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Superintendência de Comunicação da Eletropaulo, editada pelo
Departamento de Patrimônio Histórico.
por Roseli Nascimento
A infância de José Correia Leite no romper deste século
[XX] foi marcada pela loucura de sua mãe, como a Gavita de Cruz e
Souza. Viveu na mescla étnica do Bixiga: negro, português e
italiano, onde os negros viviam excluídos. A narrativa de ...E
disse o velho militante José Correia Leite revela com a riqueza
descritiva do velho Leite e com o empenho inteligente de Cuti as
ruas, os casarões, os porões e todas as contradições e privilégios
dos imigrantes europeus instalados no bairro – como invasores, já
que o Bixiga é um dos últimos quilombos urbanos do Brasil – e a
subcondição social do negro à margem do mercado de trabalho. Muita
penúria. Muita adversidade.
O menino José Correia Leite trabalhou de entregador de
marmitas, lenheiro, ajudante de carpintaria e outros subempregos que
o impediria de estudar. O desejo de aprender a ler e a amizade com
Jayme de Aguiar – irmão negro de família alforriada que teve acesso
a colégio tradicional de São Paulo, por ironia, o Coração de Jesus –
lhe abriram o mundo das letras, aguçando a sua consciência racional
e a postura libertária que marcou sua vida.
Condição Humana
Inquieto desde os 20 e sintonizado com o esforço de
resgate da história do negro no Brasil, o velho Leite percebera
desde cedo que a historiografia oficial escamoteava a nossa
essência, a nossa condição de ser humano. Em 1924 fundou O Clarim,
que se tornou O Clarim d´Alvorada. Depois de muitas
idas-e-vindas políticas viu o surgimento da Frente Negra Brasileira,
o panafricanismo de Marcus Garvey, as Revoluções de 30 e 32, o
Estado Novo, a ditadura de Vargas, os processos de industrialização
e de urbanização de São Paulo. O velho Leite viu tudo, tudinho. A
ponto que a sua vida, obra e graça está ligada (até hoje) a toda
história do negro no Brasil, neste século [XX] cheio de contradições
e abismos, como uma ponte de mão dupla entre o passado e o futuro.
Através de intelectuais, articulou sem compromisso e sem
a submissão “natural” com Oswald de Andrade e Mário de Andrade, o
negrérrimo Fernando Góis, Lino Guedes, Roger Bastide, Florestan
Fernandes e as cabeças negras de Abdias Nascimento, Solano Trindade,
Grande Otelo, Bororó, Vicente Ferreira e tantos outros. O passado do
velho Leite teve ressonância nas novas gerações, como a minha. Mas
nos anos 70, os Jacksons, James Brown, Martinho da Vila, Donna
Summer, os bailes soul, o footing do Viaduto do Chá, Nelson
Cabeleira. Até o dia 7/6/1978 foi o dia do basta, atletas negros
foram discriminados racialmente no Clube Tietê e foi morto o negro
Robson Luz em Itaquera. O delegado Righetti empreendia no centro
histórico de São Paulo via a violência uma assepsia étnica prendendo
e até assassinando negros, nordestinos, homossexuais e prostitutas.
Escadarias do Municipal. A presença do Abdias Nascimento com o
projeto do quilombismo dava cores negras à história contemporânea do
Brasil, só revitalizadas no Domingo Negro de 1992 pró impeachment de
Collor.
Nas lutas pela redemocratização do Brasil, onde pesa a
omissão dos historiadores, nós, negros, estivemos presentes. Vivos
como nossas cores. E o nome do velho Correia Leite corria de boca em
boca. Lembro que nessa época o Grabriel Prioli Neto fez um
documentário, “Da Senzala ao Soul”, no qual o velho, com sua
sabedoria, mandava todos os negros de São Paulo estudarem ao invés
de ficarem dançando. Foi um susto. Em 1987 o conheci na casa de
Isidoro Telles, era os seus 87 anos. O Cuti e o Márcio Damásio o
levaram e ele, simples, foi coberto de ternura. Em 1988, meu filho
Abimbola, com um ano de idade, seguiu lado a lado com ele até o
cemitério da Consolação para visitar o túmulo de Luiz Gama. Foi
lindo. Os poetas negros de São Paulo leram o famoso poema “Bodarrada”,
do filho de Luiza Mahim. E me lembrei, vendo-o ali impávido, do
vídeo que Estevão Maya-Maya fez para TV Cultura em 1986, que
concluía com uma frase do Velho, que resumia a certeza do dever
cumprido, daquelas pessoas que fazem a história, sem terem certeza
que a constroem. Tudo isso passou-me pela lembrança no anoitecer do
dia 27 de fevereiro de 1989, que Cuti ligou para anunciar: “o meu
griot morreu”.
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Leite, José Correia; Cuti. ... E disse o velho militante José
Correia Leite. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1992.
301 páginas
APRESENTAÇÃO, p.9
No início do ano de 1992, em reunião da Coordenadoria
Especial do Negro – CONE, quando estive presente em conjunto com
Hédio Silva Jr. e Arnaldo Xavier, ficou estabelecido como prioridade
a publicação deste livro, que foi efetivado por meio da
receptividade e determinação da Sra. Marilena Chauí, Secretária de
Cultura do Município de São Paulo.
Este trabalho, sem sombra de dúvida, deverá ser leitura
obrigatória a todos que militam no Movimento Negro, pois o mesmo é
repleto de ações de milhares de figuras anônimas, sem a persistência
dos quais seria impossível a nossa existência, o avanço contínuo das
idéias e das ações coletivas.
Alguns militantes tiveram o privilégio de conviver com
pessoas como o Sr. Correia Leite, Jayme de Aguiar (falecidos),
Henrique Cunha, Aristides Barbosa e outros de uma geração que foi
fundamental para este processo de politização.
A fala do Sr. Correia Leite reproduz longas conversas
que nós militantes mantínhamos sobre o passado recente. Com
generosidade e desprendimento ele se colocava diante da juventude
que o procurava. Sua paciência e experiência de vida garantiam seus
comentários, feitos com tal leveza e simplicidade, que suas críticas
se tornavam uma lição.
Neste século [XX], o trabalho de entidades do Movimento
Negro e de indivíduos, que deram uma real contribuição pela
valorização do negro e na luta contra o racismo, ainda está por ser
escrito. Como exemplo disso posso citar algumas pessoas como: Odacir
de Matos, Eduardo de Oliveira e Oliveira, Jayme de Aguiar, Dalmo
Ferreira, Solano Trindade, Nair Araújo, Tia Vanda, Domingos
Pelegrini, Padre Laurindo Batista, Márcio Damázio, Wanderlei José
Maria e tantos outros.
Há muito para ser escrito e ser publicado, mas como
romper as barreiras?
A história da publicação deste livro tem mais de cinco
anos até que houvesse uma determinação política de uma administração
democrática. Isto quer dizer que a Coordenadoria Especial do Negro e
a Secretaria Municipal de Cultura fizeram prevalecer a idéia da
cidadania cultural em São Paulo.
Sentimo-nos orgulhosos em ter participado da publicação
do livro “... E disse o Velho Militante José Correia Leite”, pois o
mesmo servirá, de uma forma viva, para o resgate da memória da luta
do Movimento Negro nacional.
É preciso caminhar no sentido de que essa história tenha
a visibilidade que ela merece.
A história do que foi realizado neste século [XX], pela
militância, precisa ser recuperada em cada instante de ousadia e de
criatividade.
Ivair Augusto Alves dos Santos
Coordenadoria Especial do Negro
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AO-PÉ-DO-FOGO,
p.11 a 14
“Sua palavra, seus conselhos, suas
idéias, suas observações, valeram-me pela escola que não tive.
... Nem sempre, é verdade, foi
compreendido, e muitas vezes encontrou pela frente aventureiros que
lhe quiseram dificultar a ação nobilitante. Passaram, porém, esses
aventureiros, passaram e José Correia Leite ficou.
... Um chefe que não dá ordens, mas que aconselha, que persuade, que
convence, por que sua vida limpa e reta é a maior autoridade de que
ele se vale”.
Fernando Góis
(“Amigo e Mestre” – Diário da
Noite – 23.agosto.1960)
Por volta de 1976, vindo de Santos, tive um contato mais
estreito com grupos e associações afro-brasileiras da cidade de São
Paulo e também do interior do Estado. Aos poucos foi-se-me
desabrochando diante dos olhos um passado recente, rico em lutas e
esperanças urbanas do meu povo. Personagens diversos passaram-me a
habitar a imaginação. Dentre as personalidades, militantes de outros
tempos, algumas foi possível ver, ouvir e admirar.
Este contato trouxe à minha geração o influxo necessário
para sentirmos que não estávamos iniciando um trabalho de
conscientização, mas continuando o esforço daqueles que nos tinham
antecedido.
Logo, portanto, percebi a lacuna, existente entre as
gerações, começando a ser superada. A oralidade e a descoberta de
certas publicações esgotadas iam estabelecendo o liame. A primeira
forma, muito citada para caracterizar a nossa tradição cultural,
serviu (e ainda serve) como subsídio para teses acadêmicas e outros
fins. O Movimento Negro vem sendo submetido a várias leituras
teóricas, feitas em geral por brancos, que vão fixando balizas para
o pensamento. Os tais “estudos” arrastam, em sua maioria, o vício de
reforçar a noção de “outro”, “corpo estranho”, “alienígena”, com que
somos estigmatizados. Nós negros somos tomados como “objetos de
estudo”. Alguém já viu algum estudo sobre o “branco no Brasil”? Fora
Guerreiro Ramos, não tenho notícia.
Além dos estudos (ensaios, teses etc.) contamos com os
raros testemunhos escritos por militantes comprometidos com a luta
anti-racista, dentre os quais, aqueles elaborados por Abdias do
Nascimento e Eduardo de Oliveira são os melhores exemplos. Nestes
trabalhos o sujeito não está distanciado do seu tema. Ele é o tema.
Não usa o chamado “afastamento crítico” para camuflar suas reais
intenções e opiniões, como fizeram muitos “cientistas” para provar
absurdos racistas que, em face das inúmeras reedições de suas obras,
continuarão a desvirtuar a compreensão profunda da questão racial no
Brasil.
Na mesma linha dos testemunhos escritos, muitos
depoimentos foram povoar fitas magnéticas, ora para se tornarem
pedaços de matéria jornalística ou tese, ora para satisfazerem o
simples desejo de se realizar um “trabalho”, que pára mesmo antes da
primeira transcrição do conteúdo gravado.
Quando principiei a gravação dos depoimentos de José
Correia Leite, em 1983, eu estava movido por um sentimento
catalisador de algumas opiniões de amigos e companheiros, que
discutiam muito a necessidade de preservarmos a nossa memória.
Várias vezes eu tinha ido à casa do Velho Leite para conversar. A
sua memória prodigiosa serviu a muitas pessoas que nele foram buscar
informações acerca da Imprensa Negra Paulista. Era um dos mais
velhos em idade e com uma história, de dedicação a jornais e
associações negras, conhecida por muitos. Desde estudiosos renomados
– brasileiros e brasilianistas – até, como já disse, simples
curiosos, Correia Leite sempre recebeu a todos, muitas vezes com um
certo esforço físico, pois que a sua idade apresentava exigências de
horários para refeição, medicação, repouso etc. Já nas primeiras
conversas que tive com ele, passei a admirá-lo. Ao falar de sua luta
nos jornais e entidades, bem como ao comentar a realidade
contemporânea, fazia-o transmitindo-me um profundo sentimento de
verdade, misto de paixão e idealismo. Mas uma de suas
características que mais admirei foi a generosidade. Lamento que
algumas pessoas tenham confundido esse traço (tão raro) de
personalidade com ingenuidade e, num flagrante desrespeito,
apossaram-se de materiais valiosos (jornais, revistas, textos,
livros etc.) para não mais devolver-lhe. Aliás, esses fatos sempre o
aborreceram muito.
Minha consideração levara-me a solicitar-lhe a
apresentação para o livro Cadernos Negros 2 – Contos (1979) – série
anual em que participo da organização com meus companheiros de
Quilombhoje. Depois de relutar um pouco, pelo motivo de não ser
especialista na área da literatura, acedeu a meu pedido e fez um
texto. Nossa amizade se tornou mais firme e amadureceu-me a idéia de
recolher o depoimento sobre o seu passado de militante. A princípio
fui levado pelo ímpeto acadêmico de fazer um estudo. Eu era
universitário na época e começava a tomar consciência das
facilidades de se estar ligado a uma instituição. Essa idéia, porém,
logo feneceu. Percebi o descomprometimento que teria de ter, a nível
de linguagem, com a luta travada no cotidiano. Aliás, o discurso em
“sociologuês” sempre dificultou a mobilização da Comunidade Negra.
Muitos militantes sabem disso. Mas, não foi esse apenas o motivo que
me alertou no sentido de não fazer um livro “sobre” e sim um livro
“de” José Correia Leite. Eu tinha percebido, inúmeras vezes, trechos
inteiros do que ele dizia numa simples conversa transpostos para
páginas impressas. Uns com aspas, outros não. Mas, trechos! Senti
que alguém como José Correia Leite, tendo escrito tanto na Imprensa
Negra e lutado para elevação de seu povo, deveria ter o seu discurso
registrado num trânsito livre como flui a conversa. Liguei o
gravador e comecei a fazer perguntas. Não eram necessárias muitas.
Eu estava diante de uma pessoa interessada em contar o que se
passou, comprometida com a sua função de depositária de um
conhecimento prático, vivido, mas também fundamentado em leituras
contínuas e variadas. Além da sensibilidade artística, que teve seu
ponto de fruição na pintura da aquarela, José Correia Leite era um
amante dos livros.
Naquele mesmo ano do início das gravações, fiz uma curso
de História oral, na Biblioteca Mário de Andrade, que mais me
incentivou para enfrentar as dificuldades que foram surgindo e que
não cabe aqui relatar. Senti o privilégio de ouvir lances do passado
que certamente poucos teriam acesso. Meu desejo maior foi dividir
esse conhecimento. Afinal, as coleções de jornais, como as do “O
Clarim da Alvorada”, “O Getulino”, “A Voz da Raça”, “O Novo
Horizonte” e outras tornaram-se verdadeiras raridades. Essa produção
já conta com uma seqüência de estudos sistemáticos.
O leitor tem em mãos o que o Velho Militante José
Correia Leite me relatou nesta longa “conversa-ao-pé-do-fogo”, de
março de 1983 a fevereiro de 1984. As alterações na transcrição
original, que redundaram em duas outras redações, foram feitas no
intuído de tirar do texto repetições (muito próprias do movimento
cíclico da memória), colocar, de forma não rígida, os fatos numa
certa cronologia e, sobretudo, possibilitar a participação efetiva
do autor dos depoimentos, em revisão linha por linha, até esta
redação final. Nesta última etapa, houve acréscimos e subtrações
solicitadas pelo depoente. Esforcei-me para manter o tom de
conversa, embora tenha retirado do texto as minhas perguntas, para
que o “ping-pong” não desse um caráter de bate-papo particular.
Limitei-as ao final dos depoimentos, quando o teor das mesmas
caracteriza o contraponto entre nós dois.
A fim de que este trabalho tivesse uma maior amplitude,
acrescentei um conjunto de fotos, manchetes de jornais e capas de
revistas, uma seleção de artigos publicados pelo Sr. Leite na
imprensa (nem sempre assinados), além de “O Alvorecer de uma
Ideologia”, conforme o autor, um texto inacabado, que introduziria
uma obra que pretendeu realizar. Entre os depoimento, os artigos e o
“Alvorecer...” algumas passagens são reapresentadas. Preferi assim
para não ter de mutilar qualquer das partes. Afinal, nossa história
já foi por demais mutilada.
O material utilizado para ilustração deste livro
pertence ao acervo do depoente.
As lições de vida, que tive com este homem admirável e
simples, valeram-me o esforço necessário para a organização deste
livro, com o qual espero ter contribuído para reatarmos um pouco
mais o fio da história do Movimento Negro. O falecimento do
depoente, em 27 de fevereiro de 1989, foi uma grande perda. Sua luz,
no entanto, sempre apontou para mim o sentido da perseverança. José
Correia Leite foi um autêntico “griot” dos novos tempos e um
militante da dignidade humana.
Cuti
São Paulo, 21 de junho de 1992.
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CUTI – Você acha que, no decorrer da sua luta, e mesmo depois que
você se “aposentou” da militância, o negro brasileiro sofre muita
influência do negro norte-americano?
J.C.L. – Influência não. Influência propriamente dita, não.
No passado nós fizemos muitos esforços para entrar em contato com o
negro norte-americano, porque sabíamos que eles estavam em posição
de nos ajudar, não só com seus exemplos, mas também com aquele calor
racial de que a gente tinha conhecimento. Em matéria de negro, entre
os americanos e nós, existe uma espécie de ética. Enquanto lá negros
e mestiços, por mais claros que sejam, têm de usar o apêndice negro,
isso não acontece aqui no Brasil, onde a maioria dos homens
importantes, em toda disciplina, são mestiços. Exemplo, nunca
ninguém ouviu dizer: “o grande romancista negro Machado de Assis” e
assim por diante.
CUTI – Vocês achavam que ia dar bom resultado apresentar negros
norte-americanos importantes num jornal de negros daqui?
J.C.L. – Lógico que ia. Um negro como o Book Washington, que
fez universidade e tudo, é um exemplo muito grande, apesar de a
gente saber do auxílio de branco. Nos Estados Unidos, por exemplo os
judeus quando viam que se tratava de um projeto humanitário não se
recusavam a dar apoio. Mas o Book Washington criou universidade e
isso é de grande valor. O Marcus Garvey foi também outra grande
figura de exemplo, apesar de ser político. Com o lema “A África para
os africanos”, ele queria criar orgulho racial nos negros
disseminados pelo mundo. E nós tínhamos de aceitar isso também como
coisa importante e não esse falso sentimentalismo, essa coisa piegas
do brasileiro branco de dizer: – “Mamei do leite da negra...” Tudo
coisas sentimentais, mas na prática o branco nunca levou a sério
qualquer Movimento Negro, no sentido de ajudá-lo a concretizar
idéias. O branco nunca levou a sério. E sempre que via o negro com
idéias de organização, logo achava que era espertalhão. O próprio
negro ficou com essa mania de ver um outro que fosse idealista como
espertalhão. Custava acreditar na sinceridade. Eu, só depois de
velho é que começaram a acreditar que eu não estava fazendo a luta
em troca de qualquer coisa lucrativa. Outra coisa de importância do
negro americano, após a Primeira Guerra Mundial, foi o surgimento da
música negra, o jazz. Aí o negro foi visto no mundo todo como um dos
injustiçados na América do Norte. Só que aqui aceitaram o mestiço de
uma maneira diferente do branco norte-americano. O norte-americano
não o aceitou como branco.
CUTI – Depois de 1965, como ficou o seu contato com os militantes
mais novos do Movimento Negro, do Jornegro, dessas iniciativas mais
recentes?
J.C.L. – Só notícias. Algumas vezes fui assistir a
lançamentos de livros ou a alguma reunião. Só isso. Mas participar
mesmo não participei. O meu convívio foi com os passos do meu
passado que atraíam os elementos das gerações mais novas para
conversar comigo, para saber de coisas. Mas não tive mais nenhum
interesse nem força – devido à idade – para voltar a uma luta. Eu
teria que me esforçar muito porque ia divergir de muitas idéias dos
jovens e isso ia me aborrecer e eu ia aborrecer os outros. Não
ficava bem voltar. Depois da Associação Cultural do Negro, os
movimentos que eu tive conhecimento foram alguns feitos no Clube
Coimbra, antes de fundarem o CECAN. Lá no Coimbra houve muitas
manifestações que não eram propriamente do clube, mas resultado da
concentração de jovens que faziam programações culturais e muito
baile, o que é natural. Depois surgiu a idéia de se fundar um
jornal. Apareceu um jornal mimeografado chamado Árvore das Palavras.
Eu só recebia. Nunca me procuraram, a não ser os Cadernos Negros em
que fiz o prefácio do número dois, de contos. Surgiu depois o
Jornegro. Tive conhecimento também da entidade da Dra. Iracema. Eu
nunca fui lá. Não fui convidado e não vou de alegre num lugar que
não sei se vou ser bem recebido. Ela procura fazer uma entidade meia
esnobe, meia aburguesada... Havia uma entidade na Bela Cintra, a
ACACAB. Essa, por sinal, já me convidou, mas nunca tive oportunidade
de ir. Eu sei que eles ensinavam capoeira, línguas... E tem uma
outra que eu nunca participei dela porque surgiu na época da
Associação Cultural do Negro e eu a considerei uma sociedade rival,
uma sociedade que prejudicou a Associação, que foi a Casa da Cultura
Afro-Brasileira. Conheço ainda o Clube Aristocrata em que nunca fui.
É uma entidade que já o nome me afasta. Nunca fui, apesar de
conhecer alguns fundadores.
CUTI – Como você viu o ressurgimento da imprensa negra a partir do
Árvore das Palavras até hoje?
J.C.L. – Eu não tenho bem certeza, mas eu creio que há
dificuldade econômica. E são muito poucos os jovens capazes de
enfrentar os problemas de sacrifício que exige esse trabalho de
montar jornal. Principalmente aquele que for mais sincero nas idéias
vai ficar sobrecarregado, vai ficar carregando nas costas todo o
prejuízo que houver. E outra coisa, eu penso que não é fácil dar
característica a um jornal de negros. Sempre se encontra pessoas que
vão distorcer para tratar de outros assuntos sem interesse. Do
Movimento Negro Unificado eu já soube até de envolvimento com a
causa para libertação da Palestina e outras coisas. É uma coisa que
não interessa. Não há interesse porque o negro não tem meios para
defender a causa de um povo que não é tão pobre assim. Reconheço ter
o Movimento Negro Unificado conseguido ultrapassar as fronteiras dos
estados.
CUTI – Você acha que a dificuldade de se fazer hoje um movimento e
caracterizá-lo como movimento de negros é maior que na época de sua
atividade na imprensa negra? E por que seria?
J.C.L. – Não, não é maior, porque tudo é relativo. Mas é um
grupo minoritário que se preocupa, não o negro como um todo. A única
dificuldade que eu vejo é que não se pode dizer que exista uma
comunidade unida, devido ao crescimento da cidade, o progresso, o
desenvolvimento. O negro se espraiou muito. Então é muito difícil
fazer uma luta assim. Na minha época, neste sentido, era fácil. O
negro se concentrava todo num ponto. Então esse é a razão da
facilidade de jornais e muita coisa. Já hoje se torna mais difícil
por causa da distância. Uma entidade que surja tem que se
descentralizar, fazer várias sedes para contornar toda essa
periferia que é onde o negro está, devido a toda sua situação
econômica, porque como classe mais sofrida ele tem que morar mais
longe e não pode mais se concentrar nos bairros mais próximos do
centro da cidade, onde havia os bairros com grande densidade negra.
Outra coisa que eu vejo, e não é correta, é a especulação política
de meia dúzia de negros que querem enganar os outros com uma
história de conquistar espaço na política. E assim que se vêem
eleitos não vão tratar de coisa nenhuma. Eu sei, por exemplo, de um
deles. Foi eleito com grande participação do eleitorado negro, mas
não afirmava isso. Dizia que foi eleito pelo povo. Na eleição de
1982 não contou com o apoio do negro, e eu acho que muito
justamente. Não foi eleito, porque não se preocupou em fazer alguma
coisa para a coletividade negra mais necessitada. Não custa nada
fazer um movimento de bolsa de estudo, com interesse de auxiliar os
negros que têm vontade de estudar e não têm possibilidade e então
caem numa marginalidade. Muito negro cai na marginalidade porque a
família não tem condições de educar e ele, sozinho, não consegue.
Então cai pro lado mais fácil. É mais fácil descer do que subir.
CUTI – Pelas informações que você tem, o que acha do Movimento Negro
no Brasil de hoje?
J.C.L. – Eu acho que é uma correria atrás da política.
Infelizmente a influência política é muito grande no espírito dos
negros. Isso não é preciso eu dizer. Você mesmo deve estar
observando. O negro, agora com essa abertura que está havendo, com o
surgimento de novos partidos, está disperso em grupos partidários.
Quando o sentido de uma luta específica do negro não pode ter isso.
Não pode ter negro – PTB, negro – PT ... O negro é um. Ele tem que
ser um indivisível. Ele pode ter, como brasileiro, suas idéias
políticas. Mas ideologicamente, no sentido de um movimento de
levantamento da condição social, econômica e cultural ele não pode
estar dividido em bandeiras políticas. Ele tem que ter uma bandeira,
que é a bandeira de luta dele. Isso o negro não está fazendo.
CUTI – Mas, você é contra o negro participar dos partidos políticos?
J.C.L. – Não. Eu sou contra se dividir politicamente. Agora,
as pessoas podem participar de partido político, mas não dizendo que
com isso vão resolver o problema do negro, quando estão divididos
dentro da ideologia de um partido do branco. Pelo que eu soube, o
único que deu oportunidade de haver uma reivindicação mínima do
negro no programa de seu partido foi o Brizola. Mas isso é por
interesse político, não por sinceridade.
CUTI – E qual sua opinião a respeito das atividades que têm
acontecido em outras áreas como a música, a movimentação dos blocos
afros, todas as coisas que estão acontecendo além da política?
J.C.L. – Eu acho isso muito importante. Mas, muito negro fica
pretendendo apresentar um tipo de cultura negra ... Eu lamento
quando a gente vai verificar e tem um branco orientando, um branco
ajudando.
CUTI – Você não acha que o fato cultural vai além da pele do
indivíduo? Você não acha que um branco pode ser um bom sambista ou
entender muito de candomblé?
J.C.L. – Pode. E é o que está acontecendo. Eu vi ontem na TV
Manchete um programa chamado “Esquentando os Tamborins”. Tem uma
escola de samba no Rio de Janeiro, chamada Unidos da Tijuca, com um
enredo sobre um grupo de negros que eu nunca ouvi falar. Eu sei dos
malês, mas não ouvi falar desse outro grupo que também era
alfabetizado. Nunca se sujeitaram a ser escravos. Logo que chegaram
aqui, não demorou muito tempo, todos eles passaram a ser
negros-de-ganho, porque eles sabiam mais que os próprios senhores.
Eu fiquei admirado de ver todas essas informações. E quem estava
falando desse assunto completamente desconhecido de nós era um
branco, não um negro.
CUTI – Você é contra a participação dos brancos dentro das entidades
negras?
J.C.L. – Não. Eu não sou contra porque não há uma luta de
separação. A luta é mais de integração. Porque, quando um negro
grita contra uma discriminação, o que ele está gritando? Está
gritando que aquele branco não está tratando ele em pé de igualdade.
O negro está querendo um espaço de igualdade social. De modo que se
o branco vem, a gente sempre tem que ter cuidado, porque ele vem
sempre atrás de qualquer coisa. Então o negro não pode continuar
sendo escada pra ninguém subir. É preciso que esse branco vá com
sinceridade, com espírito fraterno, com idéias de igual, e dê a
colaboração que o negro precisa, sem paternalismo ou querer ser mais
do que os outros porque é branco. Tem que trabalhar de igual para
igual. E mesmo que ele tenha condições de dar qualquer coisa,
principalmente financeiramente, tem de dar sem pensar que está
fazendo favor, e sim como quem está cumprindo um dever.
CUTI – Na sua época você tinha um sonho de integração do negro, de
união da raça em prol de um levantamento social. Você acha que hoje
teve continuidade essa sua militância em outras pessoas? Houve
progresso de entidades e grupos nesse sentido?
J.C.L. – Não... O grupo que tinha essas idéias, sinceramente,
era muito pequeno. E acabou ficando eu como um dos remanescentes. Eu
disse da atração do negro pela política. A Frente Negra foi isso.
Aceitaram todas aquelas idéias dos Veiga dos Santos, não combateram
muitos erros porque estavam esperando resultados imediatos, enquanto
essa luta seria para gerações. A esperança era a política. Mas
política no Brasil é sinônimo de favor. Na política você consegue
emprego, você consegue prestígio, você consegue uma porção de
coisas. Essa é a atração que o negro sente. Ele vê na política isso.
Mas se vê pessoalmente, e acaba sendo um sujeito desigual para os
seus irmãos. Embora às vezes estejam agrupados, todo mundo está
procurando cada um pra si, dentro da política. E hoje mesmo se vê
isso. Eu ainda não conheci uma entidade com finalidade de um
idealismo puro, sério. Pode existir uma entidade capaz de agregar um
grupo de negros para se divertir, tipo Aristocrata.
CUTI – Diante e tudo que você passou na vida, qual o futuro que você
vê em termos da questão racial no Brasil?
J.C.L. – É uma coisa imprevisível. Isso é um assunto para se
refletir. Eu me lembro da observação daquela socióloga negra
americana, Irene Diggs, que disse: “Enquanto o problema racial nos
Estados Unidos tende a diminuir, aqui no Brasil é o contrário. A
previsão é de aumentar”. Diante disso, acho que vai levar muitos
anos para que o negro resolva o seu problema, que deixou de ser um
problema-negro-brasileiro para ser um problema do “negro”. Vai
acabar sendo um problema de cada negro. E já está acontecendo isso,
quando deveria ser uma luta de unificação para que o negro não
continue vivendo sem uma retaguarda.
CUTI – Você não acredita na fraternidade de negro para negro?
J.C.L. – Toda minha vida foi em torno disso. O dia que se
alcançar que somos todos irmãos, estamos alcançando os objetivos
desse nosso ideal.
CUTI – A afirmação da socióloga americana, você acha uma afirmação
correta?
J.C.L. – Ela disse isso nos anos quarenta. Acho que isso já
está acontecendo. O negro americano está ganhando mais espaço
através de uma luta por seus direitos civis que foi conhecida no
mundo todo. Contudo, o negro americano já não tem aquele orgulho de
ter alcançado por si mesmo o progresso como a música negra surgida
no Harlem (chamado até de Capital Negra da América), os jornais e
até mesmo bancos. Mas o seu orgulho de americano estava acima do ser
negro. Assim, o negro os poucos está chegando na sua integração. O
próprio professor norte-americano, Michael Mitchell, me disse que
nos Estados Unidos já se está com a mesma idéia do Brasil: “Aqui no
Brasil não tem nada. Aqui tá tudo bem ... Ninguém sofre nada ...
Essa conversa de discriminação, preconceito, é bobagem ... Eu nunca
senti nada ...” Ele me disse que o negro americano está se
expressando com essa mesma linguagem.
CUTI – No momento que o negro se integra melhor com o branco, em
posição de igualdade, você acha que mesmo assim ele deve continuar
realizando o seu trabalho de negro, de comunidade?
J.C.L. – Deve. Lógico que deve! Ele tem obrigação. Porque a
origem do negro é escrava, e os de origem escravocrata estão
desaparecendo, e estão aí os descendentes das correntes
imigratórias. Seus antepassados não tiveram escravos e, portanto,
não são obrigados a reconhecer no negro a sua descendência escrava e
os seus direitos que foram postergados.
CUTI – Um dia o branco vai esquecer a origem do negro?
J.C.L. – Eu ouvi dizer que, por exemplo, um século na
história é um minuto. Então, historicamente está aí presente que o
negro é descendente de escravo. E tão cedo isso não vai ser
esquecido. Então o negro tem que lutar para ser ressarcido.
CUTI – Na questão, muito debatida, sobre o casamento interracial,
qual é a sua opinião a respeito, em termos de um progresso social do
negro?
J.C.L. – Eu sou de opinião que o negro tem de continuar
formando sua família no meio negro. No entanto, eu admito o que
acontece, de alguns negros bem sucedidos irem procurar sua parceira
de outra origem (o mesmo caso pode acontecer com uma mulher)
alegando a sua condição de não encontrar no meio da sua gente uma
companheira à altura.
CUTI – E o que você acha disso?
J.C.L. – Penso o que já disse. Contudo ele (ou ela) deveria
fazer todos esforços para continuar a sobrevivência do povo negro.
s
CUTI – A respeito da volta às origens, no sentido de recuperação de
valores, como é o caso do pente afro, roupa estilo africano,
colares, muito na linha de certos objetivos da Negritude, da
recuperação de valores, qual é a sua opinião?
J.C.L. – Eu acho uma fantasia. Os negros estão vendo a África
hoje, mas não estão vendo os seus antepassados, não estão lembrando
seus avós, suas bisavós. Eu admito que todos nós temos de ter
orgulho daquela nossa quantidade de sangue africano. Não podemos
renegar isso. Essa é a origem que entendo. É o orgulho da
porcentagem de sangue africano que eu recebi. Eu tenho metade. Mas
acontece que seu eu tiver de falar em volta às origens, eu vou
pensar na senzala, no eito, na chibata e em uma porção de coisas até
chegar na origem do meu bisavô (da parte de minha mãe), da minha
bisavó. Eu creio que minha avó foi africana . Ela é a origem
africana que eu tenho. O resto já abrasileirou tudo. Eu tenho
compromisso com este país. São quatro séculos. É muita coisa pra ser
esquecida, pra eu lembrar de um continente que se eu for lá serei
tratado como estrangeiro. Eles também têm orgulho das suas
tradições. Eu não posso chegar lá como um membro da casa. Eu posso
chegar como um parente por causa da minha cor, por eu estar
estigmatizado por ela. O próprio livro Raízes mostrou a luta do
sujeito para descobrir a origem da família, não da África, da
família dele, os avós... Aqui mesmo tem a história do Chico Rei. Ele
foi mesmo rei. Foi vendido porque teve uma derrota e veio com todo o
séqüito para a mineração. Lá ele demonstrou a capacidade. Trabalhou,
se alforriou, trabalhou para alforriar os membros do séqüito...
CUTI – Na época d’O Clarim d’Alvorada a gente observa que nos
jornais e revistas havia uma propagandização de alisantes de cabelo.
Me parece que na época os homens também alisavam. Gostaria de ouvir
a sua opinião a respeito.
J.C.L. – É outra fantasia do negro. É, como dizia o Vicente
Ferreira, uma espécie de alegoria. Eu não sei se eles tinham
vergonha da carapinha, mas faziam aquilo porque achavam bonito.
Quando, num filme, apareceu a orquestra do Duke Ellington, ele e os
músicos com umas casacas até o joelho, calça bem apertadinha, sapato
de bico... Ah, não demorou muito tempo muitos negros passaram a usar
aquela mesma roupa. Além disso, procuravam imitar as modas
inventadas pelos brancos. Só que davam um jeito de aderir a essas
modas de acordo com suas condições econômicas. Até nas danças o
negro procurava descobrir o que estava em voga. É que essas coisas
são muito do negro. É uma manifestação alegórica. Por exemplo, o
sujeito que descobriu o pente de alisar o cabelo era um alemão. Eu
conheci até. Ele entrou em contato com O Clarim d’Alvorada. Por ser
um jornal de negro, ele procurou fazer um anúncio do seu pente.
Antes disso os cabelos eram alisados com tampa de espiriteira ou
outros acessórios. Até que começaram a aparecer os inventos
norte-americanos. Alisar o cabelo foi uma imitação dos negros
norte-americanos. Lá havia uma preocupação muito grande de alisar
cabelo, branquear. Os americanos descobriram uma pasta que acabou
com o uso do ferro. Depois, com a luta pelos direitos civis, acabou
a idéia de alisamento de cabelo e apareceram os black-power’s, um
movimento muito importante porque o negro passou a usar o seu cabelo
próprio. No Brasil começaram a imitar sem saber o significado
daquele tipo de cabelo. Era a marca de uma revolta, de um sentido do
Poder Negro. Então o negro que usava o cabelo “black-power” estava
mostrando pertencer a um grupo contrário às idéias pacíficas de
Luther King. Eu me lembro quando o Michael veio aqui, com o cabelão
dele “black-power”. Ele encontrou um rapaz aqui de cima – o Paulo –
e fez um sinal de punho fechado. O Paulo depois me disse: “Pois é, o
moço fez assim pra mim... Ele queria falar comigo?” Eu respondi:
“Ele viu você com o cabelo “black-power” e pensou que você fosse um
negro consciente, revoltoso, capaz de lutar pela sua gente. Você usa
isso sem saber por quê. Quando ele fez aquele sinal, imaginou que
você fosse um companheiro de luta”.
CUTI – Leite, você teria mais coisa importante pra gente acrescentar
aos depoimentos?
J.C.L. – Só dizer que eu nunca esperei essa coisa de grito
contra o racismo no Brasil, como está tendo agora. Eu me lembro que
a própria rainha do carnaval dizia: “É uma barra! É uma barra! Eu
vou lutar. Eu quero ser uma atriz. Eu sei que é uma barra. Mas é o
racismo...” Até os brancos também já estão falando contra o racismo.
De modo que eu nunca esperei que hoje o negro tivesse essa
consciência tão grande de que existe o racismo. Outro dia a Zezé
Motta, Elizeth Cardoso e outras artistas falavam sobre o assunto. A
Elizeth disse: “Eu nunca senti nada”. A Ângela Maria também: “Eu
nunca senti nada, mas eu sei que existe. E como existe!” Elas nunca
sentiram, mas sabem que existe. Já está muito bom. A Zezé Motta está
organizando uma entidade para lutar contra o racismo. Aquelas
palavras da Irene Diggs parece de que estavam corretas. Embora seja
um racismo invisível, ele está aí, e tem gente pronta para lutar
contra. É preciso, no entanto, que o negro não exagere e chegue a
ver racismo em toda atitude do branco. É só o que eu tinha a
acrescentar. Eu já estou cansado de puxar as minhas lembranças.
Essas recordações são um fragmento de uma história subterrânea, ou
como disse o poeta Carlos de Assumpção, é uma história do “porão da
sociedade”. Mas ela mostra que o negro, ou uma minoria, depois de
1888, não ficou omisso à luta para resolver os problemas do grave
erro da lei chamada “Áurea”. Tudo o que se pretendeu fazer estava em
torno de corrigir os erros da lei de 1888. Esse é o espírito desta
narrativa. É possível que ainda outros venham acrescentar subsídios
mais valiosos a estas despretensiosas recordações, para mim muito
comoventes. E, parafraseando o poeta: “É uma história de vida
comovida”.
24.2.84.
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