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CUTI;
ASSUMPÇÃO, Carlos. Quilombo de Palavras – CD. Franca :
Estúdio Mix, 1997.
Este CD compõe-se de 6 faixas, com o total de 24 poemas, 12 de cada
poeta, gravados na voz dos mesmos, com fundo de músicas africanas.
Aqui são
apresentados dois poemas: Sobre as Cicatrizes, de Cuti (faixa
6) e Protesto, de Carlos de Assumpção (faixa 5).
SOBRE AS
CICATRIZES
até mesmo o
lamento
possa olhar nos
olhos
sem se ajoelhar
não seja a
poesia
o álibi
a quem imolou a
dignidade
ao invés de se
rebelar
contra a
ridícula maldição etílica
de noé
sejamos mais
felizes
ao desnudar as
partes do livro
para que a
beleza floresça mais fecunda
sobre as
cicatrizes
o poema...
é também um jogo
de búzios
o poema
à beira deste
fogo
onde no crepitar
das chamas
a paixão
responde ao
“-que
farás?”:
QUE FAREMOS?
irmão, minha
irmandade
nada tem de
rosário
o meu deus
é revolucionário
histórias
libertárias ainda são narradas
na maciez do
escuro
por isso da
melancolia
vamos extrair o
mel
e não as cólicas
místicas
que avalancham
de silêncio e cal
nossas línguas
e nos rodeiam
com fantasmas
de senhores de
engenho
e anjos entoando
sabemos com o
quanto de branco
se desfaz uma
pessoa colorida
quando a cidade
pobre de curvas
faz seu trottoir
em nosso anseio
roda a bolsinha
recheada de angústia, racismo
e pesadelos
exibindo seu
titubeio
e de nada
adianta
ofertares a
outra face traseira
os judas te
chutam do mesmo jeito
e dão normal
seguimento à liturgia
abençoando a
mais-valia
teus cueiros
borrados de alvuras
não se esfregam
no cenho
não se lavam no
pranto
mas nas ondas de
um novo canto
brilhantes e
puras
que nos vêm do
âmago
e o
poema
é também um ebó
de sonho e sangue
na encruza do
que se crê
(-laroiê!)
estamos
libertando do pelourinho
a
palavra
e com suas asas
tingiremos de
alegria
o hesitante
horizonte das metáforas
magoadas e
medrosas.
(Cuti)
PROTESTO
Mesmo que voltem
as costas
Às minhas
palavras de fogo
Não pararei de
gritar
Não pararei
Não pararei de
gritar
Senhores
Eu fui enviado
ao mundo
Para protestar
Mentiras
ouropéis nada
Nada me fará
calar
Senhores
Atrás do muro da
noite
Sem que ninguém
o perceba
Muitos dos meus
ancestrais
Já mortos há
muito tempo
Reúnem-se em
minha casa
E nos pomos a
conversar
Sobre coisas
amargas
Sobre grilhões e
correntes
Que no passado
eram visíveis
Sobre grilhões e
correntes
Que no presente
são invisíveis
Invisíveis mas
existentes
Nos braços no
pensamento
Nos passos nos
sonhos na vida
De cada um dos
que vivem
Juntos comigo
enjeitados da Pátria
Senhores
O sangue dos
meus avós
Que corre nas
minhas veias
São gritos de
rebeldia
Um dia talvez
alguém perguntará
Comovido ante
meu sofrimento
Quem é que está
gritando
Quem é que
lamenta assim
Quem é
E eu responderei
Sou eu irmão
Irmão tu me
desconheces
Sou eu aquele
que se tornara
Vítima dos
homens
Sou eu aquele
que sendo homem
Foi vendido
pelos homens
Em leilões em
praça pública
Que foi vendido
ou trocado
Como instrumento
qualquer
Sou eu aquele
que plantou
Os canaviais e
cafezais
E os regou com
suor e sangue
Aquele que
sustentou
Sobre os ombros
negros e fortes
O progresso do
país
O que sofrera
mil torturas
O que chorara
inutilmente
O que dera tudo
o que tinha
E hoje em dia
não tem nada
Mas hoje grito
não é
Pelo que já se
passou
Que se passou é
passado
Meu coração já
perdoou
Hoje grito meu
irmão
É porque depois
de tudo
A justiça não
chegou
Sou eu quem
grita sou eu
O enganado no
passado
Preterido no
presente
Sou eu quem
grita sou eu
Sou eu meu irmão
aquele
Que viveu na
prisão
Que trabalhou na
prisão
Que sofreu na
prisão
Para que fosse
construído
O alicerce da
nação
O alicerce da
nação
Tem as pedras
dos meus braços
Tem a cal das
minhas lágrimas
Por isso a nação
é triste
É muito grande
mas triste
E entre tanta
gente triste
Irmão sou eu o
mais triste
A minha história
é contada
Com tintas de
amargura
Um dia sob
ovações e rosas de alegria
Jogaram-me de
repente
Da prisão em que
me achava
Para uma prisão
mais ampla
Foi um cavalo de
Tróia
A liberdade que
me deram
Havia serpentes
futuras
Sob o manto do
entusiasmo
Um dia
jogaram-me de repente
Como bagaços de
cana
Como palhas de
café
Como coisa
imprestável
Que não servia
mais pra nada
Um dia
jogaram-me de repente
Nas sarjetas da
rua do desamparo
Sob ovações e
rosas de alegria
Sempre sonhara
com a liberdade
Mas a liberdade
que me deram
Foi mais ilusão
que liberdade
Irmão sou eu
quem grita
Eu tenho fortes
razões
Irmão sou eu
quem grita
Tenho mais
necessidade
De gritar que de
respirar
Mas irmão fica
sabendo
Piedade não é o
que eu quero
Piedade não me
interessa
Os fracos pedem
piedade
Eu quero coisa
melhor
Eu não quero
mais viver
No porão da
sociedade
Não quero ser
marginal
Quero entrar em
toda parte
Quero ser bem
recebido
Basta de
humilhações
Minha alma já
está cansada
Eu quero o sol
que é de todos
Quero a vida que
é de todos
Ou alcanço tudo
o que eu quero
Ou gritarei a
noite inteira
Como gritam os
vulcões
Como gritam os
vendavais
Como grita o mar
E nem a morte
terá força
Para me fazer
calar
(Carlos
de Assumpção)
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