.
sem dar conta, as palavras saíram-me à revelia:
muito prazer, eu sou barítono.
o cara, então, riu gostosamente e virou-me pelo ombro. era o evandro
com o olhar cheio de contentamento. abraçamo-nos.
brincadeira, brincadeira, brincadeira... só queria te pregar um
susto, ditinho. eu não sou disso, você sabe...
depois de algum tranco na respiração, relaxei:
e então? disseram-me que você enlouqueceu...?
ele riu de novo, mostrando nenhuma falha nos dentes.
bobagem. piada de mau gosto. é que agora faço parte de um grupo de
negros superdotados. não tenho culpa de ter qi l50. andam falando
que é uma associação de loucos. nosso presidente é o afanil. o
sujeito tem 230. é um fenômeno. até já foi estudado.
o nome não me era
estranho. alguém havia me falado dum sujeito, com apelido de foulook.
era um tal, que ora se dizia advogado, ora médico africano e
aproveitava-se de qualquer grupo negro para faturar alguma verba.
arrisquei a pergunta:
tem dinheiro na coisa, evandro?
ele fez muxoxo. esticou os lábios e respondeu:
lógico. dinheiro de um branco. um empresário. o camarada é um pintor
de mulatas. diz que o médico recomendou para as horas vagas como
tratamento da impotência. mas, apesar desse pequeno senão, apostou
em nós. é um branco negreiro. adora samba e não viaja sem ir ao
terreiro antes. é isso: o pessoal que está criticando não percebeu o
alcance do nosso projeto. já conseguimos financiamento para vários
projetos de importância para a comunidade. por exemplo, um
levantamento de negros que ganham acima de 10 salários mínimos.
depois vamos distribuir nomes e endereços dos caras para todos os
mendigos e favelados da raça. vamos ver se a solidariedade funciona.
tirou o olho esquerdo de vidro e disse-me:
segura pra mim, dito.
segurei. limpou o buraco com um lenço de seda amarelo.
mas, e a massa, a maioria de nossa gente? não vai ser pesquisada?
questionei.
ele piscou-me com sua pálpebra murcha e argumentou:
a massa, com o tempo a gente modela. sempre foi assim na história.
depois disse alguma coisa parecida com "revolussim"... o ruído de um
avião encobriu-lhe a fala. em seguida apertou-me a mão com força e
se afastou apressadamente. o evandro já do outro lado da rua,
gritei:
evandro, teu olho! mas ele nem me deu pelota.
desisti. coloquei a bola de vidro no bolso do paletó. tentei
calcular o tempo em que estava ali à espera de julião. um oco por
dentro. não consegui. evandro levara-me considerável parte de meu
poder de raciocínio.
mas será o benedito! gritei em tom desesperador.
e são benedito apareceu à minha frente.
pode falar, meu filho. de terça-feira também sou ogum. pode pedir,
xará!
fiquei encabulado com tanta solicitude, mas fiz minha queixa. ele
introssaiu de mim, prometendo resolução desde que eu
acreditasse. me deu um sono... encostei no muro da casa de
julião e, nem bem abaixei as velas da vigília, fui sacudido. era o
amigo esperado.
vamos entrar, falou, puxando-me pelo braço.
já na sala, ouvi conversa vindo da cozinha. apurei os ouvidos. a
mulher dele falava a uma criança que repetia:
sou negro, és negro, é negro, somos negros, sois negros, são negros.
julião percebeu minha curiosidade e logo me pôs a par:
é a mulher tomando a lição do mais novo. o garoto deu pra ter
insônia. dorme quase nada e acorda assustado, perguntando por que
não é branco. aí, ela não perde tempo. sem a lição da dignidade na
ponta da língua, como é que vai competir nesse mundão, não é,
benedito?
ele me ofereceu uma
bebida forte. ben..dita[[[:::seja a con..[..tradição, pensei
torto e conturbêbado. em seguida deu-me um branco. não sabia o que
me levara até ali. o amigo ajudou-me.
quando julião disse-me pela milésima vez - acho - não ter pego o
livro e jurou pelo seu sucesso literário, saí. a esposa dele
(alívio) não revi. cheguei à rua. o pensamento era uma lesma
exausta. com aquela ausência de mim, andei um tanto de ruas e parei
em sinal de respeito. um nissei e um casal de noivos loiríssimos
deitavam um trabalho na encruzilhada. esperei. abriram garrafas de
uísque e saquê. baixou um guia e cantou um ponto em quioco. desceu
outro e gorjeou um trecho de ópera. segui meu caminho. dei por mim
no largo do paissandu. a lua pareceu o olho do evandro no céu. um
vazio em volta... (((rajada de medo. arriado em desânimo insociável.
raiz no asfalto(((... aos pés do monumento uma oferenda. acima, a
mãe-preta, imóvel, com o menino branco no colo abocanhando-lhe a
teta. zunido de inseto sonâmbulo: zzzzzzzzz... um sono abelhando-me
as pálpebras. entre tudo e nada consigo pensar pausando
((([[[[... conseguiram... lept lept lept lept
...+++++eternizar+++++...'''('('esta humilhante ama... chup chup
chup... mentação...ssssssss... devem estar querendo ma... ?%?%?%..
mar a vida inteira!!! dá vontade de pôr no lugar a estátua de luiza{{{{{{mahin
com uma arma na mão... mas pode ser um truque. quem será???????????
por detrás dela vem receber o despacho?.. ((((((((!))))))))
desperto! olho a gamela. meu livro lá, junto à canjica, feijão
fradinho, bicho de pata sacrificado, velas acesas em volta. faço
menção de apanhá-lo. o sagrado barra o impulso. da igreja da
irmandade nossa senhora do rosário dos homens pretos sai um padre
negro. batina azul e branca. pés no chão. um ar de decisão afetuosa.
pode pegar. fui eu quem pôs aí. era mesmo pra você. o juízo também
está de volta. no sangue.
uma brisa me percorre.
mas, deixa aí o olho do rapaz. é dele. não serve muito. é verde,
viu? esperança de vidro na cara de patrício é bobagem, diz e ri.
jogo o olho na gamela. beijo-lhe os panos. ele afaga-me a cabeça e
volta para de onde veio. passo a mão no revoltado que é muito
meu e saio disparado de contente. quem levou até ele se perder, não
sei. deixo, na primeira encruza, cigarros e fósforos pegos sob o
monumento. um raio de fogo me esquenta o peito. no meu céu de dentro
um meteoro traça uma trajetória de maravilha. alegria saltitante
regendo a harmonia das estrelas. carícia de veludo sobre mim. agora
os passos deixam marcas verdes por onde passo. tudo é possível neste
imenso abraço. auroras nascem no rosto da paciência. na boca
florescem-me todos os sabores da redenção futura. é manhã e a mesa
está posta para os amigos e os que tentaram fazer-me inimigo. o
perdão conquistado nos jardins de mim enfeita o ambiente novo desta
plenitude. armadilhas enferrujadas no museu da memória. aves
multicoloridas batem asas no iluminado túnel das pupilas. palmeiras
cantando uma puxada-de-rede diante do mar da esperança: e nana
ê...ê nagô... ê nana ê... na ê.. puxá... o azul aflora suas
nuanças de infinito. bundas livres cadenciam num partido-alto no
mais alto estágio do espírito. deuses de todos os matizes achegam-se
para dançar. olorum energiza-me a praça livre do coração. o útero da
noite se abre. ouço o vagido. nasce o crepúsculo, gargalhando após o
choro uma explosão de cores sobre a cópula coletiva envolvendo a
terra o fogo a água o ar. abro a porta para que adentrem todas as
saudades e as recebo irmãs na planície de meu carinho. viver todas
as sementes do destemor! corada em melanina, a coragem rege os
tambores de uma nova vida e um novo canto. todos os oceanos
fecundam-me o sangue e os continentes juntam-se-me à carne,
emergindo a imensidão de ser. deitado em profunda contrição, o
egoísmo atinge o erê e é cuidado pela sabedoria do amor. colho
diferentes e saborosos frutos em cada esquina de olhar. em toda boca
há um beijo pronto. as estátuas cumprimentam todos, livres de suas
imobilidades. supérfluos os documentos de boa vontade. a memória se
desnuda e inicia o toque. bato cabeça neste terreiro em louvor ao
universo inteiro, na freqüência ininterrupta do nascimento das
galáxias...
e por aí adentro, abraçado ao mistério revoltado. eu neste
estado e eles hesitavam, vermelhos em suas vergonhas. meu cão,
acolhedor em sua ternura sem fronteira, late, abana o rabo,
anunciando as visitas indecisas. vovó tricoteia sonhos, ri bondades
profundas nos olhos e

AH, ESSES JOVENS BRANCOS
DE TERNO E GRAVATA! . . .
(Bilingue: Português / Inglês)
Foi ontem meio dia, tá entendendo? Eu ia indo na minha caminhada,
ali na Rua da Independênça. Quando eu vi que os guarda tava me
seguindo, parei pra ter certeza que tinha saido com os dicumento,
num sabe? Meti a mão no bolso e tirei. Tava tudinho ali:
profissional, RG, CIC, o cacete! . . . Eles ficaram sem jeito.
Passaram por mim. Num disseram nada. Sim, eram dois. Isso! Tavam
fardado e de cacetete, e revólver na cintura. Mas, como eu ia
dizendo, eles se foram. Aí lembrei que precisava pagar uma conta no
Banco Suor do Povo, que fica justamente naquela rua. Fui. Caminhei
um tanto e cheguei lá. Vixe! Tinha u'a fila comprida que nem
lombriga de criança. Fazê o quê. Peguei a rabeira e fui naquele
passinho de tartaruga. Na minha frente tinha um casalzinho
conversando. O fulano era um desses . . . Como é que fala mesmo? Ah,
sim, isso: executivo. Parecia. Todo de terno e gravata, mali-nha . .
. Mas era novo. Molecão querendo ser homem. A moça parecia mais
gente pobre, calça de brim, camiseta. Eu num sei bem o que ele falou
antes. Mas isso eu escutei muito bem. E o sujeito falou alto. Desse
jeito:
O Brasil não vai pra frente por causa desses preto e desses baiano.
Essa gente é que é o nosso atraso. O governo devia acabar com tudo
eles . . .
Isso é coisa que se diga? E eu sou preto e sou baiano! Tenho vinte
anos de São Paulo, mas sou baiano. Mas o danado disse mais. Eu
escutei com essas oreia que a terra há de comer. Ele disse assim:
Se fosse o governo, eu fazia com esses preto e esses baiano igual
Hitler fez com judeu.
Aí meu sangue freveu! Bati no ombro do cabra. Quando ele virou, eu
escarrei na cara dele!!! . . .
Mas, Seu delegado, eu lhe juro, não fiz mais nada. Tenho até
testemunha. O cabra morreu mesmo foi do coração.
AH, THOSE YOUNG WHITE MEN IN SUITS AND TIES
It was yesterday at noon, understand? I was going on my walk, there
on Independence Street. When I saw that the police were following
me, I stopped in order to be certain that I had gone out with my
identification papers, you know? I put my hand in my pocket and
pulled them out. Everything was there: professional papers,
identification card, social security card, and other documents. They
didn't have a way. They passed by me. They didn't say anything. Yes,
there were two. Exactly. They were uniformed, with clubs and
revolvers in their holsters. But, as I was saying, they went away.
Then I remembered that it was necessary to pay on an account at the
Bank of the People's Sweat that was right on that street. I went. I
walked a little and arrived there. Wow! There was a line longer than
a child's tapeworm. What was I to do? I got on the tailend, and I
went at a snail's pace. In front of me a couple was conversing. The
guy was one of these . . . . What do you call one of those guys that
talks about himself? Oh yes, that's it: an executive. He seemed to
be. All dressed in a three piece suit and tie . . . an ugly one. But
he was inexperienced. A strapping young fellow, wanting to be a man.
The girl seemed to be poorer, with jeans and a t-shirt. I don't even
know what he said before. But I heard this very well. And he spoke
loudly. In this way:
"Brazil is not getting ahead because of blacks and people from
Bahia. Those people are the reason for our being behind. The
government ought to finish them all off
. . . ."
What kind of thing is that to say? I am black, and I'm from Bahia. I
have been in São Paulo for twenty years, but I'm a Bahian. But the
smartass said more. I heard it with these ears that don't miss a
thing. He said it like this:
"If I were the government, I would do the same thing to those Blacks
and Bahians that Hitler did to the Jews."
My blood boiled. I hit the so-and-so on the shoulder. When he turned
around, I spit in his face!!!
But, Your Honor, I swear to you, I didn't do anything else. I have a
witness. The so-and-so died right then of a heart attack.
Translated by Carolyn Richardson Durham ©1995
VIDA EM DíVIDA
(Bilingue: Português / Inglês)
--Vais morrer, negrinho!
--Não te fiz nada. Tô pagando o cigarro, não tô?
--Com o dinheiro que me roubaste ontem, malandro! Pensas que não
sei?
--Não fui eu.
--Vais dizer gue foi a minha mãe, então? A hora que eu saí pra ver o
incêndio na casa da dona Rosane, estavas na esquina, não estavas?
--Mas não roubei nada.
--Já é a segunda vez que me aprontas, moleque! Vou mandar te dar um
jeito, pode deixar . . . Pois não, dona Maria? . . . --e o
comerciante passa a atender uma freguesa.
Paulo Roberto pega o troco com as mãos trêmulas. Um dos empregados
da padaria olha-o e sorri, camuflando os dentes. O garoto abaixa os
olhos e sai. Sente um frio por dentro, apesar do verão de 40 graus.
Também o olhar do homem atrás da máquina registradora foi
profundamente sinistro. Não era o seu Manoel de todo dia. Inquieto,
o garoto vai pelos cantos da rua, na tentativa de encontrar o abraço
de alguma sombra. Mas, ao meio-dia, é demasiada a magreza das
sombras.
«Filhos de rato! Fodo-os! Só servem pra pedir. Ou então roubar.
Fodo-os! Vão roubar o diabo se quiserem!»--Com estes pensamentos,
seu Manoel fecha o estabelecimento bem mais cedo, desculpando-se dos
que demoram no aperitivo. Precisa tratar de negócios.
--Aonde 'cê vai, Paulinho?--pergunta a pequena.
--Quando a mãe chegar, fala pra ela que eu fui ver um serviço lá na
cidade. Só volto amanhã.
--Mas, eu vou ficar sozinha de novo?
--Daqui a pouco o Léo chega da escola. Fica brincando aí. Lá em cima
da mesa tem pão e manteiga. Olha, esse chiclete eu comprei pra você.
Mas não é pra sair, tá bom? Entendeu, Telminha? Quando a mãe chegar,
você fala assim que eu deixei um negócio na mala, tá? Não esquece.
--Ah, mas eu vou ficar sozinha? . . . --choraminga a irmã, tentando,
com a força de seus quatro anos, convencer Paulo Roberto a não
abandoná-la.
--Eu trago um presente pra você.
--Você nem tem dinheiro. [End Page 890]
--Tenho sim--responde e tira algumas notas do bolso.
--Mas é pouco.
--Eu vou ganhar mais.
--Vai nada.
--Vou sim . . . --responde o garoto e fecha a porta do casebre com
um fio de arame enrolado num prego acima. E sai, seus magros 14 anos
suportando emoções de temor. Tem de partir para não mais voltar. Mas
mandará dinheiro. Como um homem, desses que viajam sempre. Está
consciente do perigo rondando. Não faz uma semana que seu colega
Demerval foi assassinado com vários tiros. Um mês antes, a vizinha
fora morta a facadas pelo marido. A vila anda violenta. E, apesar
das preocupações da mãe, Paulo Roberto está convicto: precisa se
afastar da região. Sai convencido também de suas responsabilidades.
É o mais velho dos três filhos. Gosta de sentir-se o homem da casa,
já que o pai sumiu desde o nascimento da irmã. Mas, sentir-se homem
implica conseguir dinheiro, o que é difícil. O dia de ontem foi
rentável, mas trouxe o perigo, acompanhado do frio por dentro. Vai
atrás da turma do Bebeto, na Praça da Sé. É sexta-feira e pode
conseguir alguns doces para vender no fim de semana em portas de
cinema, teatro, campos de futebol, semáforos e outros pontos. Onde
andará o Padre Batista, que tanto protegia a molecada, sobretudo os
que desejavam trabalho? Lembra que o religioso andava muito doente.
Um medo repentino impede-o de respirar por um instante. Cinco da
tarde. Retoma o fôlego. Tenta fumar, em busca da coragem. Mas advém
a antiga tosse.
Manoel sua sob o lençol. A noite parece não ter fim. Ainda havia
insistido:
--Não tem tanta pressa.
Mas o outro:
--Vai ser é hoje mesmo. Amanhã já pode ser tarde. Tõ mesmo sem outro
serviço. . . !
O homem falava e mantinha os olhos ameaçadores. Receberia no dia
seguinte. O comerciante temeu:
--Não, homem! Podem desconfiar. Toma lá. Adianto a metade. A outra
parte pegas depois de uma semana. Combinado?
O sujeito apenas riu, guardando o dinheiro no bolso. Depois fechou a
cara e acendeu um cigarro, fedido que só, prendeu a fumaça com
esforço para depois soltá-la entre os dentes, satisfeito.
Todos os detalhes do «serviço» rodopiam na mente de seu Manoel. Duas
horas da madrugada e nada de vir o sono. Às três, ouve a gritaria e
os tiros ao longe. São vários estampidos. Treme, sua mais e cobre-se
até a cabeça. A mulher acorda.
--Estais tremendo como vara verde, homem!?
--A gripe me pegou.
--Espera lá que te vou arrumar um remédio. . . Ai, meu Jesus! A
favela já está em confusão de novo--diz a mulher, caminhando no
escuro até a cozinha. Chá de hortelã e uns comprimidos colocarão o
marido em forma.
Um automóvel passa cantando os pneus. O tumulto à distância diminui.
Após tomar o preparado pela mulher, o padeiro cai em sono profundo.
Desperta com um pesadelo no encalço. 5 horas. Troveja. Está atrasado
para o trabalho. [End Page 891]
Neste dia, o comentário é um só: o crime. E, quando dona Teresa, a
mais faladeira do bairro, chega sacudindo o guarda-chuva e se
queixando do mau tempo, que esta não é hora de chover, o mundo anda
virado, seu Manoel já queimou a mão no forno, errou no troco,
discutiu com o copeiro e deixou cair dois copos. A mulher puxa
conversa:
--Seu Mané, essa noite a coisa foi feia na favela. Mataram o
Leozinho, o filho mais novo da Lucinda . . .
--Já ouvi um milhão de vezes essa história. Diga lá quantos pães
queres que eu tenho muito trabalho!--corta o assunto.
A mulher não gosta da censura:
--Dormiu em cama de prego essa noite? Mas garanto que não entraram
na tua casa, nem mataram teu filho com um monte de tiros na cabeça,
não é?
O comerciante impacienta-se e pede para o empregado da copa atender
a mulher, que não deixa por menos:
--Teu patrão parece que tem culpa no cartório, Geilson.
--Que isso, dona Teresa! Ele tá é com um resfriado forte.
Seu Manoel assoa o nariz.
No dia seguinte, o Jornal do Crime anuncia: «Garoto morre com chumbo
grosso na cabeça. O menor, L.R.S., de 11 anos, morreu assassinado na
madrugada de ontem, quando um indivíduo de cor branca invadiu seu
barraco e fez vários disparos. A polícia suspeita de ajuste de
contas entre quadrilhas ou um possível envolvimento amoroso da mãe
do menor, Lucinda R. dos Santos, com o assassino que se evadiu do
local.»
Sem terminar o prazo para o pagamento da segunda parcela, o dono da
padaria descerra a porta, antes do habitual, dispensa os empregados,
embriaga-se e sai. Quando chega ao local combinado, bate palmas. É
um barraco em terreno baldio.
--Entra!--vem a ordem de dentro.
Seu Manoel obedece. Depara com uma mulher sem nenhuma aparência com
o ambiente.
--Quero falar com o Sinistro.
--É pra entregar o pacote pra mim.
--Que pacote que nada!
--Voce não é o cara da muamba?
--Muamba uma ova! Eu vim aqui reclamar. Diga pra ele que ele matou o
moleque errado. Que a segunda parte eu não vou pagar. Fez serviço
porco. E tem que me devolver o dinheiro que eu já dei. Senão ponho a
polícia no caso! . . . --desabafa e se afasta transtornado.
Uma semana depois. Os fregueses da Padaria Boa Primavera ficam sem
pão. Quem se dirige para outros estabelecimentos não deixa de ouvir
a desgraça. E dona Teresa acende suas elocubrações e afia a língua:
--Deus que me perdoe, mas deve ter sido vingança do outro filho da
Lucinda. Nunca mais vi o moleque!? . . . Seu Manoel era tão bom! . .
.
LIFE IN DEBT
"You're going to die boy!"
"I didn't do nothing to you. Just paying for my cigarettes."
"With the money you stole from me yesterday, you asshole! You think
I don't know?"
"It wasn't me."
"So, you're telling me it was my mother? When I left to check out
the fire in Rosane's house, you were there on the corner, right?"
"I didn't steal nothing."
"It's already the second time that you hit me, boy! I'm gonna get
you taken care of, just wait . . . What can I get for you, Maria?"
And the store owner turned to wait on a customer.
Paulo Roberto's hands were shaking as he took his change. One of the
bakery employees looked at him and smiled, hiding his teeth. The
teenager lowered his eyes and left. He felt a deep chill, in spite
of the 90 degree weather. The look of the man behind the cash
register had also been deeply sinister. It wasn't the same Manoel as
everyday. Upset, the teenager walked along the corners of the street,
trying to find the some bit of shade. But, at noon, there's hardly
any shade at all.
"Sons of bitches! Fuck them! All they do is beg. Or else, they rob.
Fuck them! Let them go rob the devil!" With these thoughts, Manoel
closed the bakery much earlier than usual, and apologized to those
who were lingering around. He had to take care of business.
"Where are you going Paulinho?" asked the young girl.
"When mama gets here, tell her I went to see about a job in the
city. I won't be back until tomorrow."
"But I'll be alone again."
"Leo will get home from school real soon. Just play around here.
There's bread and butter on the table. Look, here's some gum I
bought for you. But don't go outside, okay? Understand, Telminha?
When mama gets home, tell her I left something in the trunk, all
right? Don't forget."
"But I'll be alone . . ." whined his little sister, trying with all
of her four-year-old strength to convince Paulo Roberto not to
abandon her.
"I'll bring you back a present."
"You got no money."
"Do too," he responded, taking out some bills from his pocket. [End
Page 718]
"Not enough."
"I'll get some more."
"Yeah, right."
"I will . . . " answered the teenager, closing the door to the shack
by hooking some wire around a nail. And he left, with his thin
fourteen years overwhelmed with fear. He had to leave and never
return. But he would send money. Like a man, like those who were
always on the road. He was conscious of the danger that surrounded
him. Not even a week ago, his friend Demerval was shot and killed.
The month before, a neighbor was stabbed to death by her husband.
The neighborhood was violent. And in spite of all of his mother's
worries, Paulo Roberto was convinced; he had to get out of there. He
was also convinced of his responsibilities when he left. He was the
oldest of three children. He liked to feel like he was the man of
the house, since his father had taken off when his sister was born.
But feeling like a man meant having cash, and that was hard.
Yesterday had been profitable, but it had brought trouble,
accompanied by this inner coldness. He was going after Bebeto's
group in the Cathedral Square downtown. It was Friday and he could
get hold of some sweets to sell over the weekend at the entrances to
movies, theater, soccer fields, at stop lights and other places.
Where was Father Batista, who protected the street kids,
particularly those who wanted to work? He remembered that the priest
was very sick. A sudden fear blocked his breathing for a moment.
Five in the afternoon. He caught his breath. He tried to smoke,
looking for courage. But it triggered the old cough.
Manoel was sweating under the handkerchief. The night seemed to be
endless. He had still insisted, "There's no big hurry."
But the other one said, "You'll see, I'll do it today. Tomorrow
could already be too late. I've got no other jobs . . . !"
The man spoke in a threatening tone. He would get paid the next day.
The shop keeper was fearful. "No, man. They could be suspicious.
Take the money. I'll put half up front. You can pick up the other
half in one week. Agreed?"
The man only laughed and put the money in his pocket. Then he
hardened his face and lit a cigarette. He held the smoke for awhile
in his mouth before letting it escape through his teeth.
All of the details of the "job" rolled around in Manoel's head. Two
in the morning and he couldn't sleep. At three he heard shouting and
shots in the distance. There were several explosions. He trembled,
sweated some more, and pulled the covers up to his neck. His wife
woke up.
"You're shaking like a leaf!"
"I've got a fever."
"Stay here while I get something for it. My God! The slum is in an
uproar again," said his wife, going in the dark to the kitchen.
Chamomile tea and some pills would get her husband back to normal.
A car with screeching tires went by. The noises in the distance
quieted. After taking his wife's remedies, the baker fell into a
deep sleep. He woke up from a nightmare of being chased. Five
o'clock. Thunder. He was late for work.
The next day there was only one topic of discussion--the crime. And
by the time [End Page 719] that Teresa, the biggest gossip in the
neighborhood, arrived shaking her umbrella and complaining--about
the bad weather, that it was raining all the time, the world was
upside down--Manoel had already burned his hand on the oven, given
wrong change, argued with the counterboy and broken two glasses.
The woman began the conversation. "Manoel, last night was ugly in
the slum. They killed little Leo, Lucinda's youngest boy."
"I've already heard that story a million times. Tell me how much
bread you want, I have a lot of work to do!"--he cut the discussion.
The woman did not appreciate his comments. "Did you sleep on a bed
of nails last night? Well, I bet they don't come into your house or
shoot your son in the head. Am I wrong?"
The shop keeper lost patience and asked the counterboy to wait on
the woman, who kept right on talking. "Your boss looks like he's
been caught cheating, Geilson."
"What's that, Teresa! What he has is a bad cold."
Manoel blew his nose.
The next day, the Crime Newspaper announced, "Teenager dies from
bullet wounds to the head. L.R.S., an eleven year-old juvenile, was
murdered early yesterday morning when a white man broke into his
shack and fired several times. Police suspect a gang-related revenge
shooting or a possible love entanglement between the boy's mother,
Lucinda R. Santos, and the murderer who escaped from the scene."
The deadline to pay the second part hadn't even passed when the
bakery owner locked up earlier than usual, sent his employees home,
got drunk and left. When he arrived at the agreed upon place, he
clapped his hands. It was a shack in a vacant lot.
"Come in!" came the order from inside.
"I want to talk with Sinistro."
"You have to give the package to me."
"What damned package?"
"You're not the guy with the smuggled goods?"
"Smuggled goods, my ass. I'm here to complain. Tell him he killed
the wrong kid. That I'm not going to pay the other half. He did a
shitty job. And he has to give me back the money I gave him.
Otherwise I'll go to the police! . . . " He got it off his chest and
then left in an uproar.
A week later. The customers from the Good Spring Bakery had no bread.
Whoever went to the other shops didn't stop hearing the bad news.
And Teresa told her own version and sharpened her tongue: "God
forgive me, but it must have been revenge on the part of Lucinda's
other son. No one's seen him . . . Manoel was so good! . . . "
Translated by Phyllis Peres
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CUTI. Quizila. São Paulo : /s.n./, 1987. 60p.
SOB
A ALVURA DAS PÁLPEBRAS
Meu avô me disse que matasse a
princesa. Peguei de suas mãos as tripas do bisavô e com elas
trucidei a Madame da Liberdada.
Criminoso!
- vociferou Rebouças, pensando na última contradança. Tinha sido
deixado num canto pela arianice aguda de todos os presentes, mas a
Dona Treze viera na direção do engenheiro negro
(“””””””maravilhado’’’’’’’’’’’) e tirara-o para dançar. Esta
lembrança, um arco disparando réguas e compassos pontiagudos.
Assassino!
- gritou Patrocínio desesperado. Eu tinha a ele negado "a mão ao
menos" quando enterrei o cadáver. Ele não conhecia o Cemitério da
Indignação Pro
funda. Não pôde mais
beijar aquela alvura principesca cheia de dedos e anéis.
Traidor! Traidor! Traidor!
- escravos, recém-libertos debaixo de flores, me perseguiram até a
entrada do quilombo do meu avô: O Coração de Nós Todos, um pouco
acima da Barriga, do lado esquerdo sempre.
Lá entrando, não fui aplaudido nem
censurado. Apenas o Conselho dos Ancestrais me disse, em coro:
Bom sirviço, minino.
E Zumbi, sorrindo:
Pod’scansá. Já é dia 14. Eles vão
pensar!
ENTREATO
“Difícil lição de vida
tentar aprender esquecer você!”
(“Boletim” - Jamu Minka)
Envelopado na manhã o TEU adeus
foi deixado sob a minha porta. Olhei pela janela: nenhum lenço ao
vento, apenas o ódio defraudado naquelas páginas, com todas as cores
berrantes. Minhas justificativas de nada adiantaram para amenizar os
primeiros dias. Ficaram pedantes no decorrer de algumas horas. No
domingo seguinte, tranquei-me em casa, pensando besteiras. Muita
violência em jogo. Não comi o dia todo. Não atendi telefone nem
campainha. Uma solidão rochosa em torno. Não bebi. Não fumei.
Concentraído o tempo todo na minha perda irremediável.
Há muito tempo não chovia.
Vasculhei com esperança as nuvens do céu. Nada. Lá fora, o dia
também se petrificara.
O único desejo que se apresentava
era o de sangue, sangue aos borbotões, quente, vivo, para livrar-me
daquela rejeição desértica, áspera. A consciência, no entanto, metia
luz em cima dos projetos pacientemente concebidos e negava o
fundamental: o direito moral colocá-los em prática. Eu fraquejava de
momento, andava pela casa, e, depois de alguns passos, eu já
adquirira de novo meu direito de praticar aqueles crimes terríveis,
porém salutares em minha. condição miserável.
A noite chegou sem avisar e
surpreendeu-me com a arma na mão. Era o último projeto, assim
concebido: eu mandaria flores. Junto, uma carta das mais lindas,
onde eu proporia uma amizade profunda, a partir de uma resignação
farta de humildade. Diria mesmo não querer vê-LA, considerando ser o
mais propício. Muitas as expressões de desculpa, sem pieguice no
entanto. Usaria toda a arte da mentira travestida de sinceridade,
pureza e compreensão. Faria a figura de um velho amigo. E ensaiara
até como colocar as mágoas, os rancores, o ódio, tudo dentro de um
baú inteiramente decorado de ternura. Com o tempo, e após os testes
inúmeros que TU farias para provar a minha sinceridade, teríamos um
encontro. Conversaríamos coisas outras. Eu falaria até de um novo
amor e, depois de certa encabulação, receberia de TI um sorriso
cúmplice. Em seguida, esta mesma cumplicidade se transformaria, a
partir de próximos encontros, numa confiança sorridente. Até que um
"acidente" me colocasse de cama. Então, num telefonema desproposital,
eu denunciaria minha condição de enfermo, recusando de pronto a TUA
visita.
- Não, não é preciso. O pior
já passou. O quê. Não se trata de desconfiança, Zulmira... É que não
precisa mesmo. Estou bem...
Mas TU virias. A maquiagem
estaria perfeita no meu rosto e a enxurrada contida nos bastidores,
enxurrada vermelha da minha vingança. Quando a maçaneta virasse, eu
sentiria que a serpente de meus músculos se preparava:
Entrarias no pequeno
apartamento. Eu me sentiria o melhor ator do mundo. Braço engessado,
algumas marcas de mercúrio cromo, joelho enfaixado. Mancar seria
fácil. A compaixão TE despertaria o antigo afeto. Eu veria em TEUS
olhos as fagulhas do nosso amor. Então, quando desviasses o olhar
de mim, a faca da ponta sairia do meu travesseiro e tudo seria
sangue, muito sangue, gritos (eu queria ouvi-los! ) e satisfação.
Mas, saltando pela janela, a
noite me surpreendeu com a arma invisível na mão. A consciência
acendeu a luz. De novo! Eu premeditando um crime?... Realizado o
flagrante da minha miséria, ante a testemunha de mim mesmo, o nada
tomou corpo com a totalidade da desesperança. O derradeiro plano
esvaiu-se inteiro.
Vencido assim pela lucidez,
envolto na escuridão, ouvi a Tuausência girar a chave na fechadura.
Acionou o interruptor. A sala clareou-se. Ela, emoldurada na porta,
fixando-me.
Loira, como sempre foi, vestia
roxo e tinha olhos a cor verde-musgo. Nos lábios finos, uma ironia
cortante. Por fim, sorriu com toda a plenitude de seus dentes de
ouro, inteiramente carcomidos. E disse, depois de largar sua bagagem
no chão:
- Voltei. E desta vez para
ficar.
A fatalidade percorreu-me a
espinha num relâmpago gelado. Abaixei os olhos. Em suas unhas
contemplei o esmalte marrom, realçando sobre a palidez das mãos,
pés. e pernas enraizadas de varizes azuis. O sapato aberto
continuava o roxo do vestido, cuja barra cobria levemente os
joelhos. Quadris um pouco realçados, cintura exageradamente fina,
busto nenhum, ela tinha o talhe de quem sofrera correções de
perfil. Um nada de nádegas.
Mexeu os cabelos, exibiu o
vento. Alicateou seus olhos nos meus. Não tive saída. Capitulei.
- Sim. Está bem - e curvei a
cabeça.
A partir de então, Tuausência.
passou a conviver diariamente comigo, debaixo do mesmo teto.
No princípio, .como sempre acontece
aos casais que voltam a conviver depois de separações litigiosas,
houve a delicadeza de esgrima na luta pelo espaço. Sem dúvida, ela
acabou ganhando; depois de destruir todos os TEUS pertences. Encheu
o guarda-roupa. com vestidos, camisolas e muitos penhoares. Meu
paletó, calças e camisas passaram a ficar no varal (sujos), sobre as
cadeiras e mesmo pelo chão. Quanto às cuecas ela não as suportava
ver e as metia debaixo da minha (nossa) cama de casal.
Passei a ostentar no rosto as
marcas das unhas. de Tuausência. Nossas brigas eram freqüentes e sua
agressividade não se intimidava diante da minha força. Ela apanhava
muito, mas sempre reagia com suas lâminas naturais, os olhos que se
amarelavam e muitos xingamentos.
Um dia resolveu dar uma festa.
Concordei para evitar mais atritos. Ficou dengosa, pegajosa, "bem"
pra lá, "benhê" pra cá. Na semana tratou-me como seu namorado, às
vésperas eu era um noivo, e, naquela noite, um marido bem adulado.
Seus convidados - pois eu já me divorciara da amizade - eram uns
tristes alcoólatras. Todos brancos. Cantaram, o tempo todo, sambas-
canções de amor perdido. Trataram-me com deferência sobretudo quando
me enchiam o copo. Não faltaram o elogios à minha alma branca. Bebi
com eles até de madrugada. Ao todo, éramos treze na tal
festa-patê-de-sardinha-e-gin. Não vi quando saíram. Eu tinha ido ao
banheiro vomitar os meus excessos e perdera a noção do tempo.
Quando voltei, a sala estava vazia de gente. Tuausência
masturbava-se na cozinha, enquanto comia os últimos restos de patê.
Alternava a mastigação com profundas tragadas num cigarro sem
filtro. Olhei da porta e tive ímpetos violentos. Ela não se
intimidou, continuando suas fricções, o come-come e fumaças. Atingiu
o orgasmo com um grande urro Uma garrafa de gin, que estava vazia
sobre a pia, partiu-se. Tuausência espumou pela boca, dizendo com
sarcasmo:
- Por que não vem, nego
filho-da-puta?
Minha vista escureceu. Só parei
de esmurrá-la, quando percebi que ela não esboçava reação, exceto o
riso e olhar de quem tem garantida a vingança. Meu ódio pegou-me
pelos colarinhos e pôs-me pra fora casa. Fui procurar consolo na
manhã que já raiava. O sol, entretanto, não me ofereceu nenhuma
porta ou janela para respirar outra vida. Voltei para o estreito
corredor do cotidiano.
Tudo recomeçou. Eu saía, ela
ficava em frente à televisão, o cigarro entre os dedos. Quando à
tarde eu retornava, brigávamos. Eu não tinha mais sonhos. Só
pesadelos. Num desses nossos reencontros, depois da habitual troca
de murros e arranhões deixei-me cair em mim. Olhei-a. Era
deplorável seu rosto e sinistra a ironia que nele se mantinha. Fui
vencido pelo primeiro soluço e desabei. Chorei todos os tonéis
envelhecidos desde a minha irremediável perda. Ela saiu da sala em
direção ao banheiro, rindo a princípio, gargalhando depois. Eu a
esqueci por um tempo de completo vazio. Ao me sentir aliviado fui
procurá-la para tentar uma conversa que nos possibilitasse uma
tolerância menos violenta. Estaquei próximo à porta. Uma sombra
balançava. Dei mais um passo e vi! O cinto enlaçava Tuausência no
pescoço, ligando-o ao cano do chuveiro. Estava nua, inteiramente
roxa, enormentumescida língua pendurada e olhos saltando. Quando fui
tocá-la, a campainha soou. Tremi. Alguém girou o trinco. Corri ao
encontro, empurrado pelo pânico.
Eras TU, entre os lábios um
sorriso com a ternura de todos os marfins. Os olhos, dois sóis
negros irradiando a aurora polar da minha vida. TEU rosto jacarandá,
aconchegado na crespa e noturna auréola dos cabelos, era o desenho
da minha paz. Abraçamo-nos.
Fusão de eternidades.
O cadáver apodreceu no banheiro
naquela mesma noite. Restou apenas cinzas. Ao raiar a manhã, eu as
recolhi e usei para adubar a samambaia que trouxeste.
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CUTI. Contos Crespos. Belo
Horizonte : Mazza Edições, 2008. 216p.
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