|
REVISTA SUBMARINO
“Democracia racial é uma camisa
de força da literatura negra”
O poeta e militante negro Luiz Silva, o Cuti, diz que
a falsa idéia da boa convivência faz parte da
ideologia racista
MARIA JULIA COUTINHO
O poeta, ensaísta e escritor negro Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, é
um dos mais engajados militantes da literatura afro-brasileira.
Nascido em Ourinhos, interior de São Paulo, em 31 de outubro de
1951, Cuti foi um dos fundadores do Quilombhoje-Literatura, grupo
paulistano de escritores, surgido em 1980 e dedicado a discutir e
aprofundar a experiência afro-brasileira na literatura. Autor de
livros como “Poemas da Carapinha” e “Batuque de Tocaia” (Edição do
Autor), Cuti está também entre os criadores da série Cadernos
Negros, “nascida no bojo de um incipiente movimento que pretendia
dar continuidade à histórica epopéia de uma imprensa negra”.
Em entrevista à Revista Submarino, Cuti dispara suas críticas
às desigualdades raciais que dificultam a qualidade de vida e a
produção intelectual da comunidade negra no país. “O racismo para o
branco é um trunfo, ilusório, mas trunfo”, diz. Fala também da
autocensura do negro à sombra do chicote, da visão obtusa da
esquerda brasileira sobre a harmonia racial brasileira e a
cristalização na língua portuguesa de expressões racistas de difícil
reversão.
Revista Submarino – Como surgiu o Quilombhoje?
Cuti – Em 1978, havia, no Bexiga, um bairro de tradição negra
de São Paulo, uma das Escolas de Samba mais importantes da cidade, a
Vai Vai. Era lá também que, no passado, existiu o chamado Quilombo
da Saracura. Havia uma entidade chamada Centro de Cultura e Arte
Negra (Cecan). Esse centro era muito ativo, e ali nasceu uma
organização que pretendia aglutinar as outras organizações: a
Federação das Entidades Afro-Brasileiras do Estado de São Paulo (Feabesp).
Nessa época, no Cecan, chegamos a publicar um jornal chamado
Jornegro. No Cecan se uniram pessoas muito ligadas às letras e dali
nasceu a idéia de fazermos uma antologia que fosse capaz de publicar
poemas e contos de outros negros.
Revista Submarino – E a origem do nome?
Cuti – Trata-se de um neologismo que inclui a atualidade do
Quilombo, a noção da nossa retomada histórica e também inclui a
palavra bojo, ou seja, a nossa literatura está no bojo de um
movimento maior, que é o Movimento Negro Nacional. Além dos
encontros para discussão, o grupo passou também a realizar recitais
de poemas. Hoje, ele é uma instituição legal, cuja finalidade me
parece que continua a mesma, pelo menos em termos de Cadernos
Negros.
Revista Submarino – Por que razão você se afastou do grupo?
Cuti – Minha preocupação era de que o Quilombhoje se tornasse
realmente uma empresa, que entrasse no mercado e pudesse caminhar
com suas próprias pernas, que não dependesse de dinheiro de
instituições. No momento em que temos verbas, realizamos eventos,
mas não temos condições de enraizar um trabalho, de fazer com que o
trabalho se torne auto-suficiente.
Revista Submarino – Segundo o escritor e historiador Joel Rufino,
a contumaz invisibilização da afrodescendência na sociedade
brasileira e o monopólio de representação pelos brancos explicariam
a “inexistência” de obras literárias que retratem o negro como
herói, sábio etc. Você concorda com esta afirmação?
Cuti – Sim e não. O que os brancos mais fazem com os negros é
desanimá-los. No campo literário e em outros que concorre a
inteligência e o discurso é assim. A ilusão do racismo faz com que o
branco em relação a nós negros sustente, com esforço, a noção de que
é superior. Ora, reconhecer que negros são iguais tira o branco de
sua ilusão. Em uma sociedade competitiva, todos querem ser os
melhores. O racismo para o branco é um trunfo, ilusório, mas trunfo.
Negar capacidade ao outro é uma forte maneira de atribuí-la para si
mesmo. Manter o negro invisível é procurar manter sua visibilidade.
Racismo faz parte do “levar vantagem em tudo”. Mas cedo ou tarde a
armadura da ilusão vai mostrando suas fragilidades. O poder da
representação não será jamais doado, mas sempre conquistado. É o que
nós, escritores negros, temos feito.
Revista Submarino – E a receptividade do mercado diante dos
escritores negros?
Cuti – O ‘Deus Mercado’ é uma criação do branco. Eu não o
adoro. Para mim nem tudo que se vende é bom. Essa lógica é perversa.
Há uma necessidade de libertação interior. Os descendentes de
africanos sabem disso, lutam por isso. A literatura negra vai
encontrar dificuldade sim, porque o tal mercado é um deus, como
todos, vaidosíssimo. Tem suas vontades e quer um mundo refletindo a
sua ideologia. Mercado é reflexo da ideologia dominante. A vontade
da maioria é imposição de uma minoria branca, machista e racista. O
que sinto, portanto, é a imposição de pontos de vista, de
estereótipos, de uma visão de Brasil para inglês ver: branco, loiro
e de olho azul. Mas há aí uma luta. Inevitável. Porque a
receptividade é ideológica também. Em um jogo de cartas marcadas é
preciso desmascarar o jogo.
Revista Submarino – Por que existem tão poucos escritores
contemporâneos da raça negra?
Cuti – Porque há racismo no plano subjetivo e objetivo. Há
uma instância subjetiva muito importante a ser vencida: romper com a
“desidentidade” que o racismo nos impõe. Quando uma pessoa começa a
escrever, ela sabe que está produzindo algo que terá a sua
permanência e trará respostas. Ora, a sombra do chicote ainda está
madura no inconsciente coletivo da afrodescendência. Ser negro no
momento da escrita é, pois, o primeiro desafio para o poeta e
ficcionista negro. Saber que se trabalha com o branco no horizonte
de leitura é enfrentar, na raiz da criação, a opção em libertar-se
ou manter as correntes invisíveis. Por isso vemos que muitos negros
tornam-se branquíssimos quando escrevem. Ou seja, nada de sua
subjetividade negra aparece. Ele cultiva uma sentinela de censura em
seu subconsciente porque sabe que o branco é o leitor para o qual
suas palavras serão dirigidas.
Revista Submarino – Você acredita que o fato de muitos autores
negros não produzirem livros desvinculados da questão racial pode
denotar um comodismo, ou seja, é mais fácil se “proteger” com o
escudo da raça?
Cuti – Muito pelo contrário. Tudo tende a enterrar no desdém
a chamada “questão racial”, como se ela fosse algo atinente ao
complexo de inferioridade do negro. Por isso é mais cômodo se falar
de outras coisas e não tocar na questão racial, colocá-la debaixo do
tapete. A convivência entre negros e brancos impõe que se faça
silêncio com relação a raça no Brasil. Essa é uma maneira que se
encontrou de manter o racismo, ou seja, a vantagem dos brancos em
todos os campos. Veja, quando há nos meios de legitimação literária
a idéia de superioridade branca reinando, falar de racismo é tocar
em um tabu. Somos levados, portanto, em nome de uma falsa boa
convivência, a silenciar as variadas experiências de vida no tocante
aos contatos inter-raciais. Todo texto que silencia é muito melhor
aceito pelas instâncias de legitimação. No fundo, o que os brancos
quase sempre dizem, ao avaliar o texto de um autor negro que
silencia, é o seguinte: “Olha como ele não se deixa levar pelo
rancor. Olha como ele é universal.” No fundo, a idéia do Pai Tomás
está muito sólida na expectativa que o branco tem do negro. Por aí
que se valoriza e desvaloriza textos. E o próprio leitor negro acaba
embarcando nessa.
Revista Submarino – Por que a grande maioria da produção de selos
e de autores negros da atualidade está voltada quase somente para a
própria comunidade?
Cuti – Não está voltada só para a comunidade. Os demais é que
têm medo de tocar, queima a mão e incendeia os olhos. Faça um teste.
Deixe a “Revista Raça” em um consultório de classe média, entre
outras tantas revistas. Filme. Você certamente vai perceber como a
imagem do negro e sua mensagem serão repelidas. É a ilusão do
branco, o seu complexo de superioridade. Racismo tem em sua base
funcional a rejeição do outro, a recusa.
Revista Submarino – E como você aborda a questão racial em suas
obras?
Cuti – Procuro, em primeiro lugar, libertar-me da autocensura.
Para isso é fundamental permitir-me vislumbrar um horizonte de
leitores negros. Depois, deixo-me brincar com as palavras,
entrelaçando a questão racial em seus vários ângulos, inclusive
abordando os brancos e seus complexos enquanto matéria ficcional.
Também é importante para mim o jogo de desmontar os estereótipos.
Revista Submarino – Você se interessa por outros temas
desvinculados das questões raciais?
Cuti – Parece que, no fundo, a sua pergunta vem na direção
seguinte: você é também não-racista? Minha obra não tem centro
temático. Não me escondo para outras dimensões do ser humano. A
preocupação de que o negro escreva textos que não falem sobre a
questão racial é a preocupação da própria ideologia racista. Quem
mais escreveu sobre questão racial, tentando minimizá-la, foram
brancos. Nós negros temos muito ainda que produzir. Mergulhar na
história dos séculos de colonização e abordar a contemporaneidade é
uma tarefa imensa para várias gerações. A temática racial convive
com todas as outras em meus textos.
Revista Submarino – Como lutar contra essas barreiras?
Cuti – Creio que o esforço pessoal pode vencer tais barreiras
internas, mas é imprescindível que surja, em grande quantidade, o
leitor negro. Este é fundamental para libertar a criação. Os brancos
nos “coisificam” em suas produções intelectuais porque não nos tem
no horizonte de sua recepção. Um escritor branco jamais pensa em
leitor negro. Daí que se dirige a um outro branco, no seu íntimo.
Para o escritor negro se dá o contrário. Ele sabe que quem legítima
a literatura é branco e, por isso, tem dificuldade de se libertar do
leitor ideal branco, que, por tabela, remete o criador a uma
profunda autocensura. O monopólio do branco é, sobretudo, da mente
dos negros. Esse domínio subjetivo é a mais séria escravidão. E, sem
dúvida, dificulta e muito a criação literária afrodescendente.
Revista Submarino – Você escreveu um artigo em que falava sobre a
cristalização da língua portuguesa no Brasil. Como isso influencia o
trabalho do escritor negro?
Cuti – Ao cristalizar-se, a língua portuguesa enfeixou em seu
conteúdo semântico uma série de expressões racistas de difícil
reversão. A própria palavra “negro”. Os vários significados
pejorativos são empregados até hoje. Sem contar os novos termos que
os brancos vão cunhando ao longo do tempo, como por exemplo,
“crioléu” é a nova versão de “neguinho”. O sujeito fala
reiteradamente “neguinho faz isso faz aquilo”, querendo dizer com
isso que é um sujeito qualquer de péssima índole, folgado,
irresponsável, ou que tais, agiu de tal maneira. Quando você diz
“branquinho fez isso e aquilo”, ele acorda e te chama de racista. É
isso, dorme-se em “berço esplêndido”, sendo racista. O despertar é
sempre um espanto.
Revista Submarino – Como você vê a produção literária do negro no
Brasil comparada a outros países?
Cuti – Diante dos Estados Unidos, por exemplo, a literatura
afro-brasileira é muito pouco numerosa e bastante intimidada. A
ausência de uma luta declarada, a existência da camisa-de-força
chamada “democracia racial” desanima, confunde, atrasa o
desenvolvimento dessa literatura. Escritores com grande capacidade
literária, em nome de uma integração espúria na vida intelectual dos
brancos, acabam por silenciar a sua subjetividade e a de sua gente
negra. São chamados muitas vezes de crioulos, negões, e acham que
tudo vale, desde que sejam considerados escritores pelos que
monopolizam a opinião pública. Daí que preferem, os que se pretendem
de esquerda, veicular a noção de harmonia racial brasileira,
impedida, apenas pela exploração de classe. É a cartilha de Jorge
Amado. Os que se pretendem de direita, então, vão basear a
identidade negra apenas em traços de cultura popular de origem
africana e farão um completo silêncio quanto à zona de conflito
étnico. Passam longe.
Voltar ...
Superintendência de Comunicação da Eletropaulo, editada pelo
Departamento de Patrimônio Histórico.
Entrevista
Fonte Misteriosa de Juventude
Memória – Por que José Correia Leite?
Cuti – Sabedoria e disponibilidade foram os principais
componentes que me atraíram para o Velho. Ao me aproximar, não senti
barreira. Ele não colocou entre nós os cinqüenta anos que nos
separavam. Então essa diferença não separou. Penso que o militante
convicto tem consigo uma fonte misteriosa de juventude. Vontade de
mudança. Está sempre disposto a contribuir, nem que seja apenas para
fornecer munição às armas do sonho. O Correia Leite era assim: um
guerreiro, um homem que fez de sua luta um ato de amor. E ressaltava
de sua personalidade o respeito pelo outro. Certa vez, eu cheguei a
sua casa e percebi uma senhora saindo com revistas religiosas nas
mãos. Entrei e notei que ele havia adquirido algumas. Eu sabia de
seu ateísmo pacífico, mas estranhei a aquisição. E perguntei-lhe: “–
Leite, se você não acredita nem professa essa religião por que
comprar a revista?” A resposta veio tranqüila: “– Eu admiro muito a
militância deles. Saem de porta em porta. Tomam sol... Eu admiro.
Eles são militantes mesmo!”. Eu estava diante de um humanista
ferrenho. Em outros militantes do Movimento Negro do passado era
comum você encontrar uma certa arrogância, um certo pedantismo de
quem sabe e não se dispõe a partilhar. O Correia era o contrário.
Talvez até por ser um artista, um pintor, e um autodidata, ele não
embarcou nas vaidades do diploma. E também, creio, por não ter
deixado a militância para cuidar da vida pessoal. Ele não criou
distância entre essas dimensões de sua vida.
Memória – Qual a influência hoje do pensamento político do
velho Leite para os negros brasileiros?
Cuti – Para responder a essa questão seria necessário uma
análise sobre o que os negros brasileiros pensam. Somos muitos,
mesmo na área restrita da produção intelectual. Por outro lado,
poucos conviveram com José Correia Leite. Refiro-me aos militantes
de hoje, ou aos tão-somente intelectuais. O respeito aos velhos, um
traço marcante da herança africana no Brasil, infelizmente vai
desaparecendo quando o indivíduo entra na escola. Eu vi (e vejo
ainda hoje) muita gente que, sendo militante, não sabe absorver a
experiência dos mais velhos. E estes, por sua vez, se desrespeitam
também quando entram neste jogo da prepotência, batizado muito
impropriamente de choque de gerações. Apesar de não ser possível uma
reflexão pormenorizada sobre uma influência, penso que o fundador de
O Clarim d´Alvorada deixou o exemplo de uma prática associada
à produção de idéias. A sujeição do militante negro aos partidos
políticos foi algo sempre criticado por ele. A necessidade de se
construir entidades fortes, sem ficar “estendendo o chapéu” aos
brancos, também era um ponto em que ele insistia. Por trás destas
posturas, estava o seu valor maior: a dignidade. Sempre criticou o
comportamento do “tira o pozinho do paletó do doutor”. Era contra a
bajulação, o puxassaquismo, essas atitudes que degradam o oprimido.
Fazia muita referência aos “negros sem espinha”. Suas idéias vinham
de uma filosofia de vida erigida na luta e no sofrimento.
Memória – A cidade de São Paulo está bem presente como
pano de fundo do livro. Fala de espaços que já não existem mais. Dá
pra você falar um pouco do que o velho Leite comentava dos clubes e
pontos de encontro dos negros na cidade.
Cuti – Quando ele fala do espaço urbano, é fácil perceber que
era um grande apaixonado por São Paulo. Era um homem urbano. Nasceu
e viveu na Paulicéia. Para ele os lugares de organização do seu
povo, ainda que não fossem propriedade, eram de particular
significação. Por isso agremiações como o Cosmos, a Frente Negra, o
Clube Negro de Cultura Social, a Associação Cultural do Negro, são
citados e comentados com atenção e esforço de memória. A rua
Direita, já na época de sua juventude, constituía um ponto de
encontro dos negros de São Paulo. E a reconstituição que ele faz,
inclusive mostrando os conflitos advindos do racismo branco contra a
presença coletiva dos afro-brasileiros no espaço urbano, nos fornece
muito conteúdo para percebermos como a intolerância racial procede
para demarcar a cidade.
Memória – A riqueza de detalhes da militância política do
velho Leite e o processo de criação artística de Cuti, como se
harmonizaram?
Cuti – Eu fui alertado para a história recente e sua
importância motivadora de uma literatura negra brasileira. A
educação que recebemos nos transforma em seres do passado. E
tão-somente do passado escravo. É como se tivéssemos nascido no
navio negreiro e morrido com o autógrafo da princesa. Daí tronco,
senzala, chibata, quilombo, Zumbi ficarem sendo temas privilegiados
da nossa produção. O contato com o Correia Leite me ajudou muito a
ampliar meu repertório. Em seus textos publicados na imprensa e em
nosso diálogo, que gerou o livro, eu me deparei constantemente com a
sua inquietação do saber o “antes” e o “depois”. Ora, uma pessoa que
chega na casa dos oitenta inquieta, lendo jornais todos os dias (sem
óculos), livros, revistas e pintando aquarelas, atenta para as
notícias de conteúdo racial, acaba entusiasmando seu interlocutor.
Além disso, ele nos dava o privilégio de ler e comentar comigo os
textos publicados nos Cadernos Negros, tanto os poemas quanto
os contos. Aliás, chegou a fazer uma pequena introdução para o nº 2
da série. Outro sentido profundo de harmonia foi o exemplo de
perseverança. O velho Leite teve ousadia no tempo. A arte, sobretudo
a literatura, necessita desta ousadia. E as organizações militantes
também. Talvez tenha sido decisivo o contato com o Leite para que eu
tivesse perseverado a minha atuação no Quilombhoje, o grupo de
escritores que publica os Cadernos Negros. Estamos convivendo
há mais de dez anos e eu acho que temos muito ainda a fazer.
Memória – O que o velho militante falou para o novo
militante e não consta no livro?
Cuti – Muita coisa é pra não dizer. Referências a pessoas que
ele não pretendia magoar. Amigos, sabe... Ele não era um homem de
difamar ninguém. Mas sabia certas intimidades de algumas pessoas. No
mais falava de sua própria vida familiar, suas frustrações e
desilusões enquanto militante, mas sobretudo dos livros que lera.
Comentava também sobre a solidão pós-aposentadoria e afastamento da
militância das entidades. Neste ponto, uma lição fundamental: a arte
é a possibilidade mais viável de suportarmos a nossa solidão
primitiva.
Voltar ...
Callaloo
(Bilingue: Português / Inglês)
CHARLES H. ROWELL: Em São Paulo, durante
alguns anos, os escritores negros se organizaram e publicaram seus
trabalhos através de um periódico. Você poderia falar da história e
do propósito de Quilombhoje? Como foi a sua presença na formação
desta organização?
CUTI: Em 1978, havia no Bexiga, um
bairro de tradição negra, uma das Escolas de Samba mais importantes
de São Paulo, que é a Escola de Samba VAI VAI e onde, também, no
passado, existiu o chamado Quilombo da Saracura. Lá existia uma
entidade chamada Centro de Cultura e Arte Negra (CECAN). Em 1978,
essa entidade, esse centro cultural era muito ativo, e ali nasceu
uma instituição, uma organização que pretendia aglutinar as outras
organizações, que foi a Federação das Entidades Afro-Brasileiras do
Estado de São Paulo (FEABESP). Nessa época, no CECAN, chegamos a
publicar um jornal chamado JORNEGRO. No CECAN se uniram pessoas
muito ligadas às letras e dali nasceu a idéia de fazermos uma
antologia que fosse capaz de publicar poemas e contos de outros
negros. Inicialmente, a idéia nasceu comigo e com Hugo Ferreira e,
em 1978, fizemos a publicação de um pequeno livro e já sabíamos que
a série iria continuar. O Hugo Ferreira saiu, ele era um advogado,
precisou cuidar de outros interesses e fiquei trabalhando sozinho. E
dali em diante fiz a antologia com a ajuda dos outros escritores,
ajudas eventuais, e sempre com a participação financeira de cada um,
todos eles pagavam. Eu recolhia os textos, recolhia o dinheiro, ia à
gráfica, fazia a edição, organizava o lançamento e assim seguimos
até o quinto Cadernos Negros, que foi feito em 1982. Mas,
paralelo ao Cadernos Negros, eu, Oswaldo de Camargo, Abelardo
Rodrigues, Paulo Colina e um escritor argentino chamado Mario Jorge
Lescano, nos reuníamos e discutíamos literatura e, por volta de
1980, resolvemos nos dar um nome, no sentido de constituir um grupo
que fosse reconhecido e que pudesse realizar trabalhos de debates e
outras manifestações. Nós nos reuníamos num bar, no centro da cidade
de São Paulo, chamado Mutamba, e começamos a selecionar vários nomes
e eu sugeri o nome Quilombo, mais a palavra hoje que daria
Quilombhoje. Uma das coisas que achei curiosas nesse nome, que as
pessoas aceitaram, é que a palavra Quilombhoje, tem "bojo" embutida.
Ela é um neologismo que inclui a atualidade do Quilombo, a noção da
nossa retomada histórica e também ela inclui a palavra bojo, ou
seja, a nossa literatura está no bojo de um movimento maior, que é o
Movimento Negro Nacional. Ocorreu que depois que o Quilombhoje se
instituiu, tivemos a chegada de novas pessoas, que passaram a se
aproximar do grupo. Além dos encontros para discussão, o grupo
passou também a realizar recitais de poemas. Esses recitais tiveram
uma forma muito criativa e essa forma nasceu de uma reunião em minha
casa, quando estávamos lá, eu, Paulo Colina, creio também que
Abelardo Rodrigues, discutindo literatura. Ali encontramos a forma
ideal para dizer os nossos poemas e a denominamos de Roda de Poemas.
Essa Roda de Poemas incluía uma cantoria, um canto que fazíamos, que
compúnhamos. A letra desse canto versava sobre
alguma personagem histórica ou mesmo personagem de relevo dentro da
cultura afro-brasileira, e dávamos o nome da Roda de Poemas a essa
pessoa e até mesmo a um evento. A primeira Roda de Poemas que
fizemos se chamou Roda de Poemas Luís Gama, em homenagem ao grande
abolicionista, talvez o maior abolicionista, que viveu na cidade de
São Paulo, e em nome de quem fizemos depois outros trabalhos. O
Quilombhoje se dividiu com a chegada de outras pessoas, os membros
mais antigos se afastaram e os jovens passaram a fazer parte do
Quilombhoje. Quando houve a saída de Oswaldo de Camargo, de Abelardo
Rodrigues, de Paulo Colina e de Mario Jorge Lescano, a partir
daquele momento, os mais jovens que haviam chegado, que foram Miriam
Alves, Oubi Inae Kibuko, Esmeralda Ribeiro, Sônia Fátima da
Conceição (que já estava anteriormente) e Jamu Minka formaram, não
só um grupo de discussão literária, mas também um grupo de trabalho.
As Rodas de Poema passaram a ser mais freqüentes e o grupo resolveu
assumir a tarefa que era só minha, a de publicar os Cadernos
Negros. Com o afastamento dos quatro elementos que já citei, o
Quilombhoje tomou um novo rumo e passou a publicar anualmente a
série Cadernos Negros, e até hoje ela vem sendo ininterrupta.
Eu me afastei do grupo este ano, em janeiro, mas assim mesmo já foi
publicado o número 17 da série Cadernos Negros. Portanto, são
17 anos de publicação, um livro por ano, alternando a poesia e os
contos. Além das pessoas que passaram a fazer parte do Quilombhoje,
houve também a presença de um outro indivíduo que foi o Abílio
Ferreira. A partir do final do ano passado, o grupo se constituiu
numa entidade sem fins lucrativos. Hoje, ele é uma instituição
legal, cuja finalidade me parece que continua a mesma, pelo menos em
termos de Cadernos Negros. O meu afastamento se deu por
várias razões, por questões até mesmo da própria organização. Eu era
a favor de uma empresa, de uma microempresa e a maioria das pessoas
passou a ser a favor de um instituição. E as minhas razões são
óbvias. Temos muitas instituições, e as instituições vivem sempre de
dinheiro de fundações e outras entidades, e são sempre verbas
incertas. Num momento elas existem, noutro momento não existem mais.
Minha preocupação era de que o Quilomboje se tornasse realmente uma
empresa, que entrasse no mercado e pudesse caminhar com suas
próprias pernas, que não dependesse de dinheiro de instituições. No
momento em que temos verbas, realizamos eventos, mas não temos
condições de enraizar um trabalho, de fazer com que o trabalho se
torne auto-suficiente.
ROWELL: Nos Estados Unidos, o Brasil vem
sendo descrito para a gente como uma democracia racial. Se é assim,
por que seria necessário que um grupo de escritores afro-brasileiros
em São Paulo se organizasse separado dos escritores brancos? Por que
os escritores afro-brasileiros não fazem parte dos grupos de
escritores ou artistas brancos?
CUTI: Bom, primeiramente é preciso dizer
que o racismo brasileiro é o racismo mais eficaz do mundo, é o
racismo mais eficaz do mundo inteiro porque ele se baseia numa
hipocrisia refinada. Essa idéia de democracia racial surgiu,
sobretudo, com o sociólogo Gilberto Freyre e ela veio exatamente
para tornar o racismo brasileiro mais dificil de ser combatido.
Porque através dessa ideologia da democracia racial, a elite
brasileira vendeu para o mundo a idéia de que
aqui não há preconceito, de que aqui não há discriminação racial.
Por outro lado, ela fez com que os negros brasileiros introjetassem
a discriminação, de uma maneira que não fossem receptivos a uma
mensagem diferente, que demonstrasse o quanto a população negra é
discriminada barbaramente no Brasil. Quando há uma chacina como a da
Candelária, para a população brasileira, o fato de a maioria das
crianças serem negras, é apenas uma mera coincidência. Quando há uma
chacina, como a de Vigário Geral, o fato de a maioria das pessoas
serem negras, para a população brasileira, para a mídia brasileira,
para a televisão, para a imprensa, o fato de as pessoas serem
negras, é mera coincidência. Quando 111 presos são fuzilados na
penitenciária do Carandiru, em São Paulo, e você verifica que a
maioria é de negros e mestiços, para a mentalidade negra brasileira,
isso é mera coincidência. Quando voce pega a população das favelas e
observa que a maioria é negra e mestiça, para a mentalidade
brasileira, isso é mera coincidência. Não se trata de discriminação
racial. Então, quando a intelectualidade brasileira instituiu essa
ideologia, porque é uma ideologia a democracia racial, ela instituiu
o racismo de forma eficaz. Porque ela fez com que o brasileiro
acreditasse que não há discriminação. É muito comum vermos figuras
negras que têm destaque no esporte ou na música, ao serem
entrevistados, dizerem que não há discriminação racial no Brasil.
Alguns, como eu já soube, que estiveram no exterior, foram
supreendidos vendendo essa imagem de democracia racial. O Brasil
instituiu um racismo que é gradativo, ou seja, quanto mais próximo,
em termos de epiderme, do branco, melhor o indivíduo é aceito.
Existe na literatura brasileira um fenômeno que já foi até estudado,
de que o próprio Machado de Assis em suas fotografias vem sendo cada
vez mais embranquecido, ou seja, as características do Machado, as
características negras foram sendo trabalhadas nas fotografias para
aproximá-lo do modelo branco. E nós sabemos que há um tripé
fundamental na literatura brasileira que é constituído de Machado de
Assis, de Lima Barreto e de Cruz e Souza, dois mulatos e um negro.
Então, esse aspecto, esse Machado negro, esse Lima Barreto negro,
esse Cruz e Souza negro, na literatura brasileira, o fato deles
serem negros é colocado como algo que não tem interesse, algo que
não importa. A questão da democracia racial é muito delicada para o
Movimento Negro. Ela é um grande problema. Nós não podemos trabalhar
para desmistificá-la da mesma maneira como trabalharam os negros
americanos, da mesma maneira como trabalharam os negros
sul-africanos, por exemplo. Porque aqui nós temos um problema de uma
hipocrisia refinada e de uma introjeção do racismo pela população
negra muito acentuada. Há indivíduos que são negros, que sofrem
discriminação, mas não admitem. É como dizia o educador Paulo
Freire, o oprimido é hospedeiro do opressor. Para a questão racial
no Brasil, esta colocação do Paulo Freire serve perfeitamente,
porque aqui, o negro, além de ter o problema de se esforçar para se
aproximar do padrão estético branco, através do alisamento de
cabelo, através de muitas coisas, ainda tem esse problema da
introjeção da ideologia, ou seja, não admitir que é discriminado.
Não admitir, por exemplo, que, o fato de nos altos escalões dos
governos federal, estadual e municipal não existirem negros, é um
dado da discriminação. Portanto, a população negra não enxerga esse
dado. Então, a democracia racial no Brasil, é, como eu já disse, uma
elaboração ideológica de alto refinamento hipócrita.
ROWELL: Como é que você e outros
escritores afro-brasileiros tratam a questão do racismo nas suas
obras criativas?
CUTI: Essa sua pergunta é muito
interessante, porque ela traz uma das questões já muito debatidas
por todos os escritores negros do mundo inteiro, que é a questão
básica de sua língua materna ser uma língua estrangeira, ou seja,
estrangeira do ponto de vista de suas raízes. Aqui no Brasil falamos
português desde que nascemos. Ora, nós sabemos que a língua é uma
produção humana. E a língua portuguesa no Brasil se cristalizou a
partir das determinações de uma classe dirigente. Então, ela se
cristalizou com todos os preconceitos, com toda a ideologia racista,
incrustada nessa língua. Se abrirmos um dicionário, vamos observar
bem que a palavra branco tem um número de significados muito pequeno
com relação à palavra negro. Nós vamos ver também que existem
palavras que não têm correspondência para o branco. Por exemplo, o
dicionário da língua portuguesa destaca o cheiro do negro, existe
uma palavra que define o cheiro do negro, não há uma palavra que
defina o cheiro do branco. Existem palavras que definem o tipo de
cabelo do negro, não existe palavra que defina o tipo de cabelo do
branco, não é? Aliás, para o cabelo existem várias palavras. E, nós
notamos também que a língua tem determinados componentes como, por
exemplo, quando a polícia faz uma batida em qualquer sentido, seja
no trânsito, ou seja em algum lugar, quando ela revista várias
pessoas, a expressão para isto é de que ela está fazendo "uma
operação pente-fino." Por que essa "operação pente-fino"? Por que o
pente-fino? Porque, é lógico, no cabelo crespo do negro, esse
pente-fino não passa. Isso quer dizer que você pegou o suspeito pelo
cabelo. Historicamente, você começa a notar, na estrutura da língua,
configurações que são tremendamente racistas, configurações mesmo de
frases, de sintaxes, de noções que vão sendo repetidas através da
história brasileira, e que elas acabam também servindo para
cristalizar a discriminação e o racismo. A língua portuguesa falada
no Brasil é um grande sustentáculo da ideologia. Quando não só eu,
mas outros escritores como Arnaldo Xavier, Márcio Barbosa, Ronald
Tutuca, que é uma pessoa também muito preocupada com essa questão da
língua, quando enveredamos por um caminho de criar novas palavras,
estamos buscando exatamente isso, buscando uma expressão capaz de
traduzir determinados sentimentos, determinadas atitudes nossas
perante à vida, que a língua portuguesa não tem. Por outro lado, do
ponto de vista também dos valores culturais, existem muitas palavras
ainda hoje que são utilizadas em determinadas áreas, por exemplo no
samba, mesmo no candomblé, que são palavras que não foram para o
dicionário. São palavras utilizadas, são corriqueiras e que você vai
ao dicionário e não tem. Então, é preciso o escritor estar
preocupado com esse manancial expressivo da sua própria cultura, dos
seus próprios valores. A minha preocupação, enquanto escritor, passa
por essa tentativa de criar palavras e de criar outros sentidos
porque nós não podemos nos acomodar, porque esta língua que está aí,
que nós falamos, que nós usamos, esta língua não foi estruturada
para nossa libertação, muito pelo contrário, ela foi estruturada
para nos manter numa situação de opressão.
14 de dezembro de 1994
São Paulo
CHARLES H. ROWELL: In São Paulo, for a few
years, black writers organized themselves and published their work
in a newspaper. Will you talk about Quilombhoje, its history and
purpose? What part did you play in its formation?
LUIZ SILVA CUTI: In 1978, there existed in
Bexiga--a traditional black neighborhood--one of the most important
samba schools in São Paulo, the VAI VAI Samba School, where there
also existed, in the past, the so-called Quilombo da Saracura. It
was there that the Center for Negro Culture and Art (CECAN) was
located. In 1978, this organization, this cultural center, was very
active, and an institution was born there that aimed to bring
together other institutions; it was called the Federation of
Afro-Brazilian Institutes of the State of São Paulo (FEABESP).
During that time, at CECAN, we started publishing a newspaper called
Jornegro. At CECAN, people who were connected to the literary
world came together, and from this was born the idea to establish an
anthology that would publish poems and short stories by other black
writers.
Initially, Hugo Ferreira and I came up with the
idea and, in 1978, we published a small book and knew immediately
that the series would continue. Hugo Ferreira left--he was a lawyer
and had other interests to attend to--and I remained, working alone.
And from then on I did the anthology with the eventual help of the
other writers, and always with the financial participation of each
one; they all paid. I would collect the texts and the money, go to
the print shop, do the editing, organize the book launching, and we
continued like that until the fifth Cadernos Negros, which
was done in 1982.
But, alongside the Cadernos Negros,
Oswaldo de Camargo, Abelardo Rodrigues, Paulo Colina, an Argentine
writer named Mario Jorge Lescano, and I were meeting and discussing
literature, and somewhere around 1980, we resolved to come up with a
name for ourselves, with the aim of forming a group that could be
recognized and would organize debates and other functions. We used
to meet in a bar called "Mutamba" in the center of the city of São
Paulo, and we started to select various names and I suggested the
name Quilombo, plus the word hoje [today] which makes
Quilombhoje. One of the things I thought was interesting about this
name, and people agreed, is that the word Quilombhoje has the word
bojo [bulge, swelling or salience] imbedded within it.
Quilombhoje is a neologism that encompasses the present state of the
Quilombo, the notion of our historic retaking of it. Quilombhoje
also includes the word bojo, which is to say that our
literature is in the swell of a larger movement, the National
Negro Movement. It happened that after Quilombhoje became
instituted, we experienced the arrival of new people that became
close to the group.
Besides the discussion meetings, the group began
to organize poetry readings. These readings had a very creative
format which sprang from a meeting at my house,
when Paulo Colina--I think also Abelardo Rodrigues--and I were there
debating literature. There we hit on the ideal format for reading
our poems and we called it the Circle of Poems. The Circle of Poems
included a theme song that we composed. The lyrics of the song had
to do with some historic personage, or more precisely an outstanding
person in the area of Afro-Brazilian culture, and we would attach
that person's name to the Circle of Poems or even some other event.
The first Circle of Poems that we did was called the Luís Gama
Circle of Poems, in honor of the great abolitionist, perhaps the
greatest, who lived in the city of São Paulo, and in whose name we
later organized other projects.
Quilombhoje split up with the arrival of other
people: the older members left and the younger ones became part of
Quilombhoje. When Oswaldo de Camargo, Abelardo Rodrigues, Paulo
Colina and Mario Jorge Lescano left, the younger members that had
arrived--Míriam Alves, Oubí Jnaê Kibuko, Esmeralda Ribeiro, Sônia
Fátima da Conceição (who had previously joined) and Jamu Minka--formed
not only a discussion group but also a work group. We then began to
hold meetings of the Circle of Poems more frequently, and the group
resolved to take on the task that had been mine alone: they began
publishing Cadernos Negros. With the departure of the four
people I already mentioned, Quilombhoje took a new direction and
began to publish the Cadernos Negros series annually, and it
has continued uninterrupted until today. I left the group this year,
in January, but even so Number 17 of the Cadernos Negros
series was just published. Therefore, it has had seventeen years of
publication, alternating poetry and short stories. Besides the
people that joined Quilombhoje, there was also the presence of
another individual, Abílio Ferreira. From the end of last year on,
the group has been a non-profit entity.
Today, Quilombhoje is a legal institution, whose
purpose seems to me to remain the same, at least in terms of the
Cadernos Negros. My separation happened for various reasons,
because of issues involving the very structure of the organization.
I was in favor of a business--a small business--and the majority of
people were in favor of an institution. And my reasons are obvious.
We have many institutions, and institutions always depend on the
money of foundations and other entities, which is always an
uncertain amount. One moment they exist, the next moment they exist
no longer. My concern was that Quilombhoje truly become a business,
that could enter the market and support itself, that wouldn't depend
on the money of institutions. At the point when we have available
funds, we organize events, but we don't have the conditions to
establish a project, to make the project become self-sufficient.
ROWELL: In the United States, we are told
that Brazil is a racial democracy. If that is the case, why would it
be necessary for a group of Afro-Brazilian writers in São Paulo to
organize themselves separately from white writers? Why aren't black
writers members of white arts or white writers groups?
CUTI: Well, first it's necessary to say
that Brazilian racism is the most efficient racism in the world.
It's the most efficient racism in the entire world because it is
based on a refined hypocrisy. That idea about racial democracy
emerged, above all, with the sociologist Gilberto Freyre and its
exact purpose was to make it more difficult to [End Page 730]
combat Brazilian racism. This is because through that ideology of
racial democracy, the Brazilian elite sold the world on the idea
that there is no prejudice here, that here there is no racial
discrimination.
On the other hand, it has Brazilian blacks
internalizing discrimination, in a way such that they aren't
receptive to a different message, one that would demonstrate just
how much and how barbarically the black population is discriminated
against in Brazil. When there is a massacre like the Candelária one,
for the Brazilian population the fact that the majority of the
children were black is just a mere coincidence. When there is a
massacre like the Vigário Geral one, the fact that the majority of
people were black is, for the Brazilian population, for the
Brazilian media, for the television, for the press, just
coincidence. When 111 prisoners are shot at Carandiru Penitentiary
in São Paulo, and you verify that the majority were black and
mestiço, for the Brazilian black mentality, that's just a
coincidence. It's not a matter of racial discrimination. So when the
Brazilian intelligentsia institutes that ideology--and it is an
ideology of racial discrimination--it institutes racism in an
efficient way, because it makes the Brazilian believe there is no
discrimination. It's very common to see outstanding black sports and
music figures, upon being interviewed, say that there is no racial
discrimination in Brazil. Some of them who have been outside the
country have been caught selling that image of Brazil as a racial
democracy.
Brazil has instituted a racism in terms of
gradation, which is to say that the closer an individual is to being
white, in terms of skin color, the more he is accepted. There exists
in Brazilian literature a phenomenon, which has already been
studied, in which Machado de Assis himself appears to be whiter and
whiter in his successive photographs. In other words, Machado's
features, his Negroid features, were altered in the photographs in
order to approximate him to the white model. And we know that there
is a fundamental trio in Brazilian literature which is formed by
Machado de Assis, Lima Barreto and Cruz e Souza, two mulattos
and a negro. This black Machado, this black Lima Barreto,
this black Cruz e Souza, in Brazilian literature--the fact that they
were black is presented as something of no interest, something that
doesn't matter. The issue of racial democracy is a very delicate one
for the black movement. It is a big problem. We cannot work to
demystify it in the same way that the American blacks did, or in the
same way that the South African blacks did. Because here we have the
problem of a refined hypocrisy and a very marked internalization of
racism by the black population.
There are black individuals in Brazil that suffer
discrimination but don't admit it. It's like the educator Paulo
Freire used to say: he who is oppressed is the host of his
oppressor. For the racial issue in Brazil, Paulo Freire's position
serves perfectly, because here the black Brazilians, besides having
the problem of striving to fit the white aesthetic pattern by
straightening his hair (or by doing many things) still has the
problem of the internalization of the ideology, or not admitting
that he is discriminated against. Not admitting, for example, that
it is a given, a fact, of discrimination that in the upper echelons
of the federal, state and municipal governments, there are no black
people. Therefore, the black population does not discern that given.
So racial democracy in Brazil is, as I already said, an ideological
elaboration of highly hypocritical refinement.
ROWELL: How do you and other
Afro-Brazilian writers address these issues of racism in your
creative writing?
CUTI: Your question is very interesting,
because it implies one of the issues that is frequently debated by
black writers the world over, which is the basic issue of their
mother tongue being a foreign tongue--foreign, that is, from the
point of view of their roots. Here in Brazil we speak Portuguese
from when we are born. Now, we know that language is a human
production. And the Portuguese language of Brazil crystallized due
to the determination of a ruling class. So, it became crystallized
with all of the prejudices, all of the racist ideology, encrusted in
the language. If we open the dictionary, we will observe that the
word branco [white] has a very small number of meanings in
comparison to the word negro [black]. We will also see that
there are words which don't correspond to white. For example, the
dictionary of the Portuguese language contains a word that defines
the smell of black people. There is no word that defines the smell
of white people. There are words that define black hair type, but
there is no word that defines white hair type. There are many other
racist words in the Portuguese language. And we note that the
language has certain racialized components. For example, when the
police conduct a raid in any sense, in traffic or anywhere, when
they search a number of people, the expression for this is that they
are doing "a fine-toothed comb operation." Why this "fine-toothed
comb operation"? Why the fine-toothed comb? Because it's logical--in
the very curly hair of black people, this fine-toothed comb won't
budge. That means that you caught the suspect by the hair.
Historically, you begin to notice, in the structure of the language,
configurations that are tremendously racist, configurations of
phrases, syntax, notions that are repeated throughout Brazilian
history, and they too end up serving to crystallize discrimination
and racism. The Portuguese language spoken in Brazil is an enormous
ideological support of racism in Brazil.
When, besides myself, other writers like Arnaldo
Xavier, Márcio Barbosa, Ronald Tutuca--who is also someone very much
preoccupied with the issue of language--when we set out to create
new words, we are looking for exactly that, looking for an
expression capable of translating certain feelings, our specific
attitudes in life, which the Portuguese language does not have. On
the other hand, also from the viewpoint of cultural values, there
are many words even today that are utilized in certain areas of
activity--for example in samba, even in candomblé, which are words
that haven't made it to the dictionary. They are used words,
commonplace words and you go to the dictionary and it doesn't have
them. So, it's necessary for the writer to be concerned with this
expressive fountain of his own culture, of his own values. My
concern, as a writer, filters through this effort to create words
and to create other meanings because we cannot accommodate
ourselves, because this language out there, that we speak, that we
use, this language was not constructed for our liberty. It was
constructed to keep us in a state of oppression.
December 14, 1994
São Paulo
Translated by Bruce Willis
Voltar ...
|